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quinta-feira, 23 de abril de 2009

O que você faria com R$ 30 milhões?

O concurso da Mega-sena do próximo sábado, dia 25, deve pagar R$ 30 milhões. A fantasia, irresistível, é brincar com a ideia de ganhar a bolada e imaginar o que se faria com essa quantia. Pesquisei o que se pode fazer com os R$ 30 milhões e eis dez dicas para ter como referência caso você seja o(a) ganhador(a):



1. Comprar hotel em Porto Santo, na Ilha de Madeira, em Portugal - Cristiano Ronaldo, melhor jogador de futebol do mundo no ano passado, pagou R$ 30 milhões pelo negócio.

2. Ganhar R$ 210 mil por mês em investimento na poupança básica.


3. Pagar patrocínio para estampar logotipo seu ou de sua empresa no uniforme do time (quantia pedida pelo São Paulo no final do ano passado).

4. Tornar-se proprietário(a) de uma mansão em condomínio de luxo em Nova York e ter como vizinhos o estilista Marc Jacobs (que acabou de comprar a casinha de R$ 30 milhões) e a atriz Hillary Swank.


5. Bancar a Hebe Camargo e o Ratinho (custo estimado de ambos, mensalmente, para o SBT).

6. Ter dois Rolls-Royce e meio na garagem (cada um custa R$ 12 milhões).

7. Fazer uma novela no padrão da Rede Globo com 120 capítulos.

8. Patrocinar o carnaval inteiro de Salvador e ser o único VIP na cidade.


9. Comprar cerca de 200 apartamentos e mais de 500 carros básicos ou comprar 10 apartamentos de luxo em São Paulo e ficar sem carro, ou comprar 5 apartamentos de luxo e viver com medo do condomínio.

10. Fazer uma pequena comunidade (pode ser a de seus seguidores Twitter) feliz, com cerca de 2 mil passagens para a Europa e pouco mais de 5 mil ingressos para a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul.


Eu? Compraria três parlamentares (ao custo de R$ 10 milhões cada um) para que trabalhassem a meu favor: teria passagens gratuitas, apartamentos funcionais, lobbies para qualquer empreendimento, comissões de construtoras, intermediações financeiras e negociatas com todos os segmentos. Em suma: eu, no mínimo, triplicaria o capital investido e atuaria em vários ramos simultaneamente - aviação, hotelaria, construção, bancos - e, de quebra, poderia sair nas fotos com as celebridades que se amarram em gente com poder político. E financeiro, claro.

Com isso, eu me hospedaria no hotel de Cristiano Ronaldo, sacaria da minha conta nas Ilhas Cayman, compraria o Barsa, moraria em TriBeCa (NY), seria amigo de Hebe, que gracinha, e fugiria do Ratinho, andaria no Rolls-Royce do Lula, seria protagonista de Ugly Betty, ia tomar sol e água de coco com Ivete Sangalo e Cláudia Leite, viveria nas suítes presidenciais dos hotéis cinco estrelas e seria membro apenas de aSmallWord, para gente rica (as demais - Facebook, Twitter, Orkut, Bebo etc. etc. - deletaria todas).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Wonderful World

Eu sempre gostei dos comerciais da Coca-Cola. São dos mais criativos na minha opinião. A campanha atual do refrigerante no Brasil une dois símbolos da cultura pop: a própria Coca-Cola e os Ramones.


Veja o vídeo da campanha 2009 que já está no ar com o tema "Viva o lado Coca-Cola da vida".



Agora, os Ramones em si:



E em versão original do inconfundível Louis Armstrong:



Os anúncios da Coca-Cola norte-americana para os intervalos do Superbowl são, como os de outras empresas, os mais bem elaborados para irem ao ar no que deve ser o mais caro espaço publicitário do mundo. Veja os exemplos abaixo para o Superbowl deste ano e do ano passado.

Este tem tudo a ver com o nome deste blog, pois toma do Second Life os avatares e propõe a convivência entre seres virtuais e reais:



Este é o que eu mais gosto e foi feito para o Superbowl do ano passado:



E este é fofo, também para o Superbowl deste ano:




O world poderia ser tão wonderful quanto esses comerciais, não é não?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Grandes expectativas!


Ao andar pelas ruas, ir aos lugares e circular, pura e simplesmente, constato que, sim, o mês de dezembro tem a capacidade inequívoca de criar em todas as pessoas, de alguma forma, uma aura de grandes expectativas.

Somos, os brasileiros, uns crédulos, por princípio. Acreditamos sempre no melhor, ainda que o pior nos mostre as garras. Seguramo-nos na cândida ilusão de que o ano que vem será melhor, que coisas ruins não nos acontecerão e que, "com a graça de Deus", tudo correrá bem.


Também por princípio, sou cético quanto ao divino. Nada espero dos céus que a terra não me proporcione em dimensões mais cruas. Não peço nada ao éter porque me parece que tudo - céu, inferno e purgatório - é aqui mesmo, neste planeta. Não acredito que forças além do cotidiano e da realidade exerçam qualquer influência no que fazemos e no que deixamos de fazer.

O sentimento coletivo de esperança a que me refiro é uma condição muito brasileira. Não a critico, não! Ao contrário. Acho que essa sensação e o poder de acreditar em si e nos demais e vencer adversidades é o que nos faz o povo que somos.


Receio apenas que o eterno apelo ao paternalismo - estatal ou divino - é o que detém o povo, de forma geral. É o que o faz ser o que é e acreditar que as coisas mudam. Creio que meu pensamento é mais calvinista e tendo a achar que as mudanças somente ocorrem se os esforços são direcionados para isso.

Do contrário, não dá para esperar que os céus provenham o pão de cada dia. Sem falar no vinho. Esse tipo de constatação me ocorre porque São Paulo, nessa época, é tomada de uma fúria. Durante o ano todo, a cidade age, no todo, como um maratonista em final de corrida: apressa ainda mais o passo e dá arrancadas vigorosas. Sempre com pressa, sempre com atraso. Uma corrida que exaure e nem por isso fenece.


Mas, em dezembro, somos, habitantes dessa cidade, tomados por uma coletiva impressão de que não há tempo, de que não dá para fazer nada, de que não conseguiremos falar oi para as pessoas. Eu, como muitos paulistanos, viajo todo final de ano e passo longe de São Paulo tanto no Natal quanto no Ano Novo.

