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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Veleidades do destino

Bastou que eu caminhasse alguns metros sob um chuvisco que era pouco mais que meia dúzia de precipitações na forma de finas partículas de água que o meu sistema imunológico abrisse os braços, pernas e, talvez, todos os poros, pronto para se abater sob o pesado ataque do vírus da gripe.





De longa data, sei de duas coisas que me afetam imediatamente: dormir com a janela aberta e tomar chuva. Nas duas situações, posso contar 24 horas ou 48 horas depois e já começar a sentir os primeiros sintomas de um resfriado ou uma gripe. E não foi diferente: no sábado, estava quente em São Paulo. Até uma determinada altura. Eu estava na fnac, em ambiente completamente climatizado, já sob o efeito do ar-condicionado. Creio que não me demorei pouco mais de 20 minutos dentro da loja. Quando saí, havia uma cortina fina de chuva. Moro relativamente próximo da fnac: são 10 ou 12 minutos de casa, a pé.


Foi o tempo suficiente para que o meu corpo absorvesse as variações térmicas e ainda ontem, pouco mais de 24 horas depois do evento, eu já começava a apresentar os sinais típicos: sonolência, tosse, uma febre incipiente. Hoje, o quadro se completou: cabeça e corpo pesados, dor de cabeça, febre, tosse, coriza. Há um gosto amargo também e uma sensação rascante na garganta que pode evoluir para dor de garganta.


Me automediquei (#prontofalei!) e dormi profundamente durante a tarde. Como se não houvesse mundo lá fora. E tampouco aqui dentro. Acordei e o dia já não existia. Agora, é quase o final da noite e começo da madrugada. Chove, uma vez mais, e sinto calor, muito calor. É como se toda a umidade que vem com a chuva não fosse suficiente para saciar a sede do corpo.


A palavra "gripe" vem do francês "grippe", que significa a mesma coisa que a palavra inglesa "influenza", que é o nome dessa gripe popular que todos os anos milhares de nós a contraímos. No século XIV, a palavra "grippe" era usada pelos franceses para significar "gancho" e "garra". Já no século XVII, "grippe" era usada para indicar "capricho" ou "desejo repentino". Há diversas versões para o uso da palavra francesa para nominar essa praga que são gripes e resfriados e uma delas, que muito me agrada, é a ideia de que a gripe é uma doença que se contrai de maneira brusca, como se fora uma veleidade do destino. Chega a soar poético, não fosse a gripe totalmente isenta de poesia, com todos os sintomas que se lhe acompanham e lhe emolduram: catarro, olhos marejados, narizes a destilar fluidos como se fosse pequenos encanamentos e, em casos mais graves, vômitos, diarreias e convulsões (espero que você leia isso em hora distante das refeições mas, veja, é necessário que eu descreva minuciosamente tudo para contextualizar a ausência de romantismo em se ficar gripado ou resfriado).


A não ser que eu fosse um alemão à maneira de Thomas Mann e tivesse "A Montanha Mágica" a emoldurar a minha própria gripe e depois sofrer languidamente uma "Morte em Veneza", apaixonado que estaria pela palidez (talvez tuberculosa) de um Tadzio tardio não há motivo para romantizar a gripe. Não, nada disso.





Volto, portanto, à veleidade do destino que os franceses preferem atribuir à contração da gripe. Estar com gripe equivale a não ter imunidade. A liberar o corpo para o ataque frontal de vírus que, durante um determinado período de tempo, farão o ciclo completo de sua natureza: ataque, proliferação e, finalmente, morte. Não a minha própria morte, claro está, e sim a da colônia de vírus instalada provisoriamente no meu corpo.


Pois essa tal de veleidade ou capricho do destino funciona muito bem para que eu não seja mais inócuo ao vírus, e sim, ao contrário, seja um fecundo campo para sua proliferação. Quis o destino, então? Seria simples assim. Mas não é. De fato, eu conheço os motivos: chuva e janela aberta = gripe ≠ destino. E não é de bom tom, portanto, atribuir ao destino o meu atual estado.


