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sábado, 31 de outubro de 2009

De como se processa a degradação do jornalismo brasileiro

Nas últimas três semanas, fiz trabalhos para cinco diferentes veículos. Quiçá eu tivesse 48 horas no meu dia para abarcar tudo. Entre poucas horas de sono e muito trabalho, dei conta de todos. Sou freelancer há quase quatro anos. As redações - da grande à segmentada mídia - estão cada vez mais enxutas ou tomadas por profissionais que começam com um salário-piso.


Não é de hoje que vejo redações inteiras serem desmanteladas e ressurgirem com menos qualidade. Os donos dos veículos de mídia não investem: fazem financiamentos, alegam custos inexistentes e jamais se preocupam em fazer revisões periódicas de faixas salariais. O sindicato não tem força. Para nós, profissionais da imprensa, somente nos é dada uma alternativa: trabalhar mais para cobrir vagas que nunca serão preenchidas e ganhar o mesmo.


Aliás, ganhar o mesmo seria até razoável, no contexto. O problema é que a maior parte de nós fomos submetidos a regimes de exceção que, ou muito me engano, ou viraram regra: na última década, para fugir dos impostos, os empregadores fizeram com que nós, pessoas físicas, migrássemos em massa para pessoas jurídicas. Eu tenho uma empresa, meus amigos têm e o fato de ter a própria empresa e emitir nota fiscal passou a ser um critério na seleção - para a redação e para jobs pontuais.





Esse cenário tem, na minha opinião, se agravado cada vez mais: em eventuais contratações da meia dúzia de veículos que ainda o faz, as propostas salariais são ridículas. Ninguém mais leva em conta o conhecimento, o trabalho que você faz e o grau de especialização ou de generalização (o jornalista tem que ser especializado em generalidades, dizem) de que você é capaz.


Sempre que saímos de uma redação, parece que, junto com a empresa, fica o nosso histórico profissional. Para o mercado, somos apenas mais um na multidão. Em que pese a cobrança por dados curriculares que atinjam os mais diversos níveis - conhecimento de inglês, espanhol e, preferencialmente, de uma quarta e até uma quinta línguas; domínio do ambiente digital - redes sociais, programação básica em HTML!; completo controle sobre os concorrentes; metas para dar 'furos' de reportagem'; metas para se entrevistar e manter contato com fontes que, cada vez mais, são tão instáveis quanto nós mesmos; necessidade de ser um jornalista multitarefa - fazer pauta, entrevistar, cuidar da produção das fotos, saber alimentar as diversas entradas - sites, mobile site, veículo impresso; e, ao final, ainda ser um jornalista bom de texto e completamente investigativo, daqueles que são odiados pelas fontes por lhes 'roubarem' informações preciosas.


Como se fossemos espiões. Como se não houvessem outros profissionais de comunicação (assessores de imprensa, gerentes de comunicação, áreas de comunicação corporativas inteiras) a nos bloquear eventuais acessos paralelos e a filtrar, o tempo todo, o que pode e o que não pode ser dito. Alguns dirigentes dos veículos - e qualquer tipo de veículo - ainda não se deram conta de que o hábito antigo de cultivar a fonte acabou. Ninguém é de ninguém e somos, como me disse uma professora do primeiro ano da faculdade de jornalismo, apenas escadas para elevar outras pessoas. No caso, as fontes das empresas.





Nessa escalada que mais se equipara à escalada técnica com que os jornais televisivos abrem suas edições, alguns de nós (eu, inclusive) aceitamos os trabalhos conforme nos chegam. Porque ser freela, nesse campo (e imagino que em outros também) depende somente de você: ou você aceita as condições ou não será procurado uma segunda vez.


Assim, entre os cinco veículos para os quais eu trabalhei, como disse acima, aceitei fazer um artigo. Demorei oito dias úteis, falei com seis fontes bastante conceituadas e produzi o texto. Tenho noção do meu trabalho e sei que sou bom no que faço. Além de eu mesmo ter essa consciência, vezes sem conta me disseram isso. Portanto, sei que sou bom jornalista. Entreguei o texto no prazo (e respeitar o prazo é fundamental nessa profissão) e, pronto!, dei o trabalho por encerrado.


A empresa que me pediu esse job é conhecida. Não é uma empresa de fundo de quintal sobre a qual ninguém ouviu falar. Tenho amigos que lá trabalham. Na próxima segunda-feira, dia 2, fará um mês que entreguei o artigo que, inclusive, já foi publicado há três semanas. Ontem, dia 30, liguei para a empresa para saber quando seria pago. E foi triste: me disseram que a empresa está sem fluxo de caixa (um artifício para nos enrolar) e que me pagarão apenas no dia 17 de novembro. Ou seja, serão 45 dias depois do dia em que entreguei o artigo.


Não sei vocês, mas minhas contas insistem em vencer mensalmente. De forma que, de 30 em 30 dias, tenho que pagar ou serei multado ou sofrerei as sanções por não honrar meus compromissos. Não são 25 dias ou 45 dias. São 30 dias. Depois que falei com a pessoa responsável que, obviamente, não abriu nenhuma hipótese de negociação, se me abateu um sentimento de profunda tristeza com o jornalismo brasileiro. Um pouco mais, já que não é de hoje que reclamo da profissão.