Ao mesmo tempo que amo viver nessa cidade, sinto ímpetos de deixá-la no final do ano. Sem remorsos. Fujo daqui. Do barulho. Dessa sensação de impotência de que há muita gente e pouco espaço. De que não há tempo, nunca, para nada. Fujo, de certa forma, desse ambiente generalizado que, num extremo, aguarda ansioso que tudo se resolva neste mesmo ano. No outro, teme o ano novo por ter que repeti-lo em doses semelhantes ao ano que se encerra. É uma dicotomia que, imagino, cada um que mora aqui não se furta de senti-la, de tempos em tempos.


Estou próximo dessa minha fuga anual. Me sinto um pássaro que ficou para trás do bando e agora se apressa a seguir-lhe o trilho, com medo de se perder no horizonte. Meu temor é o mesmo de todos os demais: ver acabar o ano e achar que, afinal, o que se fez dos 365 dias é pouco ou me atormentar por igual medida ao visualizar o próximo ano.

Ou seja, nenhuma novidade no front: passei o ano inteiro cheio de dúvidas e dezembro apenas tem o dom de concentrá-las, já que o simbólico balanço chega junto com o mês. Para abstrair de (pseudo)realizações, nada melhor do que pegar uma estrada e deixar para trás esse mundo ao qual eu não me canso de voltar.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Você é digital ou analógico(a)?


Você sonha, certo? Sim, você sonha. Pode não se lembrar, mas, que sonha, sonha. Isso é fato. A partir desse pressuposto - e se você se recordar -, você sonha em preto e branco ou colorido?

Uma pesquisa realizada nos EUA indicou que 88% das pessoas sonham colorido e apenas 12% sonham em preto e branco. A explicação está na exposição das pessoas à TV e ao cinema. Os pesquisados com menos de 25 anos nunca ou quase nunca sonham em preto e branco. Logo, são pessoas digitais, 100% HD (high definition ou alta definição), completamente integradas à digitalização da vida.


Mas, a faixa etária que se encontra com mais de 55 anos sonha 25% das vezes em preto e branco. São pessoas que tiveram pouco acesso ao colorido da TV e do cinema. Os 12% que sonham em preto e branco devem ter mais de 80 anos e o cérebro não permitiu que assimilassem o mundo colorido (conclusão minha). Logo, os acima de 55 anos são análogo-digitais e os acima de 80 são completamente analógicos.


O fato da televisão e do cinema influenciarem na cor dos sonhos esclarece-se quando se confronta o estudo atual com outras pesquisas realizadas na década de 40 nos EUA, pelas quais 75% das pessoas, de qualquer faixa etária, nunca ou raramente sonhavam colorido. Eram completamente analógicas, digitalmente toscas.


Agora, tenho explicações particulares entre sonhos coloridos e monocromáticos. Creio que sonhos digitais (coloridos) são aqueles que expressam nossos desejos mais prementes, sejam os materiais, sexuais ou rotineiros mesmo, de preocupações rasteiras.


Os pesadelos, imagino, são sempre coloridos, dado que a cor ativa o cérebro e ajuda a elaborar todo o cenário. Assim, não tem porque ver sangue em preto e branco no pesadelo. Os sonhos estão, na maior parte das vezes, relacionados aos acontecimentos do dia-a-dia das pessoas e também aos temores mais comuns: ficar nu diante da multidão (devo ter esse sonho recorrente de tanto que falo sobre ficar nu), perder a memória, morrer, sofrer algum tipo de violência etc.


Claro que há sonhos que precisam ser interpretados por pitonisas, tal o grau de dificuldade de traduzi-los para a realidade. Como não dispomos mais de pitonisas, recorremos mesmo é aos videntes de plantão e, algo forçosamente, interpretamos esses sonhos como bem nos apetece.


Agora, os sonhos em preto e branco, esses eu reservo para uma categoria especial: são como os filmes noir, cheios de mistério, de névoas e véus. Ocorrem no entorno do período de maior produção de sonhos, durante o sono REM (Rapid Eye Movement ou Movimento Rápido dos Olhos), que é a fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais reais, se é que posso classificar assim.


Na fase REM, a atividade cerebral é equivalente àquela quando se está acordado(a). O sono REM ocorre entre quatro e cinco vezes durante um sono considerado normal (de 8 horas). Pode-se acordar repentinamente após um sono REM que, somado, dura entre 90 minutos e 120 minutos por noite para adultos. Mas, de novo a idade: um bebê tem 80% do sono total formado por sono REM. Uma pessoa de 70 anos tem apenas 10% de sono REM. Para os jovens, categoria flexível o bastante para comportar quem não é bebê e tampouco ancião(ã), o sono REM dura 20% do sono total.


Dado que, de volta ao sonho preto e branco, é só somar dois mais dois. Sonha-se em P&B fora das horas de sono REM. Afirmo isso porque se o sono REM gera os sonhos mais vívidos, logo, esses sonhos são coloridos e de fácil recordação quando acordamos. De tal forma que a maior parte do sono convencional, por assim dizer, é tomada por sonhos P&B sobre o qual não temos a menor lembrança.


Se dado nos fosse armazenar sonhos em discos rígidos (ou mesmo em drives USB, a depender da qualidade do sonho de cada um, com mais ou menos gigabytes), o espaço de tal disco seria tomado por imagens analógicas. O que, numa evidente contradição, nos faria regredir ao tempo da câmera P&B com rolos e mais rolos de filmes a serem revelados para que os sonhos fossem, enfim, interpretados.


Olha só a dificuldade. Afora que se coloca uma questão importantíssima, concluída essa argumentação: se a maior parte de nós tem sonhos digitais, o que é dos sonhos analógicos, que perfazem quase que a totalidade do total do sono? Quer dizer que somos, no fundo, apenas periféricos. A era digital dos sonhos relegou as revelações mais interessantes àqueles pontos inatingíveis do disco rígido que nem um hacker é capaz de resgatar, ainda que se rezem terços e novenas para o santo do cérebro, aka santo Isidoro de Sevilha (considerado pelo Vaticano para proteger os usuários da internet e os programadores de computador).


Percebe que a era digital dos sonhos, ao invés de nos aproximar dos nossos próprios sonhos, tende a nos afastar ainda mais de qualquer elucidação que possa vir por meio de símbolos?


Posso parecer analógico ao declarar isso, mas, no tempo em que se processavam os sonhos apenas em P&B, havia mais possibilidade de rebobinar o filme e rever o passo-a-passo. Tudo era preto e branco, preto no branco. Sem firulas ou filigranas coloridas, com milhões de linhas de resolução que, num contraste absurdo, tornam insolúveis sonhos P&B agora perdidos para milhares de sinapses cérebro adentro.


