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domingo, 18 de outubro de 2009

Meu rugido dominical




O conceito 'dress code' (código de vestuário) é usado para definir padrões de como se vestir em cada ocasião, cultura e sociedade. Em geral, na cultura ocidental, o dress code médio para homens é o paletó e gravata e para a mulher são vestidos, saias, calça comprida e modelos padronizados de tailleurs Chanel (claro que não os originais, e sim reproduções variadas da combinação de casacos, terninhos e sapatos).


No Vaticano, por exemplo, há um cartaz que orienta os turistas de como devem se vestir para entrar na Basílica de São Pedro. Os códigos de vestuário, assim como muitas outras regras de comportamento, mudam conforme a história da humanidade: para os gregos, o uso de calças por homens persas era considerado um sinal de feminilidade (ou de homossexualismo). Esses códigos são símbolos de status social: na Roma Antiga, roupas púrpuras eram de uso exclusivo de senadores romanos. No Havaí, apenas os chefes podiam se vestir com mantos de penas ou esculpidos com dentes de baleia. Na China, no tempo do império, apenas ao imperador era permitido o uso da cor amarela.


A indústria se apropriou do dress code para codificar as mais diferentes profissões: militares, policiais e bombeiros usam uniformes (ou fardas) no mundo inteiro (um fetiche, para muitos). Também as empresas de produção em massa vestem seus funcionários com roupas uniformes. Assim como a academia - da pré-escola à universidade, há uma série de países que requerem o uso de trajes específicos. O clero também usa o dress code para indicar hierarquia e se fazer notar pelo hábito (o ditado 'o hábito faz o monge' é bastante esclarecedor acerca desses códigos).


Em várias partes do mundo, trajes e estilos de vestuário conferem a quem os usa o pertencimento a um determinado clã (como as kilts escocesas) ou aldeia (cujas toucas podem fornecer indícios, no caso das mulheres, sobre suas regiões de origem). Por fim, a roupa serve para romper tradições e normas culturais.


Isso aconteceu, por exemplo, quando a escritora francesa George Sand se vestiu de homem (e adotou nome de homem). Essa postura pelo figurino aconteceu desde sempre, com homens a usarem coletes de veludo e cores berrantes (dândis), com o travetismo da Ópera de Pequim ou do teatro Nô (ou Noh) japonês. E segue conforme a época: boêmios franceses, beatniks norte-americanos, hippies de todo o mundo, góticos e punks ingleses e skinheads alemães. Os emos (emocore ou emotional hardcore), nascidos em Washington, EUA, são uma das últimas vertentes do dress code.


A roupa veste o corpo mas o revela de forma sexual: são considerados sexies, pela cultura ocidental, a mulher que usa salto alto, roupas pretas ou vermelhas curtas, com decotes exagerados, muita maquiagem e joias, e o homem sem camisa, com uma camisa justa, que revele seus músculos, e calças apertadas, que marquem tanto os órgãos genitais quanto as nádegas. De forma geral, isso é considerado provocativo sexualmente.


Já na Arábia Saudita, a provocação está em esconder-se sob a vestimenta ao invés de se expor pela roupa: a mulher tem que usar a abaya (roupa que cobre o corpo inteiro exceto a face, os pés e as mãos) para denotar sua respeitabilidade e, ao mesmo tempo, vestir uma abaya luxuosa, com corte que delineie suavemente o corpo, e combiná-la com acessórios - bolsa e sapatos - também chamativos. São detalhes que, na cultura islâmica, indicam ostentação de conotação sexual.


Se homens e mulheres, no mundo todo, usam roupas para dizer, com as vestes, suas intenções ocultas, claro que as vestimentas são usadas publicamente como sinal de orientação sexual. Caso óbvio das cores do arco-íris gay. Mas não só: heteros podem usar as mesmas cores para demonstrar suas posições políticas. De forma que o dress code, nesse caso, pode ser ambíguo.


E as manifestações por meio do vestuário sucedem-se em inúmeras normas conforme a requisição religiosa, política e cultural: em Tonga, ao homem é vedado aparecer em público sem camisa; na Nova Guiné e em Vanuatu, existem áreas em que, ao contrário, os homens não usam nada ou usam pequenos saiotes que deixam à mostra a ponta do pênis. Em Bali, em alguns locais, às mulheres é permitido o topless público. Ainda na Nova Guiné, mulheres podem usar apenas saias. Na Índia, as mulheres hindus usam sáris que lhes cobrem todo o corpo exceto o estômago e os pés descalços. O dress code, portanto, é, mais do que apenas a vestimenta, uma norma de conduta social.