Tive um professor de inglês, nativo do Texas, EUA, que me dizia não entender como nós, da imprensa brasileira, nos sujeitávamos às péssimas condições de trabalho. Esse professor relatava casos de jornalistas norte-americanos, seus amigos, bastante diversos dos nossos próprios casos. Eu sempre refutava e dizia que nós não tínhamos como exigir. Além de não termos um sindicato forte, não se tratava de escolher. Éramos nós os escolhidos e prontos.


Falei duas vezes da fragilidade do sindicato e explico: há um piso para a profissão, assim como para trabalhos feitos por freelancers como eu. Os valores variam conforme o número de caracteres (pode ser páginas, palavras ou toques) e a quantidade de fontes entrevistadas, bem como informações acessórias como fotografias, por exemplo.


Até onde eu sei, nunca fui pago pelos valores que o sindicato apresenta como 'pisos'. A mim me parecem mais 'tetos' do que 'pisos'. Se eu argumentar com as empresas de mídia com os valores previstos pelo sindicato, certamente me mandarão plantar batatas.


Não vou plantar batatas. Vou descascar batatas. Um dos motivos que me levou a fazer a faculdade de gastronomia foi, justamente, esse descrédito com o jornalismo. E também porque quero trabalhar com as mãos, e não mais com o cérebro. Na cozinha, importa o manejo da mão. Não é preciso pensar, elaborar fluxos de pensamento, encadear as entrevistas e fazer de 10, 15, 20 entrevistas artigos lógicos e claros.


Esse último episódio em que me humilharam com os 45 dias somente serve para ratificar minha crescente decisão de emigrar do jornalismo. Por ora, dependo dessa profissão. Eu disse um pouco antes 'descrédito'. E o disse bem: nunca fui iludido pelo jornalismo ou estaria, agora, a chorar 'pelas ilusões perdidas' feito Balzac (livro que eu li antes da faculdade de jornalismo e que me clareou as ideias antes que eu pudesse alegar desconhecimento).


Vivemos, os jornalistas, em um processo de deterioração. Somos, lentamente, desconstruídos. Relegados a uma superfície rasa. É um processo de degradação que atinge vários, senão todos, níveis do jornalismo brasileiro. Antes de ser jornalista, fui bancário. Por meu próprio esforço, saí do mercado financeiro e vim ao jornalismo. Foi uma ruptura radical. Sinto que não terei escrúpulos em fazer de novo a transição e ir da cozinha da redação para a cozinha de fogões. Ou serei eu mesmo cozinhado à exaustão até ser reduzido à condição de confit de pato. Quak! Quak!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A rotina que conforta

Está na moda a comfort food - a comida caseira, simples, feita pelas nossas mães e avós e que, em geral, é bastante trivial, sem grandes inovações, técnicas e ingredientes exóticos ou alternativos. É uma comida de rotina e, por isso, relacionada ao conforto: nos aconchega por meio de sabores, cheiros e texturas familiares e nos proporciona segurança. Mas isso é rotina. Ou não?





Esta semana teve quatro dias úteis (a última segunda-feira foi feriado no Brasil). Mas a minha semana foi tudo exceto rotineira:


- Dormi, entre terça e hoje, apenas 10 horas ao todo.
- Trabalhei das 9 da manhã às 3 da manhã nos últimos quatro dias.
- Falei pelo menos três línguas: português, espanhol e inglês.
- Consumi aproximadamente 10 horas no deslocamento entre a minha casa e o local do evento que cobri.
- Fui pago pelo meu trabalho em duas moedas: reais e dólares.
- Vi e tive contato bastante próximo com duas pessoas cujas ideias me são bastante distantes do meu universo: o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, e o governador do Estado de São Paulo, José Serra.
- Entreguei, de segunda-feira até hoje, aproximadamente, 100 mil caracteres de textos que fiz para quatro veículos diferentes de conteúdos completamente diversos entre si.





Por tudo isso, releguei ao esquecimento uma série rotineira que sigo e da qual sempre reclamo:


- Ritual de preparar o café, ler o jornal, fumar um cigarro, abrir o computador e começar o dia.
- Comfort food: a comida caseira que eu mesmo preparo.
- Caminhar às noites.
- Ir, gratuitamente, dar uma espiada na livraria perto de casa e tomar um café expresso na esquina.
- Gastar tempo em atividades como ler, cuidar do blog e simplesmente não fazer nada durante alguns momentos do dia.





A rotina massacra, dizemos, em bordão contra o ato de se repetir os dias, semanas e meses. Mas senti imensamente falta da rotina. Até porque não acredito, verdadeiramente, que os dias são iguais. Ainda que se conserve os mesmos atos e atitudes no dia-a-dia, há pequenas alterações quase que impercetíveis que, embora minúsculas ou desprezíveis, mudam o cenário, o contexto e a ideia de que todos os dias são iguais: um barulho diferente, um sol inesperado, um telefonema surpreendente, uma notícia agradável.





Ontem, postei uma poesia que traduzia o meu despeito à exaustão e à necessidade que o jornalista brasileiro tem de se desdobrar e se dobrar em tantas e tão diversas personas profissionais que acaba, por fim, num emaranhado de prazos, números e total falta de qualidade de vida. Era um lamento ao que nós, profissionais de mídia, nos transformamos: autômatos de um processo que não cessa nunca, com produção de conteúdo que vai de um país ao outro em segundos, obrigados a compormos com a demanda da globalização (num dos casos, prestei serviços para uma pessoa de Barcelona, Espanha, que me contratou via e-mail para uma empresa cuja sede fica em Buenos Aires, Argentina, para trabalhar em São Paulo, Brasil).