Dou por encerrado o assunto, vasto e infinito. Me é impossível elaborar alguma resposta a esse tipo de questionamento. Até aqui, concluo que a digitalização do sonho me penalizou com a perda de memória. Não há cookies para rastrear o que quer que seja. Perdem-se, todas as noites, terabytes de sonhos analógicos. Lamento.


Em tempo, enquanto eu escrevia doidamente esse post, sem nenhum fundamento científico (algumas partes são reais, outras, imaginárias), li que há uma psicologia própria que ocorre durante o sono REM (gostei desse assunto!).


Assim, durante o sono REM, há uma série de acontecimentos que, sobremaneira, me interessam: as batidas do coração e os intervalos entre a respiração tornam-se irregulares, como se estivéssemos acordados e assustados. A temperatura do corpo é extremamente irregular. Para os homens, as ereções do pênis (chamadas de Nocturnal Penile Tumescence - NPT ou Tumescência Peniana Noturna) frequentemente acompanham o sono REM.


Sintomaticamente, há, para as mulheres, um alargamento do clitóris com consequente aumento do fluxo de sangue e lubrificação da vagina. Ou seja, somos todos uns tarados em pleno sono REM e nem sabemos de nada disso. Isso é um castigo????

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Dia do Solteiro


Atiçado pela Andarilha, vamos lá! Hoje, 15 de agosto, é Dia do Solteiro. Desse (eu, talvez você) ser que adora dizer "antes só do que mal acompanhado" e, assim que vê uma oportunidade, é capaz de se atirar na primeira pessoa que ousar olhar para o seu lado. Ah! Não é assim? Tá! Uma pesquisa do Datafolha constatou que 36% das pessoas acima de 16 anos no Brasil são solteiras. É muita gente sozinha. Conforme essa proporção, somente a cidade de São Paulo tem cerca de 4 milhões de seres sozinhos, sem más companhias (do total de 11 milhões de moradores). É muita gente, não?


Então, como é possível permanecer solteiro nessa cidade? Tenho cá comigo algumas hipóteses. Uma delas é a de que a sua (minha) cara-metade, pelas condições geográficas da cidade, nunca está no mesmo lugar onde você (eu) se encontra. Há um grande deus dos solteiros que se diverte em nos mover de lá para cá, tal qual marionetes, para que nunca nos encontremos. Enquanto você (eu) está na zona sul, eu (você) estou na zona norte. Se você (eu) está no trânsito, eu (você) estou no metrô. Por vezes, no extremo, estamos, ambos, no céu. Eu, de avião, você, de helicóptero. Nunca estamos a 10 metros um do outro. É um xadrez cujas peças nunca conseguem se ver. Somos peões separados por cavalos, bispos, torres (a minha), rainhas (algumas vezes, drags) e reis.


Outra hipótese é a de que já nos encontramos. Mas, não nos conhecemos. Uma mesma força elementar colocou entre nós uma terceira pessoa que faz de tudo para acabar com qualquer vestígio de contato, seja uma troca de telefone, um sorriso, uma corrida a um cantinho reservado. Pode reparar: às vezes, de um lado e de outro, acendem-se pequenas tochas de tesão e, no meio, um verdadeiro hidrante de bombeiro (hum!) de pronto apaga qualquer calor. É sempre um amigo ou amiga que, ou se faz de besta ou, de fato, não percebe a faísca que me (te) liga a ti (mim).

Numa terceira alternativa para explicar tanto desencontro, finalmente, nos conhecemos. Não há deuses fanfarrões e tampouco amigos(as) para atrapalhar a paquera/flerte/pegação. Daí vamos (os dois), prontos para cair no abismo coletivo, que tanto pode ser o inferno quanto o paraíso. Seja lá qual for nosso destino, ao menos tentaremos. Mas, por obra seja lá do que for, ainda que tal encontro se concretize, não damos (ambos) importância ao momento. Avaliamos (ambos) que o outro (eu ou você) se sentirá preso, não está a fim, queria apenas uma noite, não gostou do cabelo, do corpo, da conversa. Um monte de pequenos obstáculos para explicar o inexplicável. Até nos encontraremos posteriormente e nos trataremos friamente, como se fossemos um e outro completos estranhos.


Porque, segundo outra pesquisa, quando nos encontramos, em geral à noite, regados pelo álcool e sob luzes de pêssego (amarelas, laranjas, azuis etc. etc), parecemos lindos aos olhos uns dos outros. Quando amanhece, é um susto! E você (e eu) quer esquecer. Quer ser a Cinderela à noite e a Bela Adormecida durante o dia. Para ter a mágica e não ver o truque.

Essas são as minhas teorias. Na vida real, aqueles que vivem sozinhos "por opção" (ahahahaha!!!) andam a se unir em grupos para um "desencalhe em massa" conforme matéria publicada hoje na Folha. Se funciona? Aparentemente, não. Os solteiros (eu, você) somos como soldados que vão para o front e, depois da guerra ganha, voltam feridos e loucos. Passamos a viver feito lunáticos em cafés, livrarias, bares, botecos, baladas e a caminhar incessantemente, com um leve sorriso nos lábios (alguns de nós riem sozinhos). Uns, tomam o avião e partem para longe. Outros, adquirem a Síndrome do Pânico para explicar o sumiço. E uns terceiros, mais frequentes e autênticos, começam tudo de novo na semana que vem (siga este link).

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Amores expressos/por espressos


Tenho uma amiga que me define de duas formas: ou sou completamente ansioso, e me atiro com toda sede ao pote e, no processo, quebro o pote, me machuco, a água cai e continuo com sede; ou faço a linha oriental, com os olhos baixos, respiração em suspenso, um pó de prilimpimpim para desaparecer do instante e fazer desaparecer também o próprio instante.

Não tem jeito. Sou dois e os dois são estranhos. Não consegui uma combinação de ambos ainda, a despeito de trabalhar para forçar um encontro entre essas duas metades tão antagônicas. O ideal seria conjugar um e outro e fazer nascer um terceiro, com uma timidez administrável, que seria vista como uma qualidade, um pequeno pudor. Um ruborzinho não atrapalharia. Antes, talvez, atrairia.


Mas, na prática do dia-a-dia, nada disso se concretiza. Ou tenho pressa, e apressado come cru, ou olho para o lado diametralmente oposto e corro o risco de ser definido como estrábico. Ou sou primata, com tacape na mão, ou um asceta que atingiu o nirvana e paira acima do mundo real. Como não dá para conciliar ambiguidades tão diversas, tenho que tomar providências.

