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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Como a mão tornou-se humana

"A imagem da 'mão inteligente' surgiu nas ciências já em 1833, uma geração antes de Darwin, quando Charles Bell publicou 'A Mão'. Católico devoto, Bell acreditava que a mão nos fora dada por Deus o Criador numa concepção perfeita, membro absolutamente adequado às finalidades a que se destinava, como todas as suas obras. Bell conferia à mão uma posição privilegiada na criação, tendo efetuado várias experiências para sustentar que o cérebro recebe do toque da mão informações mais confiáveis que as imagens do olho - cedendo este com muita frequência a aparências falsas e enganosas.






Darwin acabou com a crença de Bell de que a forma e a função da mão seriam atemporais. Na evolução, conjeturava Darwin, o cérebro do macaco tornou-se maior à medida que os braços e mãos passaram a ser usados para outras finalidades além de firmar o corpo em movimento. Dotados de maior capacidade cerebral, nossos antepassados humanos aprenderam a segurar as coisas nas mãos, a pensar sobre o que seguravam e afinal a dar forma às coisas; os homens-macacos eram capazes de fabricar ferramentas, os seres humanos produzem cultura.


Até recentemente, os evolucionistas consideravam que foram os usos da mão, e não as alterações em sua estrutura, que acompanharam o aumento do tamanho do cérebro. Assim, há meio século, Frederick Wood Jones escrevia que 'não é a mão que é perfeita, mas todo o mecanismo neurológico através do qual os movimentos da mão são inspirados, coordenados e controlados', o que permitiu o desenvolvimento do Homo sapiens.






Hoje sabemos que, na história próxima da nossa espécie, a própria estrutura física da mão evoluiu. O filósofo moderno Raymond Tallis, médico de formação, explica em parte essa mudança comparando as possibilidades de movimentação do polegar na articulação trapézio-metacárpica do chimpanzé e do homem. 'Como nos chimpanzés, a articulação é composta de superfícies côncavas e convexas que formam essa sela. A diferença entre nós e os chimpanzés é que, neles, a sela está está mais engatada, o que restringe os movimentos, impedindo, em particular, a oposição do polegar aos outros dedos'.


Pesquisas realizadas por John Napier e outros demonstraram como, na evolução do Homo sapiens, a oposição física entre o polegar e os dedos foi-se tornando cada vez mais articulada, associando-se a sutis mudanças ocorridas nos ossos que apoiam e fortalecem o dedo indicador.






Essas mudanças estruturais facultaram a nossa espécie uma experiência absolutamente própria no ato de pegar. Pegar é um ato voluntário, uma decisão, em contraste com movimentos involuntários como piscar. A etnóloga Mary Marzke estabeleceu uma útil diferenciação entre as três principais maneiras como pegamos as coisas. Primeiro, podemos pinçar pequenos objetos entre a ponta do polegar e a borda do indicador. Segundo, podemos suster um objeto na palma da mão e mexê-lo com movimentos de impulso e fricção entre o polegar e os dedos. (Embora os primatas avançados tenham esses dois tipos de pegadas, não os executam tão bem quanto nós). Em terceiro lugar, temos a pegada côncava - quando, com a mão arredondada, seguramos uma bola ou algum outro objeto um pouco maior entre o polegar e o dedo indicador -, ainda mais desenvolvida em nossa espécie. A pegada côncava permite-nos segurar um objeto com segurança numa das mãos para trabalhar nele com a outra. Quando um animal como nós é capaz de segurar bem dessas três formas, dá-se a evolução cultural."








Faz poucos dias que li esse trecho no livro "O Artífice" - Richard Sennet - editora Record - 360 páginas. Ainda não concluí a leitura do livro mas estou enormemente satisfeito com a minha propensão a comprar livros pelo que eles me dizem, mudamente, por meio de suas capas, temas ou, simplesmente, porque somos atraídos, livro e eu, um pelo outro. "O Artífice" é uma lição de humanidade. E o tema deste post se une a outros dois posts publicados anteriores que envolveram outras partes do corpo humano:


- Olhos
- Boca


E também deriva das cenas tocantes que vejo, a cada vez que a TV mostra os escombros do Haiti: milhares de pessoas que retiram, com suas próprias mãos, por falta de ferramentas apropriadas, os destroços que, eventualmente, ainda cobrem sobreviventes da tragédia que se acometeu sobre aquele país. As mãos transformam-se, no Haiti, em pás carregadeiras, em pinças de aço, em tratores, guinchos, ganchos para resgatar tudo o que for possível da vida humana. Mãos que se tornam extensão do pouco que resta. Mãos que se desdobram, se articulam, se distendem e se projetam por fendas, ferros, pedras e buracos para encontrar outras mãos humanas que vão, essas, de encontro àquelas, para que, na ligação mão a mão, uma vida salve a outra.






Das mãos que salvam às mãos que encantam, as mãos talvez sejam um dos membros que dão sentido aos demais sentidos do corpo: apertam, aplaudem, encontram-se em prece, dão-se, as mãos, se entrelaçam, tocam, cingem, chamam, clamam, apontam. E também socam, estapeiam, desapontam, significam 'pare' quando erguidas e mostradas inteiras, espalmadas.


As mãos trazem carinho ou levam posses. Desenham palavras ou emudecem, quando crispadas. Treinadas, pintam, constróem, digitam, tocam e trabalham. Molham-se, secam-se, abraçam-se ou a nós mesmos. Com as mãos, podemos nos tocar. Nos tocar carinhosamente ou sofregamente, em frenesi sexual. Com as mãos nos masturbamos. Masturbamos os outros. Com as mãos, transmitimos nossos sentimentos ao acariciar a face alheia. Com as mãos, secamos as nossas e alheias lágrimas. Com as mãos, nos ligamos aos outros pelo afeto e passamos, corpo a corpo, o calor de uma a outra, o meu para o seu e o seu para o meu.






São essas mãos com que nos tocamos para ajustar o cabelo, para nos maquiar, para esfregar o rosto, para nos banhar. São essas mesmas mãos que limpam, que trazem e levam, que fazem cócegas e provocam a dor. As mãos somos nós, concentrados em articulações e sensibilidade. Somos nós por inteiro. Porque na ausência das palavras, as mãos dizem. Ou mesmo com palavras, as mãos completam o dito. Sem as mãos não é que não haveria evolução cultural. Sem as mãos talvez não houvesse evolução alguma.








Pois que as mãos macias, calejadas, sujas, limpas, modelos, imperfeitas são, todas, a mais visível face da nossa humanidade. Pois mesmo quando os rostos estão consumidos por sofrimento, involuntariamente ou não, são as mãos que procuram outras mãos, que se tocam para se confortar.

4 Comentários:

pinguim disse...

E as mãos podem ser e são muitas vezes uma parte muito importante dos actos sexuais...

gentil carioca disse...

Me lembrou aquele poema "a mão que afaga é a mesma que apedreja..."
Amei o texto!

Redneck disse...

João, e como podem! Há momentos, principalmente durante os atos sexuais, em que as mãos dizem mais do que quaisquer palavras. Abraço!

Redneck disse...

Gentil, a mão é mesmo a extensão da mente, posto que age ou reage conforme o que vai na cabeça. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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