Esse desenraizamento de rotina e de referência geográfica me coloca na roda incessante e febril que muda, pouco a pouco, a face de um profissional de comunicação. Já não sou um jornalista no sentido estrito do termo e, embora não tenha deixado de sê-lo por completo, caminho rumo a um novo patamar que ainda não consigo visualizar com clareza.


E, para retomar a simplicidade da comida caseira, creio que o sentimento que carrego, de me sentir desplugado sob vários aspectos, é uma tendência coletiva, senão em larga escala para todas as pessoas, mas que atinge cada vez mais as sociedades. Se, por um lado, provoca esses deslocamentos virtuais de tempo, espaço e geografia, por outro, creio, pode criar oportunidades antes improváveis que eu nem imaginava existir dentro de uma concepção restrita de rotina.





Ainda não sei quais serão os resultados disso tudo. Mas, admito, senti falta da familiaridade com a qual me cerco todos os dias e creio que esses dias me acrescentaram mais do que cansaço: me trouxeram, até aqui, mais desalento, isso sim. Porque é como se eu fosse uma engrenagem dessa roda gigante que para apenas para permitir o acesso de novos passageiros e despejar aqueles que já não têm funções úteis. Ou seja, o meu próprio caso, talvez.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Guerra e paz: assim caminha a humanidade!


Acho que o grande fato desta sexta-feira, 9 de outubro de 2009, foi o anúncio de Barack Obama, presidente dos EUA, como o escolhido para receber o Prêmio Nobel da Paz. Sobre a notícia, considerada uma surpresa em todo o mundo, inclusive pela própria Casa Branca, o laureado disse: "Não vejo isso como um reconhecimento de minhas próprias realizações, mas sim como uma afirmação da liderança norte-americana em prol das aspirações dos povos de todas as nações. Para ser honesto, não acho que mereça estar na companhia de tantas figuras que transformaram o mundo" disse Obama, que prometeu dar para obras de caridade o valor integral do prêmio, de US$ 1, 4 milhão.





Pois, permita-me, caro Obama, discordar do seu discurso - 'não acho que mereça estar na companhia de tantas figuras...'. Ao contrário. Em retrocesso, ganharam o Prêmio Nobel da Paz as seguintes figuras:


- 2008 - Martti Ahtisaari (Finlândia): foi presidente da Finlândia entre 1994 e 2000 e ganhou o prêmio pelo trabalho de mediador em conflitos internacionais.







- 2007 - Al Gore (EUA): vice-presidente de Bill Clinton, ganhou o Nobel pelos esforços na disseminação de informações sobre as mudanças climáticas e respectivos efeitos para os seres humanos.





- 2006 - Muhammad Yunus e Grammen Bank (Bangladesh): Muhammad é criador do Grammen Bank, que oferece microcrédito para pessoas pobres.





- 2005 - Mohamed ElBaradei (Egito) e Agência Internacional de Energia Atômica (Áustria): diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed e a agência foram premiados pelos esforços em assegurar o uso da energia atômica para fins pacíficos.





- 2004 - Wangari Maathai (Quênia): ambientalista e ativista dos direitos humanos quenianos.





- 2003 - Shirin Ebadi (Irã): ativista dos direitos humanos e da democracia iraniana.





- 2002 - Jimmy Carter (EUA): ex-presidente dos EUA, premiado pela diplomacia usada na solução de conflitos internacionais.





- 2001 - Kofi Annan (Gana) e Organização das Nações Unidas - ONU (EUA): presidente da ONU à época, Kofi foi premiado pelo papel que exerceu à frente da entidade.





- 2000 - Kim Dae-Jung (Coreia do Sul): ex-presidente da Coreia do Sul, foi premiado pelas tentativas de reconciliação e reunificação com a Coreia do Norte.






- 1999 - Médicos Sem Fronteiras (França): a ONG foi reconhecida pelo trabalho humanitário que presta em todos os continentes.





Relacionei a última década de Prêmios Nobel da Paz para dar a dimensão do que quero afirmar: as premiações, historicamente, dedicam-se à politização da paz, e não exatamente à paz em si. Exceto por Muhammad Yunus e seu banco para pobres de Bangladesh, premiado em 2006, e pela organização não-governamental Médicos sem Fronteiras, premiada em 1999, os demais, inclusive Barack Obama, são políticos. Até mesmo os ativistas identificados com os direitos humanos e com questões do meio ambiente - de Jimmy Carter a Al Gore, de Wangari Maathai (Quênia) a Shirin Ebadi (Irã) - são, todos, seres políticos que usam exatamente arsenal político - retórica, projeção, ressonância - para defender seus pontos de vista.


E, pode ser uma avaliação precoce minha, mas o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, está plenamente em processo de construção para uma plataforma que lhe dê, futuramente, o cobiçado Prêmio Nobel da Paz (recorde-se o episódio de resgate das jornalistas norte-americanas da Coreia do Norte, que haviam sido condenadas a 12 anos de trabalhos forçados antes da intervenção de Clinton).


