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domingo, 4 de outubro de 2009

Meu rugido dominical





Sabe aquela história das duas notícias? Tenho duas notícias: uma boa e outra ruim. Qual você quer saber primeiro? Todo mundo tende a escolher a boa notícia porque o que é ruim nós adiamos e o que é bom, se possível, antecipamos.


Vou me ater à tradição e falar da notícia boa. Na verdade, são várias notícias que, concentradas, formam um todo positivo que, direta e indiretamente, representa elevação da auto-estima de uma nação inteira e, de forma psicológica ou ilógica, se reflete no cotidiano de cada um dos brasileiros.


Dessa notícia boa, fazem parte alguns fatos de amplitudes as mais diversas: a camada pré-sal (petróleo que se encontra a 7 mil metros abaixo de profundidade no mar, dos quais os principais campos são Tupi, Guará, Bem-Te-Vi, Carioca, Júpiter e Iara). A essa camada se atribui a potencial produção de 100 bilhões de barris de óleo, o que coloca o Brasil entre os dez maiores produtores mundiais dessa fonte de energia.


A outra nota positiva diz respeito às classificações (ratings) do Brasil pelas agências internacionais de risco, as quais direcionam os investimentos mundiais e fazem com que os capitais de investimento fluam ou não para determinados países. Nas mais recentes classificações, o País foi tornado grau de investimento pela Standard and Poor, Fitch e Moody's. O que o situa, automaticamente, no rol das regiões mais seguras para se investir no planeta. Do mesmo modo, segundo avaliações técnicas, o Brasil já saiu da recessão da crise financeira mundial iniciada em setembro do ano passado.


Para concluir essa onda de positividade: na última sexta-feira, 2, o Brasil conquistou para a cidade do Rio de Janeiro o palco de cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, pelo qual se preveem investimentos de R$ 26 bilhões (US$ 14,3 bilhões). Antes, em outubro do ano passado, o Brasil foi escolhido para ser o cenário da Copa do Mundo de 2014, cujos aportes são estimados entre R$ 9 bilhões e R$ 18 bilhões (de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões). A confluência de todas essas notícias boas significa que vultuosos investimentos serão feitos no Brasil, necessariamente, e que o País passa a ser, sim, um player robusto no jogo mundial.


Agora, a ducha de água fria. Neste domingo, 4, pesquisa feita pelo Instituto Datafolha faz um retrato da ética no Brasil. E esse instantâneo revela alguns dados que me fazem duvidar das capacidades de regeneração de uma sociedade que se debate entre aquilo que deseja ser quando crescer e aquilo que é.


Listo alguns dados do referido levantamento (atitude e, respectivamente, percentual dos que a praticaram). A pesquisa abrangeu 2.122 pessoas e foi feita em 150 municípios brasileiros de 25 estados. Moralmente, a despeito de classificar a ação como certa ou errada, em percentual, o total de brasileiros que já fizeram:


- Falsificação de documentos: 3%
- Compra de diploma: 1%
- Decisão sobre o voto em função de emprego ou favor: 10%
- Cola (meios ilícitos) em provas ou concursos: 31%
- Passagem ao sinal vermelho do semáforo: 26%
- Mentira sobre dados na declaração ao Fisco (Receita Federal): 5%
- Download ilegal de músicas na internet: 27%
- Compra de produtos piratas (DVD, CD e softwares): 68%


Agora, o que tem a ver uma coisa com a outra? Tem a ver com o fato de querer ser a Escandinávia (Suécia, Dinamarca, Finlândia, Noruega e Islândia) e agir como se fosse a Somália e ser, conforme a ONG Transparência Internacional, o país mais corrupto do mundo, na 180ª. posição, em estudo que abrangeu 180 países. Nessa lista, o Brasil figura no 80º. lugar.


Com tanta sigla a nos classificar mundialmente - ora somos o 'B' do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), ora compomos o Emerging Seven (E7) - Brasil, China, Índia, Rússia, Turquia, Indonésia e México, ora resultamos de um amálgama chamado 'Belíndia' (Bélgica e Índia), tomo a liberdade de cunhar o termo 'Escandimália' para nos situar a meio termo entre o topo da lista e o rodapé.


E aqui volta a questão do que se quer ser quando crescer. Qualquer criança, presumo que em todo o mundo, perguntada sobre essa difícil decisão, tende a escolher o que está mais próximo do seu universo: muitas responderão o óbvio, algumas surpreenderão e outras ficarão indecisas.


Como o Brasil não é mais uma criança - 509 anos nos aproximam muito mais da puberdade do que da infância na cronologia global -, é hora de se despedir do desejo de ser 'o país do futuro' e realizar, na prática, o significado desse conceito. É hora de amadurecer e assumir os riscos que veem com a maturidade. E as responsabilidades.


É necessário um choque de educação, literal: na educação está a chave para a transição da Somália para a Escandinávia. Deixar de ficar no meio do caminho, sempre a desejar, uma Escandimália que se quer potente mas que não prima pela ética; que se traduz em bilhões mas não tem dezenas de pequenos gestos de educação que fazem uma civilização. Num exemplo pontual, estão, aqui abaixo da minha janela, neste momento (21 horas), uma dezena de brasileiros festivos a batucar desde às 10 horas da manhã. Ou seja, quase doze horas de barulho e total falta de educação com toda a vizinhança.


Veja que não são necessárias grandes ações. Bastam as pequenas. Não sei se os bilhões de barris ou de dólares farão diferença no seu ou no meu cotidiano. Mas algumas minúsculas mudanças culturais e comportamentais, como respeitar o vizinho, não ultrapassar o sinal vermelho, caminhar na faixa, não usar o indefectível 'jeitinho brasileiro' para se dar bem faria dessa Escandimália mais Escandi e menos Mália.


