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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Cremaster: a sustentável leveza dos testículos

Cremaster é o músculo fino que forma a túnica musculosa do escroto. Acompanha o cordão espermático e alarga-se nas paredes anterior e externa da bolsa. Essa é a definição médico-anatômica do cremaster. Em resumo, o cremaster é o músculo que suspende ou sustenta os testículos (veja as ilustrações).


A aparente leve função do cremaster, no entanto, é sobrecarregada com a tarefa adicional de manter a temperatura dos testículos. Porque, se os testículos do homem forem submetidos à temperatura média interna do corpo, que é de 36,5ºC, pode ocorrer a redução ou a paralisação completa de produção de espermatozoides, sem os quais a vida que está por vir fenece. Por isso, e os homens todos sabemos como funciona, o músculo cremaster contrai-se para aproximar os testículos do tronco, para aquecê-los, ou relaxa, para afastá-los do tronco quando ocorre o contrário, para resfriá-los.


É uma pequena lição de anatomia. E explica efetivamente que os testículos não se mantêm no ar aleatoriamente, dependurados feito bolas de árvore de Natal, à espera da próxima luta de boxe (isso me ocorreu porque uma amiga, uma vez, me fez imaginar a imagem de uma mulher em luta com os testículos, como se fossem mini-sacos de boxe; talvez a amiga aludisse ao fato de que a união corporal trata-se, no final das contas, de uma batalha).


E descarta também possíveis explicações lendárias associadas àquelas que tentavam fazer acreditar que o planeta Terra era sustentado por elefantes ou por Atlas, que o carregava nas costas. Nem uma coisa nem outra: os testículos, ao contrário da Terra, que se mantém à força da gravidade e gira sobre seu próprio eixo, têm um suporte sustentável. Mas carregam em si, é verdade, peso equivalente ao que Atlas carregava na lenda.


O assunto me surgiu quando li uma pequena nota no jornal que informava sobre uma mostra de videoarte. Entre os filmes, estavam os episódios 1 e 5 da série Cremaster, concebida e dirigida por Matthew Barney (marido da cantora Björk). A série tem como objetivo ilustrar a origem da humanidade com base em excessos visuais, conforme você pode ver nas fotos espalhadas por este post.

E me fez pensar o quão frágeis são os sustentáculos do homem, principalmente se vistos sob a ótica de seu próprio órgão genital. Recorro de novo à atriz Fernanda Montenegro (sobre a qual citei no post de ontem) que exemplifica bem o que é isso visto sob a perspectiva de um mundo de machos e fêmeas: "O homem é um pau levantado para o horizonte. A mulher, não; ela é incubada, obrigada a entrar em contato com o interior do seu sexo todo mês", disse a atriz, sobre as marcas que diferenciam de forma irrefutável um sexo do outro.


Com o quê me defronto com "A Insustentável Leveza do Ser", livro de Milan Kundera que aborda a utopia erótica na qual um médico tcheco busca a liberdade sexual para se realizar interiormente. E, paradoxalmente, constato que não há leveza e tampouco sustentabilidade.

A leveza sugerida pelas finas membranas que formam o cremaster contrasta imediatamente com a brutalidade do macho. E, mais paradoxal ainda, se contrai ao primeiro sinal de perigo (frio, medo) para relaxar posteriormente em posição de conforto (calor, aconchego).


Logo, o macho é feito de filamentos os mais sensíveis, assim como o é a mulher. Porém, no caso do macho, a crosta que o recobre acoberta, por definição, uma estrutura viril e inabalável. E é desmentido no ato pela contração, ato de segurar em si mesmo o pavor que não pode ser exposto. Estou a meia leitura de um livro sobre o qual pretendo escrever detalhadamente por aqui em que, num dado momento, um dos personagens sente contrair o esfíncter do ânus num instante de absoluto pavor.

Também o esfíncter é um músculo, de fibras circulares concêntricas (como um anel que se sobrepõe ao outro), cuja função é controlar a amplitude de um determinado orifício. No ser humano, há 42 esfíncteres, dos quais os mais importantes são o cardíaco, o anal e o pilórico (que interliga estômago e o duodeno).


Assim, se não é dado ao mundo externo ver o que ocorre com o macho, seu próprio corpo o trai, com contrações involuntárias de músculos que antecipam o medo primitivo e defensivo. Bruto, em estado de natureza, o homem é apenas músculo contraído. Como se, ao se contrair, buscasse voltar à posição de feto, onde tudo são silêncios, batidas sincopadas de coração a coração e bombeamento intermitente de sangue.


Se, como o disse Fernanda Montenegro, o homem é um pau levantado para o horizonte, ao mesmo tempo é reduzido a contrações involuntárias que o obrigam a se esconder em si mesmo, dentro dos próprios genitais.


E, ao escrever este post, guiado pela curiosidade do projeto Cremaster de Barney, entendi o porquê de o diretor ter dado esse nome à série: com o objetivo de ilustrar a origem da humanidade, Barney consegue expor o 'pau levantado para o horizonte' e, ao mesmo tempo, o faz voltar-se para o útero (a origem), com os movimentos de contrações musculares, ainda que involuntários.


Mais: entendi que passamos a maior parte da vida a nos contrair e nos expandir, em sincronia, de fato, com todo o universo. Em movimentos espamódicos que variam conforme a temperatura (nominal ou metafórica). E que a sustentabilidade do ser, afinal, depende de membranas muito mais finas do que poderíamos supor. Mas que têm dispositivos de suporte para que não saltemos no vazio feito acrobatas que executam saltos mortais sem redes de proteção.

1 Comentário:

La Voyageuse disse...

Red, pensando bem, eh bonito esse nome, ne? Cremaster!
Se um dia tiver um filho ou uma filha, vou chama-los de Cremaster ou Cremaestrina. O que vc acha?

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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