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sábado, 9 de agosto de 2008

Pai

Diz-se popularmente que ser mãe é padecer no paraíso. A despeito de não concordar com a afirmação, pergunto: O que é ser pai? Porque me parece que os pais estão sempre deslocados no tripé pai-mãe-filhos. Qual é o papel do pai? Ou, melhor, há um papel específico a ser exercido, seja pelo pai, pela mãe ou pelos filhos?



Não sou pai. Sou filho. E desconfio que tampouco pais, mães e filhos atenham-se a papéis. Somos, todos, naturalmente, apenas o que somos. Claro que condicionados, socialmente, a exercer determinadas interpretações no palco do dia-a-dia. Mas, na essência, atropelamo-nos, uns aos outros, pelo simples fato de ser quem somos, pais, mães ou filhos.

Pai é provedor. Natural, primitivo. Não, não é isso também. Há muita mãe mais provedora do que pretensos caçadores do alimento que comporá a mesa. Pai é protetor. Tampouco o são todos. Alguns, ao contrário, carecem de segurança elementar para poder fornecê-la para a prole.


O que é ser pai? É reprimir, julgar, estabelecer limites, regras, conceder, fomentar? Acho que não é nada disso e, simultaneamente, é tudo isso, misturado, sem padrão e receita. Pai é feito de ingredientes. Alguns, de especiarias. Outros, de muito sal e pouco açúcar. Mas, são todos feitos do mesmo barro que multiplicam e multiplicam e multiplicam.

São implacáveis e os relegamos a um segundo lugar. Se são benevolentes, de pronto são colocados em pedestais. Não, não são super-heróis. Nem santos. São, como somos, os filhos, e como o são, as mães, meros seres. Errados, equivocados, odiados, amados.




Que os momentos se fazem de instantes e não há fotografias que congelem sentimentos como congelam as poses.

O princípio, o fim e o meio. Pai, mãe e filhos. Trindade. Que, na tentativa de eternizar-se, cobram de nós, filhos, o que não puderam ser. Que o humano é perecível, dado mais ao erro do que ao acerto.


O mito eternizou a interrogação: "Pai, pai, por que me abandonastes?". Também celebrou a Pietá, que acolhe o filho no abraço derradeiro. E comemorou quando o pai o filho pródigo recebeu. Então, o que é o pai?

É a barba cerrada que, em criança, o filho sentiu e nunca mais esqueceu. Que assustou-se com a figura pálida, e não mais bronzeada pelo sol no campo. Que não esqueceu, depois de tanto tempo, do som do assovio que conduzia. Da tosse. Do cheiro. Do andar. Do olhar.

Ser pai não sei dizer o que é. Sobraram-me impressões que, como textos, estão impressas em flashes na memória. A uns bastam as memórias do sangue. Amanhã, 11 de agosto, comemora-se oficialmente o dia dos pais. Amanhã, 11, faz 4 anos e dois meses que perdi o meu. Acabei de receber um texto de uma amiga que perdeu recentemente o pai. Que lamenta a perda, mas, compartilha a lembrança.

Se a eternidade, perene, não existe, creio que, se os que se foram estão registrados na memória vivamente, esses, são, assim eternos. Vai ver ser pai é isso. Viver no sangue e, mais, na memória. Na eternidade de lampejos.

4 Comentários:

Eliana Mara Chiossi disse...

Red:

cheguei da Ilha da Madeira, e vim do Porto para o hotel, cansada, cheia de paisagens e histórias, mas neste outro planeta chamado Portugal, o chekin é só as 14... vim pra cá, pra um cyber, quase pátria, e por acaso mesmo visitei o Carteiro. E soube da tua presença. Estamos voltando... nesta segunda, retomamos o ritmo e as palavras.
Amei esta postagem do dia dos pais. Ver outras formas de sermos amorosos. Estou vivenciando muito a
tensao entre hospitalidade e hostilidade. E constato que a hostilidade ganha, quando falamos diferente, quando pensamos diferente. se fugimos do modelo de fábrica, lá vamos nós sendo rotulados... Mas também, quando nos encontramos, descobrimos que temos pátrias...
beijos

Redneck disse...

Oi Eliana, que prazer receber sua visita! Engraçado você citar a hostilidade em oposição à hospitalidade porque uma amiga em Angola recebeu igual tratamento de cidadã da ex-metrópole. Foi chamada de "colonizada" e, portanto, rotulada de "inferior". Creio mesmo que a hostilidade ganha. E é triste constatar que a Babel, ainda que cada vez mais globalizada, torne-se, em simultâneo, tão aguerrida. Quando sentir falta da pátria, achegue-se à virtualidade de expatriados como nós. Beijo e bom retorno à sua pátria de palavras!

Luísa disse...

Querido, fiquei comovida com os comentários. Talvez pela lembrança daquele amor tão forte na infância que foi se transformando, eu não sei... A lembrança da barba do meu pai no meu rosto é vívida e indescritível. Felizmente posso contar com a companhia do meu pai, e, no entanto, sinto que aquela lembrança esta lá, no passado. Uma boa semana, querido.

Redneck disse...

Oi Luísa, reafirmo que a memória do sangue, aquela que carregamos, e somente nós, vale mais do que qualquer outra herança. Entendo a transformação, mas, também não a compreendo. Boa semana para você também. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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