Comento isso porque acabei de concluir que talvez eu tenha que andar com um notebook acoplado a mim e que, melhor no manejo das palavras quando escrevo, não devo mais falar, em absoluto. Voltarei ao velho tempo dos correios-elegantes, em versão modernizada na tela do note. Acabei de ler no Man In The Box sobre o aumento da frequência nos cafés de SP, em função das restrições alcóolicas da Lei Seca. Como sou velho frequentador de cafés e peregrino incessantemente na busca de amores expressos/por espressos, farei como alguns frequentadores relatados pelo MIM: entrarei mudo e sairei calado (por vezes, se devido, pelado).


Minha boca será a tela plana do note. Minhas palavras serão expressas, com ou sem espressos, por meio de windows de words. Nada mais. Serei um cyborg da palavra.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Quasímodo saiu do armário


Vi o mundo hoje, quarta-feira, 30. Caminhei à larga pela Avenida Paulista, parei no Center 3, no Conjunto Nacional, fiz um pedaço da Augusta. Caminhei sem medo da multidão. Do dragão que ontem fumegava, um Quasímodo distendido resolveu sair da torre e se misturar aos mortais.


Explico a metamorfose de dragão em Quasímodo: depois de mais de 48 horas sentado em posição de Lótus moderno (em frente ao computador, digo), claro que a escoliose assumiu proporções de corcunda. Por isso, Quasímodo.

Minha vetusta torre não é nenhuma Catedral de Notre Dame e tampouco São Paulo é Paris. Mas, entre soltar o dragão e ser detido pela Guarda Metropolitana e sair à francesa, digo, à Quasímodo, vi que era melhor passar por monstro 2 (Quasímodo) do que por monstro 1 (dragão).

Conservo a barba dos dias de purgação. Por que eu haveria de fazer a linha da face lisinha se, de bebê, Quasímodo não tem nada? Se bobear, há um pequeno filete prateado que escorre da boca. Mas, a minha loucura, ainda bem, não tem sintomas exteriores, só internos.

Daí que resolvi sair do armário. Por três horas, fiquei na rua, sem um objetivo estabelecido. Apenas vagar. Sempre que concluo grandes jobs, tenho vontade caminhar sem rumo. Talvez para fazer escoar de mim o peso de tanta informação que, no final das contas, não me diz nada. Que prefiro as palavras como as encaminho por aqui, soltas e sem uma linha racional que as ligue. Se pudesse, cortaria o fio de Ariadne para me perder em definitivo no reino das palavras.

Da minha experiência de Quasímodo fora do armário, devo dizer que não assustei nem os cachorros. Talvez acostumados por monstros 3, 4, 5 ..., os cães, de forma mais esperta que os donos, identifiquem nos Quasímodos, dragões e afins mais afinidades do que se supõe haver entre humanos. E, você sabe que é bom andar por aí com cara de louco que foge do hospício?

De fato, tem um monte de loucos na rua, mas, ninguém admite. Daí que não cruzei, em absoluto, com olhares apavorados. Antes, recebi olhares recíprocos, de outros que saíram do armário e que insistem em parecer normais.

Até - e isso é extremo - fiz uma linha social. Dei passagem para alguns apressados na calçada, conversei (????) com um cara cuja loja mudou de lugar, brinquei (????) com a menina do café e sorri para algumas pessoas (com 15ª.s intenções).

Concluo que Quasímodo não mete medo em ninguém. Ou sentem pena, e, portanto, o acolhem com susto e dissimuladamente, ou o corcunda de Notre Dame está melhor no ranking social do que eu mesmo. De volta à catedral, estou em paz. A corcunda começa a pesar menos e o dragão, vencido pelas últimas três noites de trabalho, recolhe-se à caverna para mirar os traços dos pré-humanos (leia "A Caverna", de Saramago, e o inacabado "O Castelo", de Kafka. Encontrará em ambos os dragões todos que me habitam e, com alguma sorte, um Quasímodo).

terça-feira, 29 de julho de 2008

Na caverna do dragão


Estou a poucos passos de me tornar efetivamente um dragão encurralado na própria caverna: como eu disse ontem, também hoje é dia de Maria: encerra-se à meia-noite o meu próximo deadline. São ao todo quatro matérias que somam pouco mais de 20 mil caracteres. Três já foram expedidas, com a graça da banda larga.


O dragão? Sou eu! Estou com uma barba bandida, sem comer nada a não ser umas maria-moles e tomar litros de café. O cigarro ajuda, confesso. E compõe o dragão, porque sou, antes de tudo, antenado com a mise en scène.

Acabei de ler no blog da Patty uns comentários sobre a viagem da fofa para Buenos Aires e as aventuras a que a pobre (!) foi submetida nos pampas. Alguém comentou sobre o incidente em Antares, ops!, Sauípe, e me lembrei que nos referíamos a ela como um dragão encerrado na caverna.

Patty, neste momento, em que me isolo para terminar o trabalho, creio que posso avaliar a extensão de se ser um dragão. Estou dentro de casa há mais de 36 horas e a única certeza que tenho de que há vida fora da caverna é que:

1. Tenho janelas

2. Ouço ruídos (ou serão da minha cabeça?)

3. O telefone toca

4. A internet funciona

5. O jornal foi entregue na porta

Fora isso, sei que estou mesmo com cara de dragão. Do jeito que levantei, me pus a escrever. Minhas pretensões de trabalhar madrugada adentro acabaram no instante em que eu pousei olhares de carinho para a minha cama.

Mas, admito que, se há um dragão cá dentro, faltam-me asas. Se eu as tivesse, as bateria e sairia a queimar algumas redações pela cidade. Não é cólera, Engraçadinha, é amor!

Quanto às chamas, essas as tenho e, teúdo e manteúdo, as mantenho, intermitente e continuamente, que nem mesmo a inexistência de dragões pode extinguir.

O calabouço auto-imposto, no entanto, está prestes a ser rompido: com o fim do cigarro, o dragão aqui terá que mostrar a cara e as garras na rua. Falta pouco (para o cigarro, não para o trabalho). Se cruzares comigo, desviais-vos do meu caminho ou te queimarei com meu fogo!

terça-feira, 22 de julho de 2008

A Vida Secreta das Palavras

Assisti há pouco o filme "A Vida Secreta das Palavras", de Isabel Coixet (roteiro e direção). A sinopse: uma mulher (Sarah Polley) cuida de um homem (Tim Robbins) numa plataforma marítima de petróleo.


A diretora e a atriz já trabalharam juntas em "Minha Vida Sem Mim", tão denso quanto este que acabei de assistir.