De forma que o laureamento de Barack Obama somente surpreende por ter sido feito tão cedo, no primeiro ano do mandato do presidente norte-americano. Quanto aos laureados anteriores, portanto, Obama não tem do que se constranger ao ficar, agora, ladeado pela 'companhia de tantas figuras...'. São figuras que se refletem, feito espelhos, mais ou menos embaçadas, mas, de alguma forma, bastante semelhantes em perfil. Ah! E não interessa a ninguém, nesse momento, apontar que o atual detentor do prêmio seja o líder de um país que mantém duas guerras em andamento: no Afeganistão e no Iraque. Isso é um mero detalhe.


Até porque o Prêmio Nobel (que tem seis categorias - Física, Química, Fisiologia/Medicina, Literatura, Economia e da Paz) foi criado justamente pelo sueco Alfred Novel, ele mesmo inventor da dinamite, usada sempre e constantemente para fins nada pacíficos. Portanto, não há nada de novo no front. E antes que me apontem como bélico por usar expressão de guerra em post sobre a paz, quero apenas reafirmar que, afora os dois mencionados Nobel que para mim são exceções na última década, os demais estão (ou seus respectivos países) envolvidos com conflitos, militares ou paramilitares. E o Nobel afigura-se-me mais a uma guerrilha de marketing do que a um prêmio de conteúdo exclusivamente íntegro. É guerra e paz, sempre, my brothers & sisters!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Alguma coisa acontece no meu coração...

...e em mais 191.828.286 corações (éramos o total de brasileiros às 22:22 horas desta sexta-feira, dia 2, segundo o popclock do IBGE) quando somos tomados pela emoção e nada mais nos contêm: nem os muros de decepções, nem as cercas de proteção que criamos à nossa volta e tampouco as defesas que construímos pouco a pouco. Vejo tudo ruir, ir abaixo feito castelos de areia.


Nesse momento, sinto-me, mais do que nunca, conectado ao mais íntimo significado de brasilidade: uma nação de chorões, cujos corações, por mais sofridos e castigados que sejam, mutuamente nos encontramos, num fugaz instante, e celebramo-nos a nós mesmos.





De ofício e de formação, sou racional. Não costumo mais me emocionar com sentimentos coletivos, bons ou ruins. Limito-se a assistí-los e, no máximo, a observá-los com certo cinismo próprio de quem se acha acima das superfícies porosas de mazelas, desgraças e infinitas dores que afligem o grosso do povo. Esse desdém não é calculado. Ao contrário, me visto dele para não capotar junto. Mas, exatamente por serem porosas as superfícies é que, longe de eu me distanciar, sempre estarei pronto a vazar pelos poros, e bem mais colado à massa popular do que quer supor a minha tola filosofia.


Claro, nuvens de dados, de informações e de argumentos brotam nos meus céus. Mas imediatamente as inundo, a essas nuvens, feito uma chuva torrencial. Chuva salgada, brotada de lágrimas coletivas às quais me junto. E, já sem o menor pudor, viro povo. Me emulo no povo e sou povo, finalmente. Devidamente entranhado no que mais bonito pode haver nesse povo: a emoção.





Que corre à solta. Que nos diferencia e nos coloca em outra categoria, a de bezerros desmamados. Choramos e berramos de tristeza. De felicidade. Pelas tragédias. Pelas perdas e pelos ganhos. Por nós mesmos e pelos outros. É um chororô eterno. Que me irrita, sim!


Ainda ontem afirmei, convicto (oh!, que pretensão!), a uma amiga que me relatava uma humilhação seguida de choro. Eu dizia: você tem que parar de se submeter, de chorar porque a pessoa te reduziu porque, ao chorar, você reafirma e legitima o domínio que essa pessoa tem sobre você. Sou cheio de conselhos, como você pode ver. Claro, eu, o controlado, não vou chorar, derramar lágrimas por besteiras.





Eu, que apontei dardos e petardos: olhai as mazelas nos campos e nas cidades, a ausência de água filtrada, de saneamento (básico, não o tratado), de luz elétrica, de educação, que o analfabetismo cresceu ao invés de se reduzir. Eu que xingo a rudeza do povo, a falta de educação dos que avançam nos semáforos, dos que entopem as escadas do metrô, dos camelôs que tomam as calçadas e nos colocam, pedestres, na mesma faixa dos veículos. Abomino, sempre que posso e também quando não posso, essa incivilidade, gerada talvez graças à confluência das três raças: do índio, do branco e do negro.


E mais: misturada com uma infinidade de outras raças, numa festa promíscua de miscigenação que, por fim, me deu, a mim mesmo, origem: pois que descendo de sírios, turcos e espanhóis e olhe lá se não houver algo mais nesse molho.





Portanto, eu me obriguei a uma racionalidade que não a encontro. Não a vejo refletida na lida do dia. Que, turco/espanhol, deveria eu, portanto, ser mouro. E, como mouro, ser árido, de grossa crosta. Que do lado espanhol, minha bisavó, hirta e hirsuta, vinda lá da Catalunha, não se permitia luxos: era toda embrulhada em preto, com vestes enrugadas a lhe cobrir a pele igualmente enrugada, fechada às dezenas de botões que nunca floriram. Que não havia sorrisos gratuitos. Não havia sorrisos. Ponto.
E da paterna face eram só rezas ferozes e pouca alegria pagã. Do que herdei uma carranca facial e mental.


