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sábado, 23 de janeiro de 2010

Passeio de gôndolas

Venho de um passeio de gôndolas. Melhor dizer, por entre as gôndolas. Não! Nada a ver com as gôndolas de Veneza. Se bem que São Paulo anda tão aquática que não seria de se espantar que saíssemos a navegar de gôndolas pelos canais (poluídos) da cidade. E, além do que, reservo as gôndolas de Veneza para uma ocasião especial (que ainda acontecerá!).


O meu passeio de gôndolas foi bem mais prosaico: se deu entre as gôndolas do supermercado. Depois de quase um mês entregue à própria sorte, resolvi que meu corpo precisa ser retomado pelo cérebro que o comanda. Quero dizer com isso que acabaram as bacanais festivas de comidas e bebidas que encerraram o ano passado e atravessaram quase todo este corrente mês.





Portanto, fui às gôndolas. Tenho uma certa birra de supermercados: preciso deles para produtos de consumo básico mas não gosto desses locais. Bem, quase sempre, não. Às vezes, posso até gostar um pouquinho.


Os supermercados, como os conhecemos no Brasil atualmente, são relativamente novos. E, por algum grau de associações que não vou me questionar agora, o primeiro supermercado surgiu em uma rua muito próxima de onde estou e vivo. Engraçado isso. Essa rua fica a apenas três quadras da minha casa. Era 1953. Mais precisamente, dia 27 de março de 1953. Uma loja foi aberta com uma proposta diferente dos velhos armazéns (que vendiam secos e molhados, como se dizia dos produtos da época). Vendia, simultaneamente, produtos de mercearia, de limpeza, carnes, frutas e verduras.


Essa loja provocou arrepios entre os demais comerciantes e também nas autoridades por 'burlar' o modelo tradicional de armazéns. Somente em 12 de novembro de 1968 os supermercados seriam regulamentados oficialmente na cidade de São Paulo. Quer dizer, isso faz pouco mais de 31 anos. Na entrada da primeira loja havia uma catraca (como as de metrô ou ônibus) para contar o número de clientes e, como tudo era novidade, uma recepcionista explicava como se deveria proceder para fazer as compras: pegar o carrinho, escolher os produtos e ir ao caixa para pagar.





Claro que se São Paulo recebeu o primeiro supermercado oficialmente em 1968, o conceito demorou muito mais para chegar no interior do Estado: na minha cidade, por exemplo, se a lembrança não me turva as datas, creio que o primeiro supermercado chegou entre 1982 e 1983. E fez uma das primeiras revoluções na cidade: acabou, praticamente, com os armazéns remanescentes, assim como havia feito nas grandes cidades. Há uns três anos, os supermercados têm tido êxito em extinguir outro setor: os açougues. Dentro de pouco tempo, açougues serão raridades, pode apostar.


Bem, volto à atualidade e ao meu passeio de sábado por dentre as gôndolas. Supermercados não me atraem porque:


1. Me soam ligeiramente histéricos, com consumidores que ficam entre comprar o que precisam, o que não precisam, o que querem, o que não querem para, no final, ficarem acuados na fila do caixa e torcer para que tudo caiba dentro do dinheiro que têm.


2. Entre as gôndolas, ao contrário da placidez dos canais venezianos, nada num supermercado é pacífico: brigamos pelo tomate mais vistoso, pela picanha mais vermelha, pelo pão mais quentinho, pelo queijo mais fresquinho. Raramente o supermercado está vazio e, se o está, suas gôndolas, consequentemente, estão praticamente desprovidas das melhores ofertas.


3. Os longos corredores, a extensão dos supermercados e o grande número de caixas deveriam facilitar a vida de todos nós. Mas isso não ocorre. Para atender uma cidade gigante, nem o mais gigante dos hipermercados consegue dar vazão às pessoas sem que, em algum momento, haja algum tipo de aglomeração.


4. Existe uma disputa não-declarada como se estivéssemos, os consumidores, numa prova de fórmula 1: quem chegar primeiro, vence. Quem melhor conduzir o carrinho durante o percurso e se safar dos inúmeros obstáculos - outros consumidores, velhinhas que caminham como se estivessem dentro de igrejas, crianças que brincam de pega-pega, velhinhos que penduram seus guarda-chuvas nos carrinhos alheios (isso aconteceu comigo!), pessoas que se acham espertas e tentam furar filas - qualquer fila, inclusive a do caixa e até mesmo aqueles que frequentam os supermercados por considerá-los lugares exóticos a serem visitados. Sim, há de tudo. Já vi de tudo nesses anos de frequência aos supermercados.


5. No final, trata-se de uma logística que não tem lógica: pegar o carrinho, encher o carrinho, esvaziar o carrinho no caixa, encher o carrinho depois que passar pelo caixa, esvaziar o carrinho no porta-malas do carro, encher o novo carrinho que os prédios têm, esvaziar o carrinho na porta de casa, devolver o carrinho do prédio na garagem, esvaziar as sacolinhas, encher os armários e, finalmente, encher-se com toda a tralha, alimentícia ou não, que você manuseou 357 vezes antes de, por fim, dar cabo a tudo. Sim. Porque, passado um breve período de tempo, terá que refazer essa via crucis novamente.





