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domingo, 8 de novembro de 2009

Meu rugido dominical




A umidade relativa do meu ar está baixa. Respiro com dificuldade. As emanações da atmosfera provocam curto-circuitos e sinto na pele a instabilidade do ambiente. Antes mesmo que os fortes ventos anunciem tempestades, ajo como um animal e o espectro elétrico do ar me contamina: me arrepio, em franzidos, e preparo uma debandada antes que o céu desabe.


O fenômeno não é desconhecido mas as consequências o são. Nunca sei se depois da tempestade a calmaria trará viço ou destruição. Também não consigo prever com precisão se é apenas tempestade em copo d'água ou se o copo se estilhaçará.


Somente sinto que o ar é rarefeito. Tudo parece se mover em camadas lentas, como se o corpo não reagisse às altas atitudes. Os movimentos são de balé, compassados, contados. Porque é no vagar de cada passo que se atinge o seguinte ponto, como uma brincadeira de preencher os pontos e ligá-los por fim.


Se resolvesse acelerar, me faria falta o ar. Entraria, quem sabe, em convulsão. Melhor não. Padeço de calores e frios instantâneos que não se alternam. Ao contrário, sobrevêm em indefinidas ondas e, uma vez mais, completamente imprevisíveis.


Ainda que eu traçasse as rotas do ventos e das tempestades, temo que não conseguiria me afastar do olho da natureza que a tudo observa e absorve para dentro de si. Nesse compasso em que tudo adquire vibrações elétricas, nada mais me é controlável: falta-me energia, consumida pela combustão da própria força que gira intermitente.


As forças da natureza têm lá suas explicações. Mas não o suficiente para que eu as use em benefício próprio. Por ora, nada me é confortável. Tudo o que tenho são previsões. E são obscuras. Como se um dilúvio estivesse pronto a irromper e a naufragar um já náufrago.


Que sensação! Que impotência! Preciso apreender o caminho de saída. De parar essa iminente tempestade que nunca acontece. Ou defragá-la de uma vez por todas. Para que, enfim, chova. E que essa chuva me lave e me fecunde.


De que adianta cultivar FarmVilles? De plantar e não colher os frutos esperados? De preparar a terra, os silos, proteger o gado, cuidar da horta? De que adianta? Se as nuvens sempre pairam, à espreita, feito as ovelhas da fazenda? A balirem mudas, prenhes a saltitar a qualquer momento como que movidas por picadas de abelhas?


Porque hoje me sinto de posse de uma fazenda virtual: plantei por anos a fio. Cerquei, carpi o mato, afastei os intrusos, pavimentei a estrada de acesso, podei o gramado e me dei por completo. Que nada! Vem uma chuva e outra e mais outra e todos os anos de bonança se destemperam. Escorrem pelas enxurradas. Sem que encostas as detenham. Avassaladoras, as tempestades. Tombam com tudo, tomadas pela fúria que, dizemos, lhes é natural.


Natural seria que eu seguisse meu curso. Mas afinal, que rumo tomar? Se eu ao menos soubesse... Não há, na linha do horizonte, nenhum sinal, nem mesmo um risco fino que trace diretrizes, que indique 'por aqui, à direita'. Nada. Apenas uma paisagem desolada para um desolado passageiro.



Para o bem e para o mal, não sei se estaco e estaciono, congelado, ou se sigo sem rumo mesmo, apesar e por causa dos ventos fortes, da areia nos olhos, dos pingos que me atingem feito estalactites que perfuram. Ir, enfim, e, ao ir, conjurar Confúcio: "Uma jornada de mil milhas começa com um simples passo". Passinho para a frente, pois!


6 Comentários:

Renata Macedo disse...

adorei o texto. És um ótimo escritor. escreves o que sente ou apenas são relatos de uma realidade não real? o texto ta lindo e o blog também! :DD

Redneck disse...

Reanta, tudo bem? Bem-vinda a este espaço. É com algum pesar que admito que escrevo a minha realidade ou, melhor, o que me vai no coração. É uma realidade real sim e às vezes sinto necessidade de colocá-la para fora. Obrigado pelos elogios. Beijo!

gentil carioca disse...

Um texto quente, Mr. Red. Suado.
E muito bom, como sempre são seus rugidos.
bj

pinguim disse...

Óptimo texto, como é normal, mas um pouco pessimista, descrente, melhor diria; mas a conclusão do mesmo, com a ajuda de Confúcio, desanuviou-me o espírito.
Abraço.

Redneck disse...

Gentil, é que eu estava engasgado, como percebeste. Mas já passou. Desde que eu coloque para fora, tende a passar. Beijo!

Redneck disse...

Pinguim, como eu disse para a Gentil Carioca, é que isso me estava travado e eu precisava liberar e, quando sai, sai pesado mesmo. Mas como você mesmo lembrou, a recorrência a Confúcio, por fim, suaviza todo o resto. Vocês, comentaristas, estão a me conhecer muito bem, seus danados! Abraço!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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