E da qual não pretendia me desfazer. Eu, cínico! Crítico! Leão feroz a abater presas fáceis! Ora! Foi tudo pelos ares: comemorei, celebrei, chorei. Verti lágrimas e me uni ao Lula chorão. A um Brasil emocionado na TV, cujo jornalismo tornou-se, uma vez mais, um carnaval de emoções de apresentadores. Mandei tudo para o espaço: danem-se as ausências de infraestrutura, as difíceis condições básicas de sobrevivência, o clamor por um futuro que não chega!





Me juntei ao povo. De novo, me fiz povo. Virei num átimo um brasileiro a mais e tive orgulho dessa pátria. De um tudo: do povo, do presidente que chora na TV mundial, de mim mesmo e por todos. Por tudo o que somos e por aquilo que almejamos. Por um fogo sagrado que nos alimenta e nos consome sempre assim, como uma vela a pingar gotas quentes e depois torna-se fornalha para lançar terríveis chamas. Que queimam a garganta, aquecem o coração e feito fundição, fundem o coração e nos fazem arder: neste momento olhamos para os lados e somos iguais.


Somos assim, o Brasil. O brasileiro, se métrica houvesse para medir, é 98% de emoção e 2% de razão. Chora porque vai embora. Chora quando chega. Vibra com coisa pouca: um gol do time amado, a reunião no boteco da esquina, o nascimento de uma nova vida. Somos festivos, barulhentos. Tenho raiva dessa condição por vezes. Mas quando estou eu a festejar e a fazer barulho, que se danem os demais. 


Somos assim, o Brasil. Egoístas de nossas alegrias, tão poucas e ao mesmo tempo tão demasiadas que chega a doer. Nos derretemos nas lágrimas para chorar os mortos. Para batizar com as lágrimas os recém-nascidos. Lembro-me de um amigo, falecido, que proibia veemente lágrimas, choro e cenas no próprio enterro e nos ameaçava com potenciais voltas do além caso agíssimos como carpideiras. Qual o quê! Quando ele se foi, não foram poucos os que soluçaram alto e sem pudor. Somos assim, o Brasil.


(P.S. Faço deste post uma homenagem a todos nós. Não pelo ufanismo puro e simples ao qual eu sempre repudio. Mas, me desculpe, abram alas porque temos que passar. É urgente que passemos. Teremos, nos próximos seis anos, duas oportunidades de passar por essa catarse coletiva que nos libera a todos de qualquer mal: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Por mais defeitos que eu encontre, me é impossível não sucumbir ao coletivo nacional. Somos assim, o Brasil.)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou


Você conhece efetivamente alguém que tenha saído de casa para comprar cigarros na padaria ou no bar da esquina e nunca mais voltou? Alguns tendem a afirmar que isso é uma lenda urbana. Outros conhecem alguém que conhece alguém que... Eu não conhecia ninguém até a semana passada...





Bem, o fato é que, anualmente, no Brasil, desaparecem mais de 200 mil pessoas entre adultos, crianças e adolescentes. E, desses, entre 10% e 15% (20 mil e 30 mil) jamais retornam a suas casas. É muita gente. Os números são da Associação Brasileira de Busca e Defesa das Crianças Desaparecidas (ABCD), mais conhecida como Mães da Sé.





O tema me ocorreu porque o filho de uma conhecida sumiu na última segunda-feira e ficou 'desaparecido' por 24 horas. E o que ele fez foi justamente isso: saiu para comprar cigarros no bar da esquina, sem documentos, de chinelos, bermuda e camiseta e sumiu!


Ficou mais de 24 horas numa zona cega, sem que a mãe soubesse o que lhe havia acontecido. Claro que o desenrolar da história foi algo mais prosaico: bêbado, perambulou sem rumo pelas ruas e foi bater na casa da esposa, com quem tinha brigado. A mãe, que não sabia do paradeiro, sequer imaginou em procurá-lo justamente de onde tinha saído tão raivoso. A despeito dos problemas que causou, afinal, ninguém sumiu ou se machucou seriamente. Mas alguns sinais ficaram e as mágoas, já se sabe, acumulam-se em camadas de difícil remoção.





Mas essa história, real, é uma exceção. Na cidade de São Paulo, estima-se que 30 pessoas ou mais desapareçam diariamente, por iniciativa própria ou não. São pessoas que nunca mais serão vistas pelos parentes. Que sumirão num rastro indefinível e que mais parecem suicídios em vida. Daquele tipo de suicida que não deixa bilhetes, que não justifica a saída repentina dos palcos. Simplesmente vai. Sem possibilidade de volta.


A história que relatei tem elementos que, racionalmente, justificam (na minha opinião) o desaparecimento: total ausência de afeto, um lar desfeito, pouco dinheiro e muito gasto, falta de perspectiva, alcoolismo, ambiente de drogas. É um perfeito retrato de milhares de outros brasileiros que vivem em situação similar. Também eu, se estivesse nessa posição, pensaria, em algum momento, em sumir.





