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sábado, 26 de janeiro de 2008

A criança roubada

Há duas acepções para a expressão red neck, segundo os dicionários de inglês: na gíria britânica, literalmente, significa "católico romano"; e, na gíria norte-americana, é "trabalhador rural branco do Sul", usado de forma depreciativa. Em português, em tradução livre, pode-se dizer que red neck é "caipira". Conforme a definição do dicionário português, caipira é o habitante do campo ou da roça, particularmente os de pouca instrução e de convívio e modos rústicos e canhestros (alguns sinônimos regionais: capiau, casca-grossa, jeca, matuto, mocorongo, roceiro, sertanejo); também denomina um sujeito sem traquejo social. Eu me atribuí o nickname Redneck porque me considero um caipira: sou oriundo do "sertão" paulista, literalmente da roça, inclusive nascido, mesmo, no meio do mato (calma que minha mãe não é índia!). "No meio do mato" é força de expressão para dizer que nasci na zona rural, dentro de casa, com o parto feito por um médico, sim, mas, nas condições precárias que se pode fazer um parto fora de um hospital, ou seja, o médico foi quase um parteiro, enfim. Sou caipira, talvez alguns me considerem um casca-grossa porque rústico ainda sou, a despeito dos anos de verniz urbano. Respeito a rusticidade, gosto até. Chamamo-nos, meu irmão, eu e o vizinho de sítio, de sertanejos (curiosamente, antes de ir ao dicionário, não sabia que um dos sinônimos de caipira era sertanejo). Sou mocorongo, às vezes, porque não enxergo um palmo adiante do nariz quando é preciso. Me vejo matuto se a cidade me maltrata. Roceiro resgatei-me recentemente, surpreso! Capiau sim, na medida em que não me adequo quando o deveria. Um jeca vestido de paletó e gravata que finge não sufocar-se com o nó de Windsor. Quanto ao traquejo social, notadamente, me falta. Ah! E como! Quando eu devo avançar e recuo. Quando eu tenho que mirar e anuo, amuado. Esse sou eu, caipira. Só difiro quanto à definição "de pouca instrução". Porque, até mesmo canhestro, na minha eterna teimosia, sou. Agora, os britânicos que vão brincar fleumaticamente porque, em definitivo, católico romano é que não sou mesmo! Deus que me livre! Bem, com todo esse auto-reconhecimento, que não é pouca coisa e diz muito de mim, quero proclamar que tive uma resposta, um sinal, um alento, uma luz estroboscópica ontem, um pouco depois de escrever o post abaixo. Após ter derramado todo aquele magma do vulcão naquele texto, resolvi dar uma volta nas ruas da aniversariante cidade. Não estava muito convidativa: algo gelada, com um vento nada agradável e escura. Mesmo assim, saí. Tomei um café, caminhei pela Avenida Paulista (que fica a duas quadras da minha casa e isso é tudo de bom!), olhei as pessoas (claro!), comparei-as com postes e cachorros (brincadeira!) e fui à FNAC. Olhei os CDs sem a menor intenção de comprar nada. Apesar do meu iPhone não se conectar de jeito nenhum ao iTunes e me impedir de atualizar minha lista de músicas, a biblioteca é grande o suficiente para eu prescindir de CDs novos. Fui ao andar de cima que abriga o objeto primeiro (sempre) do meu desejo: os livros. Ah! Os livros, como eu os adoro. O cheiro, a capa, a quantidade de páginas a ser devastada, vencida e absorvida. Fiquei lá uns 40 minutos, a namorar os livros. Eu nunca sei o que quero. A minha escolha é aleatória: uma capa bonita, o texto da sobrecapa, alguma crítica distante que eu me recordo de haver lido vagamente. Eu garanto para você: sempre acerto. Eu os conheço, os livros. A mim, não me metem medo e tampouco me tergiversam. Ao contrário: me são afáveis, oferecidos até. Temos uma relação duradoura, fiel, um casamento. Escolhi um: "A criança roubada" (Keith Donohue, Alfaguara). Leia o que está escrito na contracapa e que vem, de uma certa forma cadenciada, fechar com o que eu escrevi no post anterior: "A Criança Roubada é uma emocionante fábula sobre os desafios da vida. Henry Day tem 7 anos quando foge de casa e se esconde na floresta. Só que ele não sabe que é seguido de perto por pequenos seres que vivem por ali e, de tempos em tempos, roubam a identidade de uma criança humana. O pequeno Henry é sequestrado e trocado por uma dessas criaturas, que toma sua forma e é levada aos braços de seus pais, que não suspeitam de nada. Na mata, Henry é rebatizado de Aniday (um dia qualquer) e se torna ele mesmo um desses seres, fadado a viver com seus companheiros da floresta, até que chegue a sua vez de roubar uma criança. E a criatura que assumiu seu lugar, assombrada pelas memórias de suas vidas anteriores, não terá paz enquanto não descobrir quem era, mais de um século atrás. Ao mesclar essas duas narrativas, Keith Donohue cria um conto de fadas moderno, uma belíssima história sobre perda, identidade e as dificuldades do amadurecimento". Tem tudo a ver com o texto que escrevi, Minha vida sem mim, poucas horas antes de encontrar o livro. Ainda nem abri a primeira página. Mas, já sei, por intuição, o que vou encontrar. E que será bom, muito bom. Acabei de sair da leitura de outro livro, "O Menino do Pijama Listrado" (John Boyne, Companhia das Letras), que me deixou estarrecido e triste (ainda este ano, chega em versão cinema). Estou na metade de outro, "Caos Calmo" (Sandro Veronesi, Rocco), que é ótimo!!!! E, para finalizar, estou lentamente a decifrar "Eu Hei-de Amar uma Pedra" (António Lobo Antunes, Alfaguara), difícil. É, é isso mesmo. Minha leitura sempre é múltipla, de três a cinco livros de uma só vez para cruzar as sinapses e enlouquecê-las. Não, não misturo as estórias. Quando canso de um, passo para outro, a ponto de abandonar o primeiro, terminar o quarto, e voltar ao segundo e de novo ao primeiro, uns 20, 30 dias depois. Fazer o quê? Essa é a minha cota de loucura. Para finalizar, que isso já está mais longo que a ponte Rio-Niterói, vou ler esse novo livro para me encher da lava que expeli. Senão, entro em extinção, como o mico-leão dourado. E esse mico eu não vou pagar!

