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domingo, 25 de outubro de 2009

Meu rugido dominical




Dizem que, para sermos completos como seres humanos, há três coisas que temos de fazer nessa condição que chamamos de vida: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Na minha concepção, isso significa: lavrar a terra e fazê-la produzir (onde árvore é qualquer alimento); me formar intelectualmente (onde escrever um livro é ter educação formal) e garantir minha descendência (ter um filho).


Das três condições que me dariam plenitude, segundo quem teorizou essa tese, já lavrei a terra por muitos anos, plantei árvores e semeei muitas outras espécies. Intelectualmente, não fui capaz de dar à luz um livro (ainda). Me satisfaço, por ora, em escrever tanto profissionalmente quanto por prazer neste blog. Por fim, a paternidade. Sou completamente cético quanto ao fato de gerar um ser humano. Creio que seria um bom pai mas tenho razões de sobra que se opõem ao sentimento de querer ter os prazeres e desventuras de gerar um filho. Da qual uma das principais tomo de empréstimo de Machado de Assis em "Memórias Póstumas de Brás Cubas": "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".


Um dos casos mais emblemáticos de paternidade que me comove, atualmente, é o caso do cantor Ricky Martin: ele é pai dos gêmeos Valentino e Matteo, concebidos em barriga de aluguel. O cantor resolveu afastar-se da carreira por tempo indeterminado para se dedicar exclusivamente aos filhos. Sobre Ricky Martin muito se disse e ainda se fala, principalmente em relação à sua orientação sexual. Isso não importa. Importa que Ricky entende completamente, a meu ver, o sentido de ser pai.


Neste domingo, o excelente jornal britânico Guardian publicou um extenso artigo sobre a paternidade gay. Baseado nessa reportagem, elaborei este post para - a despeito do meu ceticismo com a paternidade -  compartilhar uma das coisas que mais admiro tanto nos seres humanos quanto nos animais: a relação com a cria.


Na sexta-feira, assisti, na HBO, a um documentário extremamente dolorido, feito por uma mãe, que registra os 15 anos do filho Evan - "Boy Interrupted" ("Garoto Interrompido") - vídeo com legendas em espanhol abaixo. Evan cometeu suicídio. A mãe, Danna, fez o documentário porque não tem respostas. O documentário retrata a trajetória de Evan por meio de fotos, vídeos domésticos e entrevistas que abordam o transtorno bipolar de Evan que causaria, por fim, sua morte. Ao mesmo tempo em que é doloroso, o documentário traz o impacto da morte não-natural de um filho sobre os pais. A perda da cria e de como isso - assim como o nascimento - afeta a vida dos genitores.





Na reportagem do Guardian - neste link, em inglês (use o serviço de tradução do Google) -, os relatos dos pais gays dão essa dimensão de que falo acima: ainda que não sejam pais biológicos como Ricky Martin ou Danna, pais, para mim, o são sob qualquer condição. Estão lá os requisitos necessários para exercer a paternidade: o carinho, a vontade de se doar, as condições estruturais que permitem o estabelecimento de vínculos e de raízes entre pais e filhos.


Uma das coisas que mais me causa asco de seres humanos é o oposto a tudo isso: pais e mães que desprezam seus descendentes, que os abandonam (e seja por quais motivos forem, não há justificativa e nesse ponto, particularmente, sou radical). Aqui mesmo, no Brasil, na semana passada, um adolescente de 11 anos viajou no bagageiro de um ônibus por algumas horas, escondido da empresa de viação, para pagar uma promessa que havia feito a Deus para que seus pais parassem de brigar.


Não sou pai e não tenho os elementos para conhecer a rotina de ser pai. Mas não sou tolo para saber que há um mínimo a ser provido pelas pessoas que, espontaneamente ou não, são pais. Me recordo que, quando cheguei a São Paulo, fui, com um grupo de amigos, numa iniciativa de voluntariado, a um orfanato na zona leste da cidade, num dos lugares mais tristes dessa cidade. Lá, desde o momento em que cheguei, um menino de 2 ou 3 anos se agarrou a mim e ficou no meu colo. Ficamos por lá umas 3 ou 4 horas e, quando partimos, esse menino não queria se soltar de mim e me chamava de pai. Isso foi muito dolorido e eu, por covardia, talvez, nunca mais voltei a um orfanato.