O que mais me impressionou não foram as histórias dos dois personagens, e sim o motivo que leva as pessoas a se isolarem numa plataforma em alto-mar por meses. Alguns personagens afirmam literalmente que não conseguem viver em terra firme: "Tenho tremores quando estou em terra firme", diz um dos personagens. Outro diz que é mais fácil viver em meio a tanta água do que conviver com o "resto" do mundo.

Eu moro no nono andar do meu prédio. Às vezes, me sinto isolado como se estivesse numa espécie de torre. Daqui, tenho uma visão bastante abrangente de grande parte da Bela Vista e, com um pouco de esforço, ouço as grandes manifestações que ocorrem na Avenida Paulista. Vejo a 9 de Julho. Ouço eventos do Anhangabaú. E, a despeito de alguns me desacreditarem, até mesmo o barulho de shows do Anhembi.

Nos (raros) dias de pouca poluição e céu limpo, sou capaz de enxergar os contornos da Serra da Cantareira. É uma visão e tanto!

Mas, ainda assim, e com todo o barulho, vida, trânsito, ruídos de cidade grande, me sinto isolado. Só não há o barulho das ondas que batem nas vigas de aço da plataforma, mas, do contrário, quase que me sinto em um oceano infindável.

O filme é bonito. Sim. Ainda que faça concessões à redenção (o que nunca me agrada, né Alessandra!), gostei. Porque os diálogos, o cenário e a cegueira de um dos personagens realçam a vida secreta da palavras, como alude o título.

As palavras é que valem, no final das contas. Na torre/plataforma/nono andar, as palavras não concedem. Antes, contudo, distendem. Estraçalham, esgarçam, ressoam. Doem! E curam!

Foi assim que interpretei o título do filme. Porque, a cada livro que leio e a cada conversa que tenho, percebo mais e mais que as palavras têm vida (secreta) própria. Sim, nós as emitimos, certamente.

Mas, essas palavras podem ser como pássaros, que voam ao longe. Podem ser sinos de bronze que ressoam. Alarmes estridentes. Repetitivos. Podem ser ecos. Sim, têm vida própria. As há, as palavras mais duras, que não morrem nunca. Pairam enregeladas em nuvens que não se dissolvem. As carregamos feito fardos por toda a vida.

Como é mesmo que disse o Bandeira? "Estrela da Vida Inteira"? Acho que era isso. Ele dizia de estrelas, mas, significava palavras da vida inteira. Que brilham mais ou menos, assim mesmo, como nas constelações. Umas que podem ser vistas a olho nu. Outras, nem com potentes telescópios. As há, as palavras, assim como as há, as estrelas, que brilham intermitente ou eternamente.

Fiquei mais atado ao filme pelo nome do que pelo enredo, a princípio. Creio que as palavras impressas na tela com o nome do filme me disseram mais do que os diálogos. E o cérebro, que assim como outras partes do corpo, insiste em ter vida própria, não queria assimilar de forma alguma o nome do filme. Achei estranho. Fui e voltei com o controle várias vezes para lembrar o nome do filme. Por fim, desisti e escrevi. A memória trai, a safada! Está aí outra que deve ter uma vida secreta, separada de mim. Uma vida sem mim, a danada tem.

Aliás, que nomes, esses filmes da diretora! Ambos me tocam. Me fazem viajar no segredo das palavras, em suas vidas secretas e sem mim. Como ousam, suas tolas? Ousam porque estão soltas. Quantas palavras um ser humano fala por dia? E, quando nos calamos, em que dimensões ressoam todos os sons emitidos? Morrem? Anulam-se? Entrechocam-se em ondas magnéticas que se anulam feito prótons e elétrons?

Quantas palavras as há natimortas! As que estão a nascer! As bem-vindas. Esperadas. Ansiadas. Quantas são as não-ditas!

Tenho que dar a mão à palmatória: as palavras têm vidas secretas e, mais importante, vivem por aí, sozinhas, sem dar o menor valor a quem as emitiu. Encontram-se nas esquinas, descaradamente, a zombar de todos nós. Que nossos vocabulários são miúdos para tanta produção, devem dizer, sorridentes!

Minha vida sem mim. Minhas palavras emitidas e nunca mais recuperadas. Perdidas para mim. Será que ganhadas por outrem? Duvido! Desprezamo-as, as que emitimos e as que recebemos. Por isso, rebeladas, estão soltas, independentes, roliças até, de tão flexionadas.

Invejo a vida secreta das palavras. Independem de ar, de água, de calor, do frio. Vivem eternas, soberanas. São as caravanas que passam enquanto as ladramos, selvagens. Indomáveis, riem-se da nossa precariedade rota e com rota traçada: começo, meio e fim.

Porque, até mesmo ao fim, zombam de nós: "Aqui jaz!". Vitoriosas, voam feito anjos felinos, gatos pardos que nem a luz do dia ameaça. Adoro as palavras. As invejo, suas danadas!

terça-feira, 15 de julho de 2008

Para que saber tanto?

"É bom aprender, mas, os perigos são muitos a cada novo dia e é preciso estar sob constante cautela. Como resultado do aprendizado, tornamo-nos astutos, vis e precisamos usar uma armadura de autodefesa de duas faces. Aprender é culpa do envelhecimento. Esta é a razão de não haver nenhum idoso decente." Essas são as palavras de um gato, é, o gato, animal, que é protagonista do livro "Eu Sou Um Gato", do japonês Natsume Soseki.


O livro é bastante interessante e mostra a mediocridade dos humanos que rodeiam o gato, além da indolência própria do felino cuja maior felicidade é dormir ao seu bel-prazer. Estou na metade do livro e me deparei com o parágrafo acima.

Há muito me convenci de que quanto menos se sabe, mais se é feliz. O gato/autor afirma que não há nenhum idoso decente. Com isso, diz que nos tornamos, todos, ao final, indecentes. E por que indecentes? Porque as ilusões se foram, perdidas para os verdes anos. Quando ainda se confiava que haveria algo a fazer a respeito de qualquer coisa.


Ao velho, imagino, cabem as conclusões do quanto a vida pode ser enfadonha depois de tantas expectativas: acúmulo de dores, de lembranças, de perdas, do vigor físico. São tantos os degraus abaixo que melhor conduzem ao inferno do que ao almejado céu. E nós, que aspiramos subir, etéreos feito penas de ganso! Qual o quê?

Mais fácil imaginar que descemos em rápida velocidade pelos declives da vida. Que rolamos pedras montanha acima apenas para vê-las desencadear-se em perigosas avalanches.

