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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As cidades-fênix e a chama sagrada que as mantêm

Seja por hecatombes naturais ou provocadas pela ardilosa mão do homem, a destruição de cidades inteiras acompanha a humanidade há, pelo menos, dois mil anos. Porto Príncipe, capital do Haiti, une-se a outras cidades no triste rosário de destruição. Mas há esperança! Sempre há porque, se não existisse esse sentimento tão humano, não haveria o desafio grandioso de se levantar das cinzas e, tal qual uma fênix de vastas proporções, reerguer-se uma vez e mais e mais, tantas vezes quantas forem necessárias. Porque assim é o homem, para o bem ou para o mal: apanha, bate e, com a mesma teimosia, debate-se em meio aos clamores da natureza e do próprio homem.


A seguir, em ordem cronológica, listo algumas cidades que, desde o ano 64 d.C., foram praticamente aniquiladas e, ainda assim, bateram as asas incineradas e renasceram. Porque a palavra "cidade" deriva de civilização, do latim "civitas". E civilização significa agrupamento humano, cuja ocorrência gera, na maior parte das vezes, a evolução social nas mais diversas áreas: científica, política, econômica, artística e, por que não o dizer, também humanitária?


- Roma, 64 d.C.


No dia 18 de julho de 64 d.C., a cidade foi tomada pelo Grande Incêndio de Roma, que começou na região do Circo Máximo. As ruas de Roma não eram ruas, e sim ruelas. Como que dutos condutores de fogo, essas ruelas fizeram com que o incêndio se alastrasse rapidamente nos insulares (ou cortiços), edifícios de três, quatro ou cinco andares construídos à base de madeira. O incêndio durou seis dias mas, depois de controlado, novos focos fizeram com que o fogo se propagasse por mais três dias. Ficaram destruídos dois terços de Roma.





A versão mais conhecida sobre o incêndio de Roma é a de que o imperador Nero teria ordenado o evento com o objetivo de reconstruí-la segundo seu próprio projeto arquitetônico. Essa versão é desmentida pelos historiadores. Nero, na ocasião do incêndio, não estava em Roma e, ao voltar, abriu os jardins de seu palácio para acolher os desabrigados. Isso contaria a seu favor, não fosse o fato de que, após o incêndio, Nero aproveitou para adquirir terrenos circunvizinhos ao palácio a preços vis, o que revoltou a população e a levou a considerá-lo suspeito. O certo é que Nero elaborou um novo plano de desenvolvimento urbano para aquela que seria a capital do Império Romano do Ocidente e também a cidade eterna.


Outra versão dá conta de que os moradores usavam o fogo para se aquecer e, claro, preparar a comida. Como as residências eram de madeira, houve algum tipo de acidente que, somado aos fortes ventos da cidade, fez com que o incêndio se alastrasse por toda Roma.


Segundo os historiadores da época, três bairros de Roma foram completamente destruídos e outros sete ficaram bastante danificados. Roma tinha, na época, 1,7 mil casas particulares e 47 mil insulares. E, embora não haja estatísticas confiáveis, estima-se que mais de 10% da cidade foram destruídos.


- Pompéia, 79 d.C.


Antiga cidade do Império Romano, situada a 22 Km de Nápoles, Pompéia foi destruída pela erupção do vulcão Vesúvio no dia 24 de agosto de 79 d.C. Por mais de 1,6 mil anos, a antiga Pompéia ficou encoberta pelas cinzas, até ser reencontrada por acaso. E, quando redescoberta, mostrou os horrores encobertos pela lava vulcânica, com habitantes em pleno processo de fuga e, tal qual a mulher de Lot transformada em estátua de sal, cerca de 3 mil habitantes ficaram entalhados na pedra vulcânica para contar a destruição de Pompéia para a posteridade.





Atualmente, Pompéia é uma comuna da região de Campania, na Itália, com pouco mais de 25 mil habitantes. Ao redor do vulcão, vivem cerca de 600 mil pessoas. O Vesúvio continua em atividade. Antes de soterrar a antiga Pompéia, o Vesúvio ficou inativo por mais de 1,5 mil anos. A última erupção fatal do Vesúvio ocorreu em 1944 e a cidade de Nápoles, que tem 2 milhões de habitantes, também vive sob a constante ameaça de novas erupções.


- Londres, 1666


O Grande Incêndio de Londres destruiu uma imensa parte da capital britânica entre os dias 2 e 5 de setembro de 1666. Consumiu, em quatro dias, 13,2 mil casas, 87 igrejas, 44 prédios púbicos e a Catedral de Saint Paul. Não há um número preciso das vítimas, mas os registros da época relatam um total de 100 mil desabrigados e apenas nove mortes! Infelizmente, esse número - e pesquisas mais atuais - não foi tão baixo: estima-se que morreram, sim, milhares de pessoas, já que Londres, naquela ocasião, não registrava as pessoas pobres e de classe média.