Quisera eu que a veleidade do destino fosse de outras proporções. Que ao invés de abrir meu corpo para o ataque coordenado de vírus, abrisse a minha mente e coração para caprichos outros e que eu não mais tivesse controle sobre eventuais ataques desencadeados pela falta de imunologia. Porque se o corpo é fraco a ponto de permitir que o sistema se deteriore e permita a entrada de corpos estranhos, por que não ocorre o mesmo processo em outras escalas? Como, por exemplo, permitir que um ataque virulento te deixe prostrado(a), de quatro? Sim, me refiro sim a ataques emocionais, daqueles que te deixam febril, a murmurar palavras desconexas como se em delirium tremens estivesse!


Talvez, lucidamente, esteja eu, neste momento, a delirar e direcionar esse delírio à "grippe". Talvez. Mas, neste momento, estou apenas em estado semi-febril. E chove. E, de repente, se louco eu fosse, sairia para comprar cigarros sob a chuva. Mas daí seria não um estado de inconsciência, e sim de burrice.


Como ainda me resta ludicez e o delírio não chega a tanto, apenas fico aqui, inerte e em bicas de transpiração. Sim, continuo com calor como se à beira de fornalhas estivesse. Ainda à espera das veleidades do destino que me ataquem, sorrateiras, e me peguem totalmente desprevenido e que rompam barreiras. Se é que existem barreiras. OK. Posso, de qualquer forma, creditar o teor deste post a eventuais sintomas de um doente. Porque aos doentes, por vezes, se lhes deve ser permitido delirar.


Me lembro com carinho de um amigo. Eu estava, na ocasião, com uma gripe ainda mais forte e, sob cobertores, tremia com febre de 40 graus. Não sei você mas quando estou assim o que menos desejo é conversar e responder se estou bem, se estou melhor ou não. A cabeça dói, o corpo freme e tudo o que queremos é silêncio. Pois esse amigo veio até mim com uma toalha úmida para aplacar minha febre. E me recordo vivamente de tê-lo xingado e lhe dito para me deixar em paz. Ele, que era bastante espirituoso, disse que os demais deveriam me deixar em paz porque eu estava em puro delírio e que todos eles me perdoariam no dia seguinte dado o meu estado de quase selvagem naquela cama.


Pois se hoje não chego a estar daquele jeito (e creio que, verdadeiramente, nunca cheguei de fato às vias do delírio), quero dizer que amanhã, passado esse meta-delírio, estarei novamente imune a qualquer ataque de vírus alheios. Bem, isso não é de todo real porque, como sabemos todos, os vírus são mutantes e nunca estamos preparados para eles. Acho que vou tomar um chá de limão com mel porque a boca está bem amarga!

2 Comentários:

pinguim disse...

Caro amigo
e eu ontem à noite com esperança que aparecesses para falar um pouco...
Pois essas nossas "janelas" abertas à entrada do vírus da gripe existem e nós até as conhecemos, como tu referes, eu sou "solidário" na questão da chuva, mas o meu maior inimigo é o ar condicionado: fujo dele como o diabo foge da cruz; basta estar um pouco de tempo demasiado na zona dos congelados, para sentir que "algo está a acontecer; geralmente, e antes que passe a a um estado gripal, faço a auto-medicação adequada (anti-inflamatório e bebida quente com mel antes ir para a cama) e a coisa é sustida; outras, não chega...
Mas o que interessa é que te restabeleças rapidamente e voltes à tua rotina diária com as ganas que são habituais em ti.
Beijo.

Redneck disse...

João, pois eu pensava a mesma coisa que você. Mas quando me quedo com gripe ou resfriado, todo e qualquer ânimo que eu possa ter some, desaparece, para dar lugar apenas ao silêncio. Eu odeio ficar assim porque as minhas gripes e resfriados me prostram de uma tal forma que não tenho energia para fazer nada. Mas tenho procurado me cuidar e sei que é apenas um ciclo de alguns dias. Depois, volto à normalidade, se é que existe tal normalidade. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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