E foi assim, a praguejar e lamentar, que bovinamente, no final das contas, fui ao supermercado enterrar dinheiro, disposição e um pedaço do sábado. Lá dentro, tudo o que eu imaginava: consumidores vorazes (sempre estamos, não?), briga de carrinhos, carrinhos cujas rodinhas travam, velhinhos que têm caixa especial e insistem em ficar no caixa comum, perguntas de consumidores como se todos (consumidores) fossemos atendentes da loja.


De uns tempos para cá, a fim de não sofrer um naufrágio e me ver submerso por entre as gôndolas, tenho adotado o hábito de frequentar o supermercado de madrugada, já que a loja mais próxima da minha casa funciona 24 horas. Mas se isso tem seus benefícios, também tem algumas desvantagens: em geral, nesse horário os funcionários aproveitam para repor os produtos e lavar os corredores. Assim, metade da compra fica por ser feita.


Outra possibilidade é ir em horário chamado comercial: entre 10 e 22 horas. Corre-se o risco de travar embates os mais diversos mas, ao menos, você encontrará o que procura e não terá interdições no meio dos corredores - quando lavam os corredores, os funcionários os bloqueiam.


De tal maneira que fico cada vez mais longe dos supermercados. Sim, já fiz compra de supermercado pela internet. Até funciona. Mas quem melhor do que você para saber qual é a textura da carne, o estado da banana ou a possibilidade de escolher entre cinco ou seis diferentes tipos de detergente? As gôndolas virtuais são bastante maçantes e, ao menos por enquanto, ainda prefiro eu mesmo fazer minhas compras.





Terminado o passeio expresso - geralmente, o faço o mais rápido que posso -, quando finalmente guardo tudo o que comprei, sempre fica um vazio. É como se depois de navegar por entre os canais de Veneza, simplesmente você chegasse à conclusão que as águas são iguais em todos os lugares e que os canais da cidade são apenas isso. O que os torna diferentes são as gôndolas e os gondoleiros. Mas isso já é outra viagem. O fato de eu associar supermercados à mesmice incorre na velha questão humana de repetir gestos porque temos de fazê-lo, e não porque os apreciamos. Porque se navegar é preciso, uma vez mais, navegar de gôndolas em Veneza me é mais do que preciso: é necessário.

2 Comentários:

pinguim disse...

Veneza é uma cidade linda, mas cara, muito cara mesmo; e andar de gôndola em Veneza foi luxo que nunca tive nas minhas já 4 visitas à cidade.
Mas indo ao assunto do teu texto, os supermercados, que aqui começaram por se chamar assim, mas que agora ou se tratam por "hiper" ou por "grandes superfícies" têm vantagens (comprar coisas variadas num mesmo sítio, estacionamento facilitado, possibilidade de escolha mais variada), mas imensos defeitos (compra-se sempre algo de que não se necessita, as múltiplas escolhas por vezes baralham-nos e nalguns produtos, de que destaco a fruta e a carne, a qualidade não é a melhor). Mas o principal defeito dos "hipers" é ter destruído o chamado comércio tradicional e em muitos sítios, ter contribuído até para a desertificação dos centros de alguns núcleos populacionais que só se movimentam pelos serviços.
Na questão do talho(açougue?), fico imensamente mais bem servido, muito mais barato e indo ao mesmo sempre, trago as quantidades que necessito e não as que são exageradas nas embalagens dos "hipers"; e quanto à fruta, as que ali compro, ou estão demasiado verdes para comer de imediato ou no dia seguinte estão podres...nada melhor que a frutaria da esquina.
Mas, é um facto que os super mercados são uma realidade que não podemos ignorar e que se de repente acabassem, possivelmente ficaríamos sem saber bem o que fazer...para o bem e para o mal...
Abraço.

Redneck disse...

João, eu não tinha ideia de que Veneza era tão cara quanto você diz. E isso porque é uma cidade que depende do turismo e, infelizmente, sumirá do mapa em questão de algumas dezenas de anos. Bem, quanto aos hipermercados, sou suspeito para falar sobre o assunto porque, embora possa soar saudosista, não há nada melhor do que pequenas mercearias, açougues e até mesmo verdureiros (sim, no interior eles ainda continuam em atividade). Chego a me lembrar com certo pesar do tempo em que pão e leite eram entregues casa a casa de manhã pela charrete do padeiro. Inclusive aqui em São Paulo o leite ficava defronte às portas. bons tempos aqueles que o máximo que acontecia era que o gato da vizinhança derrubasse a garrafinha de leite. Meu irmão foi proprietário de um açougue e, assim como os concorrentes, acabou por fechar o estabelecimento porque a concorrência com os supermercados, que vendem e compram em larga escala, não permite manter uma atividade de um único produto. Uma pena. Hoje, somos submetidos nos supermercados, como em várias outras áreas, a uma pasteurização de produtos: tudo é mais ou menos padronizado. O limão, por exemplo, não tem suco. A maçã tem o mesmo gosto em qualquer lugar que se compre. Quer dizer, com essa massificação, se perde o terroir que estava agregado aos produtos vendidos de forma quase que artesanal. Agora, se você quer qualidade mesmo, aqui em SP, tem de recorrer a lojas luxuosas e caras que vendem produtos do mundo inteiro. Para encontrar, no entanto, apenas o limão rosa, um dos mais comuns, somente se você tiver um limoeiro em casa. É o fim de uma era. Ah! E os açougues chamam-se talho em Portugal? Isso é novo para mim. Abraço!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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