Ainda por esses dias, fiz uma imitação patética de velhinhos lá em casa: andar trêmulo, olhos que não definem mais os contornos, bocas desdentadas, o acintoso uso de fraldas geriátricas para que não nos exponhamos ao ridículo, a perda da memória, da noção, das direções. A decadência, enfim!

Risível? Por ora, é fácil rir. Porque, se serei indecente de fato, o serei integralmente: na boca sem freios (e sem dentes), no jeito ranzinza de tratar os demais (a gente já chegou? a gente já chegou?), na rebeldia de mula, que insiste em ir a leste quando o correto é oeste. Para ser indecente, há que sê-lo deliberada e espontaneamente. Nem tanto que lhe cause a você mesmo o rancor dos outros, que ainda têm muitos degraus para se equiparar em indecência, e nem tanto que faça com que você mesmo tenha alguma auto-crítica.

O bom - se é que tem algo de positivo na decrepitude - é que lhe sobra tempo para matutar e concluir que, depois de tanto caminho percorrido, não sobra nada. Nem do que você imaginou para si e tampouco daquilo que tinha em mente quando se projetava para o mundo.

Para pagar essa conta pesada, prefiro escarnecer e cometer minhas cotas de indecência desde já. Vai que, mais à frente, eu me esqueça, velho demais para lembrar!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O poder do fracasso

Minha querida amiga Alessandra, que vive e trabalha em NY, é uma pessoa que some, desaparece, não emite sinais virtuais ou reais. Parece que atravessa a Central Station para um outro universo de vez em quando. Se, periodicamente, ela não visitasse o Brasil, eu diria que essa bruxinha está na escola de Hogwarts, como professora de magia. De vez em quando, no entanto, dá o ar de sua graça. Desta vez, em e-mail coletivo (marca registrada da criatura), nos enviou o discurso de abertura da cerimônia dos graduandos de Harvard.

Segundo a Ale, muitos alunos torceram o nariz quando descobriram que quem faria o discurso de abertura seria a autora J.K. Rowling (Joanne Kathleen Rowling), da saga de Harry Potter, o bruxinho mais famoso de todos os tempos.

O discurso, que reproduzo abaixo, é longo. Mas, se você tiver tempo, leia. Rowling fala do fracasso e do seu aprendizado na Anistia Internacional, onde trabalhou. Ale, não é que temos entre nós nossos próprios Comensais, não da morte, como diz a autora, mas, da vida?!


"Presidente Faust, membros da Corporação Harvard e da Câmara de Administradores, membros do corpo docente, pais orgulhosos e, acima de tudo, diplomados. A primeira coisa que eu gostaria de dizer é muito obrigado. Não apenas Harvard me deu uma honra extraordinária, mas, as semanas de medo e náusea que eu tenho experimentado em pensar de fazer esse discurso na cerimônia de formatura me fez perder peso. Uma situação com ganho das duas partes! Agora, tudo o que eu tenho a fazer é respirar fundo, dar uma olhada nas bandeiras vermelhas e enganar a mim mesma acreditando que estou na mais educada convenção Potter do mundo. Fazer um discurso de formatura é uma grande responsabilidade; ou assim eu pensava até voltar a minha mente para a minha própria formatura. O orador da cerimônia daquele dia foi a distinta filósofa britânica Baronesa Mary Warnock. Refletir em seu discurso me ajudou enormemente a escrever esse aqui, porque percebi que eu não conseguia lembrar de uma única palavra que ela disse. Essa descoberta libertadora me levou a prosseguir sem qualquer receio de que eu poderia influenciar vocês inadvertidamente a abandonar suas carreiras promissoras no negócio, justiça ou política para as delícias vertiginosas de se tornar um bruxo gay.

Estão vendo? Se tudo o que vocês se lembrarem nos próximos anos for a piada do “bruxo gay”, eu ainda saí à frente da Baronesa Warnock. Objetivos alcançáveis: o primeiro passo para o sucesso pessoal.

Na verdade, eu tenho movido minha mente e meu coração para o que eu deveria dizer hoje a vocês. Perguntei a mim mesma o que desejaria ter ficado sabendo em minha própria formatura, e quais lições importantes eu aprendi nos 21 anos que se passaram entre aquele dia e esse.

Surgiram-me duas respostas. Nesse dia maravilhoso, quando estamos todos reunidos para celebrar seu sucesso acadêmico, eu tomei a decisão de falar com vocês sobre os benefícios de um fracasso. E, como vocês estão no limite do que muitas vezes é chamado de ‘vida real’, eu quero exaltar a importância crucial da imaginação.

Essas podem parecer escolhas quixotescas ou paradoxais, mas, por favor, me ouçam.

Olhar para trás, aos meus 21 anos de idade que eu tinha na formatura, é uma experiência um pouco desconfortável para a de 42 anos na qual ela se tornou. Metade do tempo de minha vida, eu estava notavelmente com um equilíbrio preocupante entre a ambição que eu tinha para mim mesma, e o que aqueles mais próximos esperavam de mim.

Estava convencida de que a única coisa que eu queria fazer, sempre, era escrever romances. No entanto, meus pais, ambos os quais vieram de origens pobres e nenhum dos quais tinham ido à faculdade, tiveram a idéia de que a minha imaginação hiperativa era um loucura pessoal de divertimento e que nunca poderia pagar uma hipoteca, ou garantir uma pensão.

Eles tinham esperanças de que eu teria um grau vocacional; eu queria estudar Literatura Inglesa. Um compromisso que foi alcançado e que, em retrospectiva, não satisfez ninguém, e eu fui estudar Idiomas Modernos. Mal o carro dos meus pais dobrava a esquina no fim da rua e eu descartava Alemão e corria abaixo para os corredores de Clássicos.

Não me lembro de dizer aos meus pais que estava estudando Clássicos; eles podem muito bem ter descoberto pela primeira vez no dia da graduação. De todos os assuntos desse planeta, acho que eles dificilmente poderiam apontar um nome menos útil do que Mitologia Grega, quando isso veio para assegurar as chaves para um banheiro executivo.

Eu gostaria de deixar claro, entre parênteses, que não culpo meus pais pelo seu ponto de vista. Existe uma data de validade em culpar seus pais por colocá-lo na direção errada; o momento que você é velho suficiente para tomar a direção, a responsabilidade recai sobre você. Além disso, eu não posso criticar meus pais por esperarem que eu nunca experimentasse a pobreza. Eles tinham sido pobres, e eu já fui pobre, e concordo completamente com eles de que esta não é uma experiência que enobrece. A pobreza implica em medo, e estresse, e, algumas vezes, depressão; isso significa milhares de pequenas humilhações e dificuldades. Escalar para sair da pobreza por seus próprios esforços é de fato algo para se orgulhar, mas, a pobreza em si é romantizada apenas por tolos.