Sabe aquelas piadas de cúmulos? Pois dizem que o cúmulo do absurdo é morar sozinho e fugir de casa. O que a piada não diz é que não se pode fugir de si mesmo, viva-se só ou com cinco ou oito pessoas. Portanto, não sei dizer o que leva as pessoas a ir para a esquina sob o pretexto de comprar cigarros (pode ser pão, caixa de fósforos, pó de café, qualquer coisa, mas eu fico com o cigarro mesmo porque estou por aqui com a campanha do antitabagismo!) e sumir, afinar junto com a linha do horizonte até que não reste nem a silhueta.


O problema dessas desaparições que mais parecem abduções é tão grave (por envolver, em muitos casos, crianças, adolescentes e pessoas com deficiências mentais) que existe uma lei - 11.259/06 - para regulamentar isso: todas as delegacias brasileiras são obrigadas, ao registrar a ocorrência de desaparecimento de uma criança ou adolescente, a iniciar, de imediato, as buscas e acionar, simultaneamente, aeroportos, portos e terminais rodoviários. Claro que isso é teoria. Na prática, a não ser que os parentes se empenhem, nada disso acontece.





Para fins práticos, no entanto, qualquer pessoa que se veja envolvida com o desaparecimento de familiares, conhecidos ou amigos, deve contatar o serviço de Disque-Denúncia ou o 190 (Polícia Militar). Existem, inclusive, alguns sites especialmente dedicados a agregar informações sobre pessoas desaparecidas. É o caso da própria entidade Mães da Sé (ou ABCD), do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas (CNPD), da ONG Desapareceu, do site Pessoas Desaparecidas e do serviço da Prefeitura de São Paulo.


No entanto, se os casos de desaparecimento de crianças, adolescentes e pessoas com problemas mentais é um caso de polícia, volto ao princípio do post: o que dizer de adultos que o fazem voluntariamente, de caso pensado? De pessoas que resolvem 'esquecer' a vida atual e começar do zero? Que tornam-se, de repente, clandestinas? Rostos desconhecidos que, repentinamente, aparecem em outro ponto do País sem que lhes saibamos a origem, o nome, o estado civil? Essas pessoas, para mim, perderam a identidade de si mesmas e, mais do que fugir dos problemas, fogem de si mesmas. E forjam, sem o conseguir jamais, uma outra vida, suspensa entre a vida anterior e a nova vida que nunca se concretizará. Ficam, para sempre, em esquinas do mundo, a fumar cigarros sem filtro, acrescentados do amargor da vida pregressa. Sem amor. Sem compaixão. Sem saída.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Quando o pecado da cobiça se sobrepõe ao da gula

São Paulo está em plena celebração dos prazeres da mesa. Pena que não possa se dizer o mesmo em relação aos prazeres da ética e, sobretudo, ao respeito de consumo e do bolso alheios.

O jornal Folha de São Paulo desta quinta-feira, 3, publicou uma avaliação sobre 12 restaurantes que participam desta edição da São Paulo Restaurant Week (SPRW). O artigo, em boa referência, intitula-se "O joio e o trigo".


Biblicamente, encontro dois pecados capitais nesse tema: a gula, que é o prazer que todos temos (eu, pelo menos, o tenho, assumido) em comer, saborear, desvendar o sabor da simplicidade ao requinte dos bons pratos. O outro pecado capital é a cobiça, a fome de obter lucro de qualquer forma, inclusive sob pena de reduzir a qualidade.

Dos 12 restaurantes avaliados pelo jornal, cinco foram classificados na rubrica "decepcionou", em contraste com os outros sete, marcados com o grifo "valeu a pena". Reproduzo o nome de uns e outros e o faço como um alerta ao comensal: por que alguns proprietários acreditam que, ao fazer isso, vão conseguir ganhar? Será que visam apenas o lucro imediato? Será que se esquecem de que a memória gustativa e outras memórias marcarão, efetivamente, o usuário? E, pior, de forma negativa.

A São Paulo Restaurant Week é um ótimo evento para se vender em meio ao imenso mercado gastronômico da cidade. Os preços reduzidos - R$ 27,50 o almoço e R$ 39 o jantar - do evento deveriam soar como um menu-degustação das casas que à SPRW aderiram. Porque, dessa forma, ao conhecer um restaurante antes evitado, cujos cardápios cotidianos exibem preços a partir de R$ 75, qualquer cliente, se gostar, volta. Mais dia ou menos dia. Não importa. Se há qualidade - de atendimento, de sabor, de correção, de apresentação - as pessoas voltam. Uma vez por mês. A cada dois meses. Uma vez ano ano. Isso não interessa.

Não sou um expert em gerenciamento de restaurantes mas acredito firmemente que, ainda que a qualidade tenha um preço que possa ser considerado alto para o padrão médio, ainda assim as pessoas pagam por isso. Abaixo, os cinco restaurantes que desapontaram a equipe da Folha de São Paulo - por isso o "decepcionou" - e os motivos:

- Bacalhoeiro: prato principal - bacalhau - servido morno e seco, com guarnição murcha.
- Balneário das Pedras: serviço confuso, pedidos trocados e pressão para que o cliente deixe a mesa.
- Di Bistrot: prato principal - escalope e risoto - servido úmido e sem crocância, fora do ponto. Serviço desorganizado e água cara (R$ 4,90).
- Felix Bistrot: prato principal - rocambole de mignon com batatas sautée - servido cru, com batatas murchas e morno.
- Porto Rubaiyat: sistema de bufê provocou filas entre os frequentadores e o serviço não dava conta para atender a demanda. Um dos pratos - paella - não tinha tempero.