E existe o undress code (código de vestuário inverso) também. Que vem a ser o ato de se despir do vestuário. Esse tipo de código regulamenta o nudismo: em alguns países, alguns banhos públicos, por exemplo, podem proibir o uso de qualquer roupa. Outros optam por proibir apenas calçados e camisas e, ainda, outros podem tornar a nudez obrigatória ou opcional (e deixar que as pessoas entrem apenas de tanga ou sunga ou, ainda, com toalhas, como as saunas).


Portanto, roupas são a moldura de atitudes e convenções sociais e a reação a essas normas é uma forma tradicional de rebelar-se contra o dress code estabelecido. "Hmmm, hat look? Not working" (algo como 'uso de chapéu? não funciona'), comentou a respeito da foto do meu perfil no Facebook um usuário do site. Por outro lado, tenho uma amiga do mesmo Facebook que coleciona e tem um certo fetiche por chapéus e já me elogiou pelo adereço.


E, ainda ontem, eu conversava com uma amiga não sobre o dress code, mas apenas sobre o code (código). Um amigo, recentemente, me fez uma revelação sobre mim mesmo que, a princípio, me estarreceu e a qual, também no início, refutei. Depois, ao digerir e revolver essa informação, eu a aceitei. Engraçado como não nos conhecemos a ponto de uma pessoa vir a nós e nos mostrarmos sob o mais diverso ângulo. Dessa revelação, no entanto, derivou uma perda de status, quer dizer, um vazio que deixou de ser preenchido por um código anterior e que ainda não foi completado pelo novo código.


Desculpe, estou a falar em códigos e parece que escrevo em código. Mas é dessa forma mesma que eu escrevo que se dá esse conflito entre o antigo e o novo padrão ao qual eu terei de aceder.


Pois que ao conversar com a amiga, ontem, realizei, uma vez mais, que não pertenço a um código ao qual gostaria de habitar e tampouco me visto de um 'dress code' figurativo que deveria me revelar e aos demais. Pode parecer banal que eu queira ser revelado em code. Mas não é. O que soa como uma filosofia boba, para mim é muito importante. Não que eu tenha que pertencer ao um determinado código por meio de um dress code (um vestir-se conforme a minha postura social mais do que o figurino em si). Perceba que uso o dress code como uma metáfora da minha vida. Mas o fato de eu não ter vínculo com nenhum dress code me desestabiliza.


Assim, atualmente, eu não sigo nem um dress code. Estou em undress code. E, despido, me sinto isolado. Porque por mais que eu mesmo defenda o individualismo e a fuga de determinados padrões de comportamento e grupos sociais, o que vejo é que estou sozinho. Sem um dress code que me vista, acabo por não pertencer a nenhum. De forma que me sinto solitariamente nu. Com frio e sem referências. E isso dress code nenhum no mundo cobre. A nudez não é uma vergonha. Ao contrário, pode ser extremamente justificada para revelar-se, mais do que aos outros, a si próprio.


Mas quando se descobre que o rei está nu e o rei é você, essa nudez constrange porque eu não a pratiquei voluntariamente. Ela me foi imposta. E não propositalmente. Veio de uma forma abrupta. E talvez eu ainda não tenha os elementos para me vestir com outros trajes. Entre as vestes anteriores que me cobriam o corpo e as novas roupas que, provavelmente, usarei, no momento encontro-me no limbo, nu e só com as minhas descobertas. E aqui faz frio.

4 Comentários:

pinguim disse...

Excelente e completo texto sobre esses "estranhos" hábitos sociais a que chamamos "dress code".
Falta contudo um "acessório", e seria o "dress code" de certos comportamentos sexuais específicos, mas isso seria já matéria de um outro tema, talvez o "fétichismo"...
Abração.

gentil carioca disse...

Adoro seus rugidos dominicais!
E esse, em forma de uma pungente e corajosa auto-análise, está muito bom e revelador, Mr. Red!
Agora, SE a ilustração leonina de alguma forma também identifica esse formato "auto-retrato" de então, só tenho a lhe dizer que é uma bobagem esse incômodo por se descobrir outsider e só me resta congratulá-lo pelo fato de seu "undress" ser tão sexy...

Redneck disse...

Oi Pinguim, obrigado, meu amigo. Eu não me esqueci do dress code gay - leather, sado-masô e ainda um ou outro segmento específico. É que a abordagem era outra e o fetiche, por si só, vale um post inteiro, como você mesmo bem o diz. Concordo. Ai, o fetiche é uma coisa, né! Abração para você!

Redneck disse...

Carioca, não é à toa que seu prenome é Gentil. Pois ao mesmo tempo você me enxerga na minha revelação, avalia que não vale a importância que dou para a condição de outsider e ainda me infla o ego!!! Lhe asseguro que o seu comentário me levantou. O astral, o astral, bien sûr. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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