O que eu mais temia para mim na idade de vocês não era a pobreza, mas, o fracasso.

Na sua idade, apesar de uma clara falta de motivação na universidade, onde eu tinha gastado muito tempo escrevendo histórias em bares de café, e pouquíssimo tempo em palestras, eu tinha uma habilidade especial para passar em exames e que, por anos, tinha sido a medida de sucesso na minha vida e nas de meus colegas.

Não sou tola o suficiente para supor que, por serem jovens, talentosos e bem educados, vocês nunca tiveram dificuldades ou mágoas. O talento e a inteligência nunca vacinou ninguém contra o capricho do destino, e por nem um momento eu supus que todos aqui têm se beneficiado de uma existência de privilégios serenos e contentamento.

No entanto, o fato de vocês estarem se graduando em Harvard sugere que não estão muito bem familiarizados com o fracasso. Vocês poderão ser conduzidos por um receio de fracasso tão grande quanto um desejo pelo sucesso. De fato, sua concepção de fracasso pode não estar muito longe da idéia de sucesso de uma pessoa comum, tão alto que vocês já voaram academicamente.

No fim das contas, todos nós temos de decidir por nós mesmos aquilo que constitui o fracasso, mas, o mundo é bastante ávido para lhe dar um conjunto de critérios, se você deixá-lo. Por isso acho justo dizer que por qualquer medida convencional, meros sete anos após o dia da minha formatura, eu tinha fracassado em escala épica. Um casamento de excepcionalmente curta duração, e eu estava sem emprego, mãe solteira, e tão pobre quanto é possível ser na Grã-Bretanha moderna sem ser uma desalojada. Os receios que meus pais tinham tido para mim, e que eu tinha tido para mim, ambos tinham vindo para passar, e por cada padrão normal, eu era a maior fracassada que eu conhecia.

Agora, eu não vim para ficar aqui e lhes dizer que o insucesso é divertido. Esse período da minha vida foi bem obscuro, e eu não tinha idéia de que ia acontecer aquilo que a imprensa tem, desde então, descrito como uma espécie de fim de conto de fadas. Eu não tinha idéia do comprimento do túnel, e por muito tempo, qualquer luz em seu fim era mais uma esperança do que realidade.

Então, por que eu falo sobre os benefícios do fracasso? Simplesmente porque fracasso significa se despir do não-essencial. Eu parei de fingir a mim mesma que eu era qualquer outra que não eu, e comecei a orientar toda a minha energia em terminar o único trabalho que importava para mim. Se eu realmente tivesse alcançado sucesso em qualquer outra coisa, poderia nunca ter encontrado determinação para ter sucesso naquela área na qual eu verdadeiramente acreditava que pertencia. Eu estava em liberdade, porque o meu maior receio já tinha sido realizado, e ainda estava viva, e ainda tinha uma filha a quem adorava, e tinha uma velha máquina de escrever e uma grande idéia. O fundo de pedra do poço se tornou a base sólida sobre a qual reconstruí a minha vida.

Talvez vocês nunca falhem na escala que falhei, mas, alguns fracassos na vida são inevitáveis. É impossível viver sem falhar em algo, ao menos que você viva de forma tão cautelosa que você poderia não ter vivido de forma alguma - nesse caso, você falha por omissão.

O fracasso me deu uma segurança interna que eu nunca tinha atingido passando em exames. O fracasso me ensinou coisas sobre mim que eu não poderia ter aprendido de nenhuma outra forma. Descobri que tinha uma forte vontade e mais disciplina que suspeitava; também descobri que tinha amigos cujo valor estava realmente acima de rubis.

O conhecimento que você adquire sábia e fortemente a partir de uma derrota significa que você está, sempre depois, seguro em sua capacidade de sobreviver. Vocês nunca vão conhecer verdadeiramente a si mesmos, ou a força de seus relacionamentos, até que ambos tenham sido testados em adversidade. Esse conhecimento é um verdadeiro dom para todos os que venceram penosamente, e tem valido mais para mim do que qualquer qualificação que já ganhei.

Se me fosse dada uma máquina do tempo ou um Vira-Tempo, eu diria a mim aos 21 anos que a felicidade pessoal reside em saber que a vida não é uma lista de verificação de aquisições ou realizações. As suas qualificações, seu currículo, não são sua vida, embora você vá conhecer muitas pessoas da minha idade e mais velhas que confundem as duas coisas. A vida é difícil e complicada, e além do controle total de qualquer um, e a humildade de saber isso irá te capacitar a sobreviver às suas subidas e descidas.

Vocês poderiam pensar que escolhi meu segundo tema, a importância da imaginação, devido ao seu papel na reconstrução de minha vida, mas não é inteiramente por isso. Ainda que eu defenda o valor de contar histórias para dormir até meu último suspiro, tenho aprendido a valorizar a imaginação em um sentido muito mais amplo. A imaginação não é apenas a única capacidade humana para prever aquilo que não é, e, por conseguinte, a fonte de todas as invenções e inovações. Na sua argumentável mais transformadora e capacidade reveladora, é o poder que nos permite simpatizar com seres humanos cujas experiências nós nunca compartilhamos.

Uma das maiores experiências da minha vida precedeu Harry Potter, apesar dela entregar muito do que eu escrevi nesses livros em seguida. Essa revelação veio na forma de um dos meus primeiros empregos diurnos. Embora estivesse inclinada a escrever histórias durante minha hora de almoço, paguei o aluguel, nos meus vinte e poucos anos, trabalhando no departamento de investigação na sede da Anistia Internacional, em Londres.

Lá, em meu pequeno escritório, li cartas rabiscadas rapidamente contrabandeadas dos regimes totalitários por homens e mulheres que arriscam serem presos para informar ao mundo exterior do que estava acontecendo a eles. Eu vi fotografias daqueles que tinham desaparecido sem deixar rastro, enviadas à Anistia pelas suas famílias e amigos desesperados. Eu li os testemunhos das vítimas de tortura, descrições de testemunhas oculares dos julgamentos e execuções sumárias, de seqüestros e estupros.

Muitos dos meus colegas de trabalho eram ex-presos políticos, pessoas que tinham sido deslocadas de suas casas, ou fugiram para o exílio, porque eles tiveram a temeridade de pensar independente de seu governo. Os visitantes do nosso escritório incluíam aqueles que tinham vindo para dar informações, ou tentar e descobrir o que havia acontecido àqueles que eles tinham sido forçados a deixar para trás.