Portanto, não devo me completar como ser humano e fazer o círculo que, teoricamente, me faria inteiro. Fico apenas entre plantar árvores e escrever livros. Podem me tachar de covarde, de desumano ou de qualquer outro rótulo. Somente sei que, por ter tantas dúvidas e incertezas, isso me basta para que eu não gere descendentes, em evidente rebeldia à lei natural. Deixo para os meus semelhantes a tarefa de continuarem essa humanidade. A minha própria humanidade (ou não, a depender do seu julgamento) me impede de acrescentar mais uma pessoa nesse mundo que não entendo e que temo.

6 Comentários:

Três Egos disse...

Interessante seu texto, eu sempre pensei em ter um filho, mas ao mesmo tempo não acho que é uma necessidade. Sou muito novo para pensar nisto, quem sabe daqui uns 10 anos eu vejo, talvez até lá a reprodução genética humana já tenha se desenvido bastante tb. Fiquei impressionado com o caso de Ricky Marti, é uma opção, não sei, desde que ele crie muito bem os filhos dele não vejo problema nenhum.

Abraço,

Apolo

Jay e Alê disse...

Hi Red,
Venho pela primeira vez em seu blog e me deparo com um post um tanto quanto interessante e escrito com profunda coerência e sensatez. Te elogio por isso, acredito seriamente que teríamos menos delinquentes nas ruas, vítimas de pais falidos na sua identidade paterna. Talvez eu esteja sendo radical, mas aquele mínino ao qual vc se refere, a mim diz respeito a cuidar de sua cria, pra que ela seja decente e tenha dignidade no meio onde vive. Ser pai não é só botar a cria no mundo. Há que se renunciar, ter a atitude do Ricky M. e eu espero que ele consiga transmitir aos filhos tudo aquilo necessário para que eles cresçam como HOMENS de verdade, mesmo q no mínimo da palavra, já será um grande feito.
Espero que passe mais vezes em nosso blog e que comente tb.
Abraço boa semana.
Jay

pinguim disse...

Este texto tocou-me profundamente, pois sei que morrerei sem concretizar um dos grandes sonhos da minha vida: ser pai!
Mas, na vida, temos que fazer opções e para as fazermos temos que pesar os prós e os contras e eu sou daqueles que sei não podermos "apanhar o céu com as duas mãos"...
Não foi uma questão de egoísmo que me levou a estar incapacitado de ter um filho, biológico ou por adopção; foram as circunstâncias da vida e que me ultrapassam.
Se eu, nos dias de hoje, tivesse metade da idade que tenho agora, decerto ponderaria o assunto de outra forma.
Abraço.

Redneck disse...

Apolo (interessante como cada dia vem um diferente, só falta o Hermes), é difícil optar entre ter e não ter. Sob um ponto de vista mais humanitário, creio que as pessoas que têm filhos não pensam muito. Do contrário, não teríamos novas gerações. Porque, a ficar cético como eu, o mundo se acabaria. Enfim, é como você disse: acho que futuramente haverá soluções para todo mundo que queira ter filhos, independentemente de quem os conceba. Beijo!

Redneck disse...

Jay e Alê, é um prazer tê-los aqui, um ou outro ou ambos. É como eu disse e como dizem os pais, afinal: há que se desprender de você mesmo e passar a ser outro, totalmente direcionado ao ser concebido. Na média, até acredito que isso aconteça mesmo. O meu ceticismo é mais filosófico. Agora, quanto a colocar a cria no mundo e debandar, há uma imensa parcela, principalmente de homens, que age assim, feito animal irracional. E com isso eu não concordo absolutamente. Acho que o ideal do humano é passar ao descendente a eternidade de uma forma ideologizada: se eternizar nos descendentes. Eu até já passei no blog de vocês mas ainda não comentei. Jay, valeu a visita. Abraço e ótima semana para vocês também!

Redneck disse...

Pinguim, é interessante que, ao ler seu comentário, já não sei se o que penso é deveras definitivo. Volto a me fiar no que me disse uma antiga amiga: somos, os seres humanos, em essência, completamente intangíveis e o que penso e pratico hoje (claro, guardadas as proporções), pode muito bem ser outra coisa amanhã. Eu lamento que, para você, as coisas não tenham ocorrido conforme seu desejo. Por enquanto, no entanto, mais do que de argumentos, eu careço de vontade de ser pai. Mas, confesso, tenho inveja daqueles que o são de forma tão natural. Grande abraço!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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