9 Comentários:

maricotO disse...

"porque rústico ainda sou, a despeito dos anos de verniz..."

^^

Meu Deus. Adorei!
-Invejinha por não morar em São Paulo, nem conhecer ainda aliás.
-Extase com o texto da contracapa do livro "A criança roubada", realmente impolgante!
-Ai.. a leitura. contínua ou retalhada....Ai a leitura!
-Please, don't pay this mico!

blog disse...

Rapaz, no primeiro momento de leitura - enquanto vc dissertava sobre a "matutice" -, imaginei estar diante de um progressivo (e bem escrito) poema em prosa, daqueles em que a influência verlainiana se mostra efetiva. Depois, vc enveredou para o caminho metalingüístico e a coisa se perdeu - bem entendido seja: perdeu-se a subjetividade avassaladora da prosa poética.

Só não compreendi uma expressão: "Eu garanto para você: sempre acerto. Eu os conheço, os livros. A mim, não me metem medo e tampouco me tergiversam".

Não entendi como um livro pode tergiversar alguém.

Valeu o texto.

Redneck disse...

oi! obrigado pela visita e comentários. a tergiversação a qual eu me referi é, obviamente, uma licença poética. quero dizer que eu, diante de um livro, não o vejo com subterfúgios ou evasivas (é grosso demais; não gosto de ler; é perda de tempo etc.). é isso. e quanto à influência de Verlain, sorry, a poesia eu guardo para mim porque ainda não sou louco o suficiente de vê-la exposta por aqui. fico na prosa rasa mesmo. abraço!

Consuelo Mischelly Padilha disse...

Ah, eu acho.

A sra faz a linha romântica-sapeca. Várias palavras de textos publicados em livros. AdÓro cultura, bee!

Se joga porque a sra ahaza.

Muah!

leve&solto disse...

Me identifiquei com um monte de coisas..rs Qualquer hora com mais tempo digo.

Estou numa correria só... Passei por aqui pra dizer que apesar dos pesares estou viva porém doidinha de pedra aqui em SP... rs Em breve tudo entrará nos eixos.

bjo

Mara

andarilha disse...

Red,
tambem sou rato de livraria, entao, entrei numa hoje e vi um marcador de pagina com seus sapinhos. E' claro que comprei, mas nao sei quando vou te entregar.

Os livros tambem nao me metem medo, mas as reacoes que provocam... Levei quatro meses pra acabar de ler Cisnes selvagens. Cada vez que lia um pedaco, chorava feito uma louca. Deixava o sofrimento de lado, digo, o livro, e so voltava a le-lo quando me sentia mais forte.

Quanto a caipirice, outro dia revi o documentario O povo brasileiro. Se tiver oportunidade, veja. E' de chorar o que o Antonio Candido fala sobre nossos caipiras na formacao do povo brasileiro. Cuidado pra nao ficar com o peito cheio e comecar a defender as duplas caipiras (as sertanejas tudo bem)!

bjs. oaxaquenos.

andarilha disse...

Ih, Red,
seriam as duplas de raiz as caipiras ou as sertanejas? Agora deu um branco. Bem, nada de "amigos da Bavaria" foi isso que eu quis dizer.

bjs.

Amélie disse...

É um texto que provoca saudade de um monte de coisa que a gente ainda não viu!

Beijos

Redneck disse...

Mara, obrigado pelo carinho.

Andarilha, as duplas caipiras é que são as autênticas. Pena Branca & Xavantinho, Tonico e Tinoco, Inezita Barroso e por aí. Essa é a cultura caipira, da catira. beijo.

Amélie, não soframos por antecipação. beijo.

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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