Segundo a história, o incêndio começou numa padaria em Pudding Lane e se propagou por toda a vizinhança. A rápida ação do incêndio foi favorecida pela estrutura medieval de Londres: ruas estreitas e construções de madeira, bastante próximas umas das outras. À época, os incêndios eram combatidos com a derrubada de construções para impedir que o fogo se alastrasse. E essa técnica arcaica, ainda assim, foi atrasada por um político da cidade que, evidentemente, subestimou as proporções do incêndio. Quando, finalmente, o político autorizou as demolições, já o fogo havia se convertido em labaredas gigantescas e não podia ser detido.


O rei Carlos II, que governava o Império Britânico, temeu a reação pública e determinou a imediata reconstrução de Londres. Ao invés de aproveitar a catástrofe, no entanto, e se reinventar, a cidade foi reconstruída nos mesmos moldes do modelo anterior, ou seja, em madeira e ruas estreitas. Foi nessa época que surgiu o que é, atualmente, a City of London. A Catedral de Saint Paul, completamente destruída, foi levantada novamente, sob nova arquitetura. A ponte de Londres, que já havia sido parcialmente destruída por outro incêndio em 1663, foi definitivamente consumida pelas chamas. A biblioteca de teologia do Sion College perdeu um terço dos livros.


- Lisboa, 1755


Foi no Dia de Todos os Santos, em 1º. de novembro de 1755, que Lisboa amanheceu com o sismo cujo epicentro - nunca foi precisada a exatidão do epicentro - aconteceu no mar, entre 150 e 500 Km a sudoeste de Lisboa. Mas a magnitude do terremoto - 9 graus na escala Richter - foi tamanha que os abalos foram sentidos em Lisboa entre 6 minutos a 2:30 horas, conforme o local, e provocou fissuras que ainda hoje estão presentes na capital de Portugal.





As regiões mais atingidas foram a própria Lisboa e o Cabo de São Vicente. Os sobreviventes buscaram refúgio na zona portuária e, segundo o padre Manuel Portal, que tem relatos completos sobre o terremoto, instantes após o tremor, um tsunami, que pode ter atingido 6 metros de altura, fez submergir o porto e o centro de Lisboa, com as águas a avançarem 250 metros cidade adentro. De modo que, onde a água não chegou, lá estava o incêndio, que durou cinco dias, e contribuiu para dizimar estimadas 90 mil pessoas, da população que contava, em 1755, com 275 mil habitantes.


Esses eventos destruíram 85% das edificações de Lisboa. Foram abaixo palácios, bibliotecas, conventos, igrejas e hospitais. O Palácio Real, completamente destroçado, abrigava uma biblioteca com 70 mil volumes e centenas de obras de arte, inclusive quadros de Ticiano, Rubens e Correggio. O Arquivo Real, com documentos que registravam as explorações oceânicas de Portugal, foi completamente destruído, bem como registros históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo, ambos exploradores das Américas.


- New Orleans, 2005


A pressão foi insuportável e, no dia 30 de agosto de 2005, dois dos diques que cercavam New Orleans, que foi fundada numa região abaixo do nível do mar, não aguentaram e cederam sob as águas do Lago Pontchartrain. New Orleans é cercada por águas: além do próprio Lago Pontchartrain, que foi o responsável pela sua devastação, a cidade fica próximo do Golfo do México e do Rio Mississipi. Quando as barreiras romperam, 89% da cidade foram inundados a uma profundidade de até 8 metros.





Nunca ficou claro o número de vítimas mas calcula-se que foram milhares de pessoas. O responsável por tudo isso foi o furacão Katrina, que elevou o nível de água dos reservatórios que circundavam New Orleans e provocou o transbordamento. Em 2000, apenas a cidade tinha mais de 500 mil habitantes e toda a região metropolitana de New Orleans concentrava quase 1,5 milhão de pessoas. Pelo menos 200 mil casas foram destruídas pelas águas. Alguns moradores puderam retornar apenas um ano depois à cidade e muitos foram transferidos para cidades dos estados vizinhos como Louisiana, Texas e Missouri e até mesmo mais distantes como Washington, Ontário e Illinois. Dessas pessoas, a maioria jamais retornou a New Orleans que, passados quase cinco anos, ainda tem muitas áreas desabitadas. Após a passagem do furacão, que atingiu ventos de 200 Km/hora, muitas lojas foram saqueadas e houve roubo generalizado. A lei marcial foi instituída em New Orleans para assegurar o controle de toda a região.


