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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Liberdade, igualdade, fraternidade

A França celebrou ontem, dia 14 de julho, a Fête Nationale (Festa Nacional), que marca a Revolução Francesa, a Festa da Federação e a Tomada da Bastilha. A Revolução Francesa alterou a França e o mundo, a partir de 1789. Aboliu o Antigo Regime (Ancien Régime) e a autoridade do clero e da nobreza, contaminada pelos princípios do Iluminismo.


Com a Revolução Francesa, o mundo ocidental abre-se à Idade Contemporânea, ou seja, a nossa própria época. Entre outros grandes feitos, a Revolução Francesa aboliu a servidão e o feudalismo e proclamou os princípios universais de liberdade, igualdade e fraternidade.

Ontem, a França comemorou a data com uma festa em tudo condizente com Paris, a cidade-luz: desfile militar, esquadrilha da fumaça sobre o Arco do Triunfo, comemoração dos 120 anos da Torre Eiffel, a estampa glamourosa da primeira-dama, Carla Bruni, e milhares de pessoas na rua.


A França colonizou (como a Inglaterra, Bélgica, Holanda, Espanha, Portugal e outros países europeus) algumas dezenas de países atualmente independentes: Marrocos, Argélia, Tunísia, Senegal. Esses povos nunca mais foram os mesmos, a despeito do que teriam sido sem a mão forte da colônia. O importante é que os ex-colonos vivem às margens da sociedade francesa: não são franceses e tampouco são cidadãos de seus próprios países. Não são, portanto, iguais e tampouco fraternos perante a sociedade francesa. Me lembrei de imediato do filme "Código Desconhecido" quando um argelino cospe na face da personagem de Juliette Binoche.


O ex-colonizado tem ódio do colonizador. E não consegue superar isso (e não sei se isso não ocorre, de certa forma, entre Portugal e Brasil; me recordo também do exemplo clássico de brasileiros deportados a partir da alfândega portuguesa sem ter sequer colocado os pés além das salas policiais).


Apenas para resgatar os três princípios eternizados pela Revolução Francesa, rememoro:

- Liberdade: ausência de submissão e de servidão. Independência. Autonomia.
