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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A rotina que conforta

Está na moda a comfort food - a comida caseira, simples, feita pelas nossas mães e avós e que, em geral, é bastante trivial, sem grandes inovações, técnicas e ingredientes exóticos ou alternativos. É uma comida de rotina e, por isso, relacionada ao conforto: nos aconchega por meio de sabores, cheiros e texturas familiares e nos proporciona segurança. Mas isso é rotina. Ou não?





Esta semana teve quatro dias úteis (a última segunda-feira foi feriado no Brasil). Mas a minha semana foi tudo exceto rotineira:


- Dormi, entre terça e hoje, apenas 10 horas ao todo.
- Trabalhei das 9 da manhã às 3 da manhã nos últimos quatro dias.
- Falei pelo menos três línguas: português, espanhol e inglês.
- Consumi aproximadamente 10 horas no deslocamento entre a minha casa e o local do evento que cobri.
- Fui pago pelo meu trabalho em duas moedas: reais e dólares.
- Vi e tive contato bastante próximo com duas pessoas cujas ideias me são bastante distantes do meu universo: o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, e o governador do Estado de São Paulo, José Serra.
- Entreguei, de segunda-feira até hoje, aproximadamente, 100 mil caracteres de textos que fiz para quatro veículos diferentes de conteúdos completamente diversos entre si.





Por tudo isso, releguei ao esquecimento uma série rotineira que sigo e da qual sempre reclamo:


- Ritual de preparar o café, ler o jornal, fumar um cigarro, abrir o computador e começar o dia.
- Comfort food: a comida caseira que eu mesmo preparo.
- Caminhar às noites.
- Ir, gratuitamente, dar uma espiada na livraria perto de casa e tomar um café expresso na esquina.
- Gastar tempo em atividades como ler, cuidar do blog e simplesmente não fazer nada durante alguns momentos do dia.





A rotina massacra, dizemos, em bordão contra o ato de se repetir os dias, semanas e meses. Mas senti imensamente falta da rotina. Até porque não acredito, verdadeiramente, que os dias são iguais. Ainda que se conserve os mesmos atos e atitudes no dia-a-dia, há pequenas alterações quase que impercetíveis que, embora minúsculas ou desprezíveis, mudam o cenário, o contexto e a ideia de que todos os dias são iguais: um barulho diferente, um sol inesperado, um telefonema surpreendente, uma notícia agradável.





Ontem, postei uma poesia que traduzia o meu despeito à exaustão e à necessidade que o jornalista brasileiro tem de se desdobrar e se dobrar em tantas e tão diversas personas profissionais que acaba, por fim, num emaranhado de prazos, números e total falta de qualidade de vida. Era um lamento ao que nós, profissionais de mídia, nos transformamos: autômatos de um processo que não cessa nunca, com produção de conteúdo que vai de um país ao outro em segundos, obrigados a compormos com a demanda da globalização (num dos casos, prestei serviços para uma pessoa de Barcelona, Espanha, que me contratou via e-mail para uma empresa cuja sede fica em Buenos Aires, Argentina, para trabalhar em São Paulo, Brasil).





Esse desenraizamento de rotina e de referência geográfica me coloca na roda incessante e febril que muda, pouco a pouco, a face de um profissional de comunicação. Já não sou um jornalista no sentido estrito do termo e, embora não tenha deixado de sê-lo por completo, caminho rumo a um novo patamar que ainda não consigo visualizar com clareza.


E, para retomar a simplicidade da comida caseira, creio que o sentimento que carrego, de me sentir desplugado sob vários aspectos, é uma tendência coletiva, senão em larga escala para todas as pessoas, mas que atinge cada vez mais as sociedades. Se, por um lado, provoca esses deslocamentos virtuais de tempo, espaço e geografia, por outro, creio, pode criar oportunidades antes improváveis que eu nem imaginava existir dentro de uma concepção restrita de rotina.





Ainda não sei quais serão os resultados disso tudo. Mas, admito, senti falta da familiaridade com a qual me cerco todos os dias e creio que esses dias me acrescentaram mais do que cansaço: me trouxeram, até aqui, mais desalento, isso sim. Porque é como se eu fosse uma engrenagem dessa roda gigante que para apenas para permitir o acesso de novos passageiros e despejar aqueles que já não têm funções úteis. Ou seja, o meu próprio caso, talvez.

4 Comentários:

ufming.etc disse...

Red
queria pedir-lhe um favor, mas este é sério, não é pedido de casamento nem outra brincadeira dessas, o pedido é quase tão denso quanto alguns comentários que fui fazendo aqui- quase, pois creio este ser o mais autêntico, e é um pedido: Por favor apague os meus comentários do seu blog. Não pense nos motivos, meus, são vários e confusos. se atenha à hipótese de eu considerar que cometi algum erro e que, sem concertá-lo, vc poderia me ajudar a aliviar a culpa e o castigo. Pode ser? repito - não estou a brincar. Pelo menos me responda, mas preferia que a resposta sua fosse meu desejo - apague por favor. escrevi de vontade e é voluntariamente que apagaria se pudesse. depende de vc. obrigada.

estenda o pedido aos outros blogues de sua "alçada", pf.

pinguim disse...

O mundo do jornalismo é fascinante; já trabalhei num jornal, não como jornalista, mas num centro de documentação e pude ver "por dentro" toda a aventura de fazer sair um jornal.
E tem pouco de rotineiro, embora haja a rotina da periodicidade do jornal (diário, semanal...)
Daí que quando haja uma actividade pontual ainda mais fora do comum, se sinta muito essa falta de rotina diária, que curiosamente todos não gostamos, mas reclamamos quando dela estamos privados.
Espero que já estejas regressado á "comfort food"...
Abração.

Redneck disse...

UFMing, embora me surpreenda o inusitado do pedido, que seja feita a sua vontade, com pesar da minha parte. Pois que sempre considerei seus comentários verdadeiros pós-posts aos meus próprios textos. Somente lhe peço que tenha paciência e que me ajude a identificar os seus próprios comentários. Eu o farei de forma gradual. Beijo!

Redneck disse...

Pinguim, sim, estou de volta à 'comfort food', para minha alegria. A rotina é uma sensação contraditória e por vezes a odiamos, por vezes a desejamos. Mas é que no atual mercado de trabalho jornalístico brasileiro muito se nós é exigido e pouco se nos é dado em retorno. Não é de hoje que ando às turras com o jornalismo. Abração!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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