Os sete restaurantes cuja análise mereceu a indicação de "valeu a pena" dos jornalistas que fizeram o artigo foram:

- Antiquarius
- Brasil a Gosto
- La Brasserie Erick Jacquin
- La Pasta Gialla
- Magistrale Ristorante
- Paris 6
- Vinheria Percussi

Minha sugestão é que, como consumidores, simplesmente evitemos aqueles estabelecimentos que nos desrespeitam, exatamente como eu critiquei na minha coluna dominical, em rugido movido pela desatenção de locais com quem os sustenta: nós. Esse tipo de comportamento desacredita o SPRW e, com o tempo, pode dar ao evento uma pecha de coleta momentânea de poucas moedas que, ao fim e ao cabo, apenas farão aumentar o volume do joio em detrimento do trigo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Os desarvorados sob a árvore

1914: com as demandas geradas pela I Guerra Mundial para uma produção industrial com o fim de atender o conflito, os governos europeus acumularam poderes para agilizar decisões importantes. A princípio, esses poderes seriam revertidos à incipiente democracia europeia, tão logo a guerra acabasse. Isso não aconteceu. Ao contrário, converteram-se, esses poderes, em longínquos estados totalitários.

O totalitarismo é um regime político baseado na extensão do poder do Estado a todos os níveis e aspectos da sociedade. Adolf Hitler, Josef Stalin, Benito Mussolini e Mao Tse-tung, ainda que pesem algumas diferenças ideológicas entre totalitarismo, fascismo e comunismo, foram os representantes máximos desse tipo de regime.


No totalitarismo, o Estado se arvora como ente máximo na 'gestão' dos cidadãos e se dá o direito, total, de reprimir, conter, deter, impedir e punir o indivíduo que o confrontar. As pessoas contrárias aos limites impostos são classificadas de opositoras, subversivas e dissidentes. Em graus extremos, são, sumariamente, liquidadas.

2009: um exilado político, ex-presidente da então contestatória União Nacional dos Estudantes (UNE), retorna ao País em 1978 e reassume a trajetória política interrompida pelo exílio. José Serra, governador do Estado de São Paulo, eleito em 2006, é filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). No último dia 7 de agosto, entrou em vigor a Lei 13.541, popularmente chamada de Lei Antifumo. No site de divulgação da lei, há o seguinte parágrafo: "a nova lei restringe, mas não proíbe o ato de fumar. O cigarro continua autorizado dentro das residências, das vias públicas e em áreas ao ar livre. ...Os fumantes não serão alvo da fiscalização."

A democracia é um regime de governo onde o poder de tomar importantes decisões políticas está com os cidadãos, direta ou indiretamente.

A lei antifumo, em momento algum, foi debatida. Ao contrário, nos foi imposta. E é nesse momento em que confluem totalitarismo e democracia. E isso me faz lembrar a expressão: "Isto é uma democracia, mas quem manda sou eu". Ou melhor: "L'État c'est moi' (O Estado sou eu), frase atribuída ao rei Luís XIV da França, um monarca absolutista que reinou entre 1643 e 1715.

Sou fumante e não rechaço delimitações que protejam o não-fumante. Na minha casa, fumávamos meu pai e eu. Meu pai faleceu de ataque cardíaco e, embora não esteja comprovado, uma das causas prováveis é o cigarro. Ouço isso de tempos em tempos de todos os meus familiares. Sei de todos os males e das consequências do fumo.


Portanto, o fato de eu fumar é uma opção minha e, não sendo eu próprio um ser totalitário, não devo impor aos demais as consequências do meu ato. E não o faço. Respeito os ambientes da casa da minha mãe e outras dependências. Respeito os veículos alheios. Nunca me atrevi a acender um cigarro no banheiro do avião. Me incomoda que a fumaça do meu cigarro alcance o(a) meu(minha) interlocutor(a). Se estou em algum ambiente de terceiros, peço licença para fumar e, se não ma concedem, compreendo perfeitamente.

As políticas públicas de saúde, as entendo, embora não compactue com elas inteiramente. Mas não entendo algumas pessoas que radicalizam e, xiitas, querem me impor suas próprias convicções. E o fazem por meio de banimentos, isolamentos e exposição de forma que, aos olhos dos demais, eu me assemelhe a um pária. Não é exagero. Já passei por essa situação.

É como se, ao ser fumante, eu, automaticamente, passe a representar um segmento da sociedade que deve ser execrado e, se não me juntar ao rebanho 'saudável', devo ser reprimido, contido, detido, impedido e punido. Logo, sofro as repressões do totalitarismo. Sem chance de retrucar. "Os fumantes não serão alvo de fiscalização", divulga o site. Mentira! Somos alvo de fiscalização moral. Não importa que aquele que me critique polua, com seu automóvel. Não importa que aquele que me aponta o dedo aja como um dedo-duro, personagem corriqueiro de regimes totalitários.

A gente que delata sempre o faz, preferencialmente, como se telhados de ferro tivesse, e não de vidro que se estraçalham às primeiras pedras atiradas por outros delatores. Porque é assim que funciona: começa-se com uma lei rigorosa (aprovada, inclusive, por 77% dos fumantes) e ocupa-se espaço. Depois, o governo, animado pelas pesquisas e perspectivas de boa colheita política, amplia seus tentáculos. E, ao invés de democracia, vivemos um totalitarismo, um Estado absolutista.

Me soa estranho um ex-exilado agir como se o Estado fosse ele próprio. Logo quem lutou contra o poder do Estado de se imiscuir na vida do cidadão. E, lembre-se, Serra é ex-fumante e aspira a presidência deste País. Dois motivos que, mais do que nunca, o influenciam a fazer uma plataforma que o identifique como um cidadão do bem e antenado com o mundo moderno (restrições ao fumo nos EUA e Europa). Bem, a Europa não é exatamente pródiga em boas ideias. E quanto aos EUA, declino de comentar.


No último domingo, estávamos uma amiga e eu no Espaço Unibanco de Cinema, na Rua Augusta. Quer dizer, no chamado "Anexo" do Espaço, que fica no outro lado da rua, quase em frente ao Espaço Unibanco. Nesse anexo, há uma área livre e uma imensa árvore. A administração do local colocou pequenas mesas e cinzeiros ao redor dessa árvore. No domingo, havia competição para ocupar os bancos sob a árvore e comentei com a minha amiga que éramos os desarvorados sob a árvore. Sob os olhares dos demais frequentadores, nos arvoramos em animais expostos, talvez a caminho da extinção, a brigar não por um lugar ao sol, e sim um lugar à sombra. Que a árvore, coitada, converteu-se, de um dia para o outro, em instrumento exaustor de nossas espiraladas trilhas de fumaça.

Reproduzo abaixo parte do artigo (do dia 18 de agosto) do colunista João Pereira Coutinho, que escreve às terças-feiras no jornal Folha de São Paulo, com qual teor concordo plenamente:

"...Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre 'fumo passivo' e câncer.

O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde (OMS). O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não-fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.

Mas a ideologia é a ideologia é a ideologia. De vez em quando, afirmo que alguns traços nazistas sobreviveram a 1945. Sou insultado. Não respondo. Basta olhar em volta para perceber que algumas das nossas rotinas médicas mais básicas teriam agradado ao tio Adolfo e à sua busca de perfeição eterna. Exemplos? Certas formas de eugenia 'respeitável', praticadas por milhões de pessoas quando recebem uma má ecografia (ou ultrassom; o autor se refere a, provavelmente, má formação dos fetos e as consequentes decisões de se ter ou não a criança). Ou a demonização absoluta que o fumante moderno conhece nos EUA e Europa. E agora, hélas, em São Paulo.

Leio a legislação antifumo do Estado de São Paulo e reconheço a natureza totalitária dela, novamente dominada por uma ideia iníqua de perfeição física.

Tudo começa pela elevação da mentira a dogma: o dogma de que o 'fumo passivo' é um perigo fatal para terceiros. O dogma não é apenas fantasioso; é também perigoso, porque estabelece de imediato uma divisão moral entre os agentes da corrupção (os fumantes) e as vítimas inocentes (os abstêmios). É só substituir 'fumante' por 'judeu'; e 'abstêmio' por 'ariano' para regressar a 1933.

E regressar a 1933 é regressar a um mundo que desprezava a liberdade individual com especial ferocidade. A lei anifumo cumpre esse propósito. Proibir o fumo em lugares fechados, como bares e restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes deseja acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos.

Mas o melhor da lei vem no policiamento. Imitando as piores práticas das sociedades fechadas, a lei promove a delação (dedo-durismo) como forma de convivência social. Por telefone ou pela internet, cada cidadão é convidado a ser um vigilante do vizinho, denunciando comportamentos 'desviantes'. Isso não é regressar a 1933. É, no mínimo, um regresso à Rússia de 1917. Se juntarmos ao quadro uma verdadeira 'polícia sanitária' que ataca à paisana, é possível concluir que o espírito KGB emigrou para o Brasil.

Finalmente, lembremos o essencial: os extremismos políticos só sobrevivem em sociedades cúmplices, ou pelo menos indiferentes aos extremistas. Será São Paulo esse tipo de sociedade?

Parece. A última pesquisa Datafolha é sinistra: a esmagadora maioria dos paulistas (88%) aprova a lei antifumo. Só 10% se opõem a ela. Só 2% lhe são indiferentes. Mais irônico é olhar para os fumantes: depois de anos e anos de propaganda e desumanização, eles olham-se no espelho, sentem o clássico nojo de si próprios e até concordam com a lei (77%). Razão tinha Karl Kraus quando afirmava, na Viena de inícios do século (XX), que o antissemitismo era tão normal que até os judeus o praticavam. Péssimo presságio."

Comecei a escrever este post no domingo, logo depois do episódio de 'desarvoramento sob a árvore". Na ocasião, minha amiga citou a palavra "totalitário". Depois, me deparo com a coluna parcialmente reproduzida acima. Eu mesmo já havia usado o totalitarismo para fazer a relação com a lei. O quero dizer é que, fumante ou não, que não se olvidem as liberdades individuais. Uma ação ali e outra acolá e teremos, finalmente, um Estado absolutista a comandar nossos passos em todos os espaços, sejam públicos ou privados. Isso tudo me estava engasgado há tempos, o que motivou o extenso post. Desabafei! Com uma previsível tragada de cigarro, claro.

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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