- Porto Príncipe, 2010


Na terça-feira, 12 de janeiro, precisamente às 16:53 horas de Porto Príncipe, teria início aquele que pode ser, a se confirmar a estimativa do governo de 200 mil mortos, uma das dez piores tragédias mundiais em termos de vítimas. Com epicentro a 15 Km de Porto Príncipe e 7 graus na escala Richter, o terremoto devastou a capital do Haiti e todo o entorno e desabrigou pelo menos mais 1,5 milhão de pessoas. Apenas na capital, viviam 3 milhões de haitianos.





Fundada em 1749 pelos franceses, Porto Príncipe (ou Port-au-Prince) ainda conta os mortos, os feridos e começa, em meio a novos tremores e muito medo, a tentar reconstruir aquela que é a capital de uma das primeiras nações independentes da América do Sul. O Haiti tornou-se independente em 1804 mas nunca foi, de fato, independente. Neste momento, é, ao contrário, totalmente dependente do mundo inteiro para se reconstruir e tentar, ao menos, sobreviver nos escombros da cidade.


As seis cidades acima descritas, em diferentes épocas da história e nas mais diversas regiões da Terra, passaram, todas, pela fúria do fogo, da água, de vulcões, de terremotos e de tsunamis. Sobreviveram. Reconstruíram-se das cinzas, feito fênix que insistem em viver. Ou apenas sobreviver. Porque há uma chama sagrada que as mantêm: se chama homem.


Não entenda 'chama' como um triste trocadilho. Não é nada disso. Chama é uma metáfora para fé, para força, resistência, vontade, esperança. E o homem - e acredito mesmo nisso - é mais construção do que destruição, mais unidade do que divisão. As catástrofes que acometeram Roma, Pompéia, Londres, Lisboa, New Orleans e Porto Príncipe contabilizaram toda sorte de destruição e a perda de milhares de vidas. Nunca, contudo, foram capazes de conter o sentimento do homem em se reerguer dos escombros, sacudir a poeira e começar a vasculhar, a limpar, a resgatar e, finalmente, a reconstruir à sua volta.


Porque se a natureza promove eventos incontroláveis, é da natureza humana manter a chama acesa. Nem que for um fio apenas a iluminar por debaixo da ruína. Nem que for para surpreender na voz da senhora que canta ao ser resgatada sete dias depois de enterrada viva. Nem que for para ouvir o choro do bebê que sobreviveu a sete dias sem água, luz, leite e a mãe. Nem que for para constatar essas pequenas chamas que insistiram em se manter acesas. Porque é da natureza humana não se apagar. Exatamente porque não são infinitas, posto que chamas, são eternas enquanto duram. E a eternidade é o tempo em que cada uma dessas chamas permanece acesa. É tempo o bastante para ser fênix.

2 Comentários:

pinguim disse...

Caro Sérgio
muito interessante esta tua citação de algumas das cidades total ou quase totalmente destruídas por fatalidades e depois reconstruídas umas e outras não (Pompeia e Porto Principe será...)
Mas claro que a minha maior atenção vai para Lisboa, e se hoje acontecesse um sismo daquela escala, seguido de um tsunami, não sei o que aconteceria... É coisa que de vez em quando me recordo.
Mas faltam aqui referências importantes e já não falo de algumas cidade chinesas de nome desconhecido que as autoridades nunca deixaram contabilizar totalmente; penso no sismo do princípio do século XX em São Francisco e de dois sismos terríveis que destruíram por completo, na segunda metade do século passado, as cidades de Agadir (Marrocos) e Skopje (hoje capital da Macedónia, mas na altura pertencia à Jugoslávia).
Abraço grande.

Redneck disse...

João, das referências citadas, me lembrei de São Francisco mas desconhecia completamente a destruição de Agadir e de Skopje. Quanto à China, sim, o governo chinês sempre esconderá esse tipo de informação para esconder sua própria incompetência. Dado que a China é o país mais populoso do mundo, fico a imaginar quantas vidas foram perdidas nos tremores que sacodem aquele país de tempos em tempos. E, quando você fala de Lisboa, eu penso em São Paulo: algumas vezes houve tremores mínimos por aqui (não sei te precisar qual foi a magnitude na escala Richter) mas que assustaram e muito as pessoas. Não posso sequer imaginar o que seria dessa cidade com um eventual terremoto. No Nordeste, temos, de tempos em tempos, tremores que assustam bastante os moradores. Ou seja, ninguém está a salvo do eterno movimento das placas tectônicas. Abraço!

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