Se o momento de auto-estima convida a uma sensação de felicidade, que isso se traduza no jeito de ser e de se fazer brasileiro. De outra forma, como receber as pessoas? Como colocar a sala à disposição da visita? Como se portar como player global se o quintal anda tão desorganizado? Basta esconder a sujeira sob o tapete? Não acho. A essa altura, práticas paliativas, teoricamente, não devem nos bastar. Precisamos ser mais do que isso. Ou ficaremos mesmo "málios' perante os pares globais.


P.S. Neste exato momento, em referência ao batuque que citei no post, uma vizinha de algum prédio botou a boca no trombone e berrou para os sambistas/pagodeiros para irem embora, para fazer barulho nas suas casas, para respeitar o alheio. Gritou e eles pararam. Será que somente se vence pelo grito e escândalo nesse País? Ou, do contrário, de aspirante a leão, seremos apenas mico. E sem o dourado.


4 Comentários:

pinguim disse...

Meu bom amigo
percebo-te, mas limito as tuas "preocupações"; o Brasil nunca será uma Escandinávia, e ainda bem, pois a alma brasileira com a sua alegria de viver morreria de tédio, mas muito menos se aproximará de uma Somália, que pertence a um "outro mundo", onde o Brasil NUNCA esteve, e muito menos estará.
Sempre ouvi dizer e agora sei, que o teu país tem em si próprio recursos mais que suficientes para se tornar uma grande potência económica, se acaso ainda não o é já; claro que a tal "alma brasileira" que tem o Carnaval no sangue todo o ano, que vibra com o futebol, que deu ao mundo a bossa nova, que samba e ri, por vezes choca com a seriedade dessas "coisas sérias" da economia e da alta política.
Eu não sou um entendido em política brasileira e até posso estar a dizer uma grande besteira, mas parece-me ser Lula um político à escala do Brasil; veio de baixo, subiu por ele, tornou-se presidente e sem graus académicos nem poses de grande senhor tem aprendido a lidar com delicadas situações e hoje lida com políticos de outros países, não de baixo para cima; e fala como o povo, e ri e chora, porra!!!!
Gosto do Lula, gosto muito do Brasil!!!!
Abração.

António de Lisboa disse...

Não posso concordar com o anterior comentário. Qualquer referência a uma "alma brasileira" parece eivada de um neo-colonialismo bacoco, um que aposte precisamente na manutenção dos baixos níveis de educação para manter um certo estado de coisas: escolas de samba que transportam sonhos anuais de uma vida melhor, turismo emocional, enfim, tudo aquilo que preenche a imagem que o exterior prefere fazer dos Brasis.
Mas concordo com o teor reflectido e maduro da entrada do seu blogue. Concordo com o querer mais para os brasileiros, mais solidariedade, mais civismo. Penso que essa será a única maneira de transpor os enormes fossos que ainda subsistem entre os vários Brasis. Será o pré-Sal a solução? Não sei. Muito menos será Rio 2016. Talvez a solução seja um pouco disso tudo e muito trabalho. Menos batucada desenfreada e mais alegria serena, já que o futuro finalmente parece ser radioso.
Que os brasileiros saibam tomar nas suas mãos o seu destino, é o meu fervoroso desejo. Sem gritos e sem escândalos. Com firmeza. E com esse exemplo e a ajuda de todos, talvez um dia o mundo se torne num imenso Brasil.

Redneck disse...

Pinguim, a figura da Escandinávia me serve de referência apenas para constatar que ficaremos, mesmo, num meio termo, como você sugere. Concordo com você quando alude a essa unicidade que faz com que nós, brasileiros, tenhamos um comportamento considerado, em algumas rodas, heterodoxo. O problema é que esse excesso de emoção tolda, por vezes, o olhar que, em alguns casos, deve ser mais sério e cidadão. Por fim, concordo que devemos ser, no mundo, quase sui generis de levar ao poder um presidente como este que ora nos governa. Ainda neste último domingo, comentei com uma amiga que o Lula será único na nossa história. Não deveremos repetir esse feito. O poder político de Lula é tão alto que desde sempre ele está imune a crises de aliados e do próprio governo. A única coisa que eu queria é que, independente da carnavalização, o Brasil fosse mais justo. Na verdade, eu também gosto do Lula e muito do Brasil e fico feliz com o seu gostar também. No frigir dos ovos, o que importa, talvez, seja essa emoção. Abração para você também!

Redneck disse...

António, como eu disse ao Pinguim e no próprio post, me vejo ora inclinado a celebrar, ora a criticar. E essa divisão de alma é debatida há muito por gente especializada como o historiador Sérgio Buarque de Holanda. No fundamento, não somos nem dóceis nem tampouco fúteis. Somos produto de uma nação que, no fim das contas, encontra-se num processo de construção que anda a ser muito vagaroso. Mas há quem reflita e acredito (preciso acreditar) que existe uma evolução em andamento que criará uma consciência crítica o suficiente para que não precisemos de festas, atabaques e sambas para sermos notados. O que eu queria da Escandinávia é um pouco (já estaria bom) da civilidade. Não a frieza, que isso nunca teremos, como apontou o Pinguim. Mas que a emoção que afinal, contemos, fosse potencializada também para coisas maiores que essa alma barroca (do brasileiro) que lamenta e lamenta e lamenta e nunca tomo o destino às mãos, como você diz. Tenho a impressão que não estarei vivo para ver a passagem desse estado barroco para um outro, mais contemporâneo e alinhado a um país que se quer, afinal, adulto. Abraço!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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