Nunca vou esquecer o africano vítima de tortura, um jovem não mais velho do que eu era naquela época, que tinha se tornado mentalmente doente depois de tudo que ele tinha sofrido em sua terra natal. Ele tremia incontroladamente enquanto falava para uma câmera de vídeo sobre a brutalidade exercida contra ele. Ele era alguns centímetros mais alto que eu, e parecia tão frágil quanto uma criança. Foi-me dada a tarefa de escoltá-lo à estação de metrô mais tarde, e esse homem cuja vida foi destroçada pela crueldade pegou a minha mão com sensível cortesia e me desejou um futuro de felicidade.

E, enquanto eu viver, vou lembrar de caminhar por um corredor vazio e, de repente, ouvir por detrás de uma porta fechada, um grito de pânico e horror como nunca ouvi antes. A porta se abriu, e a pesquisadora enfiou sua cabeça e me disse para correr e fazer uma bebida quente para o jovem homem sentado com ela. Ela tinha acabado de lhe dar a notícia de que, em retaliação por sua própria sinceridade contra o regime de seu país, sua mãe havia sido presa e executada.

Todos os dias da minha semana de trabalho no início dos 20 anos eu era lembrada do quão incrivelmente sortuda era por viver em um país com um governo democraticamente eleito, onde um representante legal e um julgamento público eram os direitos de todos.

Todos os dias, via mais provas sobre como os males da humanidade vão infligir sobre os seus companheiros, para obter ou manter o poder. Comecei a ter pesadelos, literalmente pesadelos, acerca de algumas das coisas que vi, ouvi e li.

E, ainda assim, aprendi mais sobre a bondade humana na Anistia Internacional que eu nunca havia sabido antes.

A Anistia mobiliza milhares de pessoas que nunca foram torturadas ou presas por suas crenças a agir em nome daqueles que já foram. O poder da empatia humana, que conduziu à ação coletiva, salva vidas e liberta prisioneiros. As pessoas comuns, cujo bem-estar pessoal e segurança estão assegurados, juntam-se a um grande número para salvar pessoas que eles não conhecem e nunca vão conhecer. Minha pequena participação nesse processo foi uma das experiências mais inspiradoras da minha vida.

Diferente de qualquer outra criatura nesse planeta, os seres humanos podem aprender e compreender sem terem experimentado. Eles podem pensar em si mesmos na mente de outras pessoas, se imaginar no lugar de outras pessoas.

Evidentemente, esse é um poder, como a minha marca de magia fictícia, que é moralmente neutro. Podemos usar a habilidade tanto para manipular, ou controlar, como simplesmente para compreender ou simpatizar.

E muitos preferem não exercer suas imaginações de forma alguma. Eles optam por permanecer confortavelmente dentro dos limites de sua própria experiência, nunca se preocupando em perguntar como seria ter nascido diferente do que são. Eles podem se recusar a ouvir os gritos ou espreitar dentro das grades; eles podem fechar suas mentes e corações para qualquer sofrimento que não os toque pessoalmente; eles podem se recusar a saber.

Eu poderia ser tentada a invejar pessoas que conseguem viver dessa maneira, exceto por achar que eles não tem menos pesadelos que eu. Escolher viver em espaços estreitos pode levar a uma forma de agorafobia (medo de lugares abertos), e que traz isso aos seus próprios pavores. Eu acho que o intencionalmente sem imaginação vê mais monstros. Muitas vezes eles têm mais medo.

Além disso, aqueles que optam por não se simpatizar podem ser os verdadeiros monstros. Sem nunca cometer um ato claro de maldade à gente, nós colaboramos com isso através da nossa própria apatia.

Uma das muitas coisas que aprendi no fim do corredor de Clássicos no qual me aventurei aos 18 anos, em busca de algo que eu não poderia definir, foi isso, escrito pelo autor grego Plutarco: O que nós alcançamos internamente mudará a realidade exterior.

Essa é uma afirmação surpreendente e ainda comprovada milhares de vezes todos os dias da nossa vida. Ela exprime, em parte, a nossa inadiável ligação com o mundo exterior, o fato de que nós tocamos as vidas de outras pessoas simplesmente por existirmos.

Mas, o quanto vocês estão, diplomados de 2008 de Harvard, provavelmente tocando as vidas de outras pessoas? Sua inteligência, sua capacidade para o trabalho duro, a educação que vocês ganharam e receberam, dão a vocês status e responsabilidades únicos. Até a sua nacionalidade os destaca. A grande maioria de vocês pertence à única superpotência remanescente do mundo. A maneira que você vota, a maneira que vive, a maneira que protesta, a pressão pela qual você passa para sustentar seu próprio governo, tem um impacto muito além de suas fronteiras. Esse é o seu privilégio e o seu fardo.

Se você escolher usar seu status e influência para levantar sua voz em nome daqueles que não têm voz; se você optar por se identificar não apenas com os poderosos, mas com a impotência; se você manter a capacidade de imaginar a si mesmo na vida daqueles que não têm as suas vantagens, então não vão ser apenas as suas orgulhosas famílias que vão celebrar a sua existência, mas milhares e milhões de pessoas cuja realidade você tem ajudado a transformar para melhor. Nós não precisamos de magia para mudar o mundo, nós já carregamos todo o poder que precisamos dentro de nós mesmos: nós temos o poder de imaginar melhor.

Estou quase terminando. Tenho uma última expectativa para vocês, que é algo que já tinha aos 21. Os amigos com quem me sentei no dia da formatura têm sido os meus amigos para a vida. Eles são os padrinhos dos meus filhos, as pessoas a quem eu tenho sido capaz de recorrer em momentos de dificuldades, os amigos que têm a gentileza de não me processar quando usei seus nomes para os Comensais da Morte. Na nossa formatura, fomos ligados por uma enorme afeição, pelas nossas experiências compartilhadas de um tempo que nunca poderia voltar e, é claro, pelo conhecimento que temos guardado em certas evidências fotográficas que seriam extremamente valiosas se alguns de nós concorresse a Primeiro-Ministro.

Portanto, hoje posso lhes desejar nada melhor do que amizades parecidas. E amanhã, mesmo se vocês não lembrarem uma única palavra minha, espero que se lembrem aquelas de Seneca, outro desses antigos romanos que conheci quando fugi para o corredor de Clássicos, em fuga de uma carreira promissora, em busca da antiga sabedoria:

Conforme um conto, assim é a vida: não o quão longa ela é, mas o quão boa, é o que importa.

Desejo a todos vidas muito boas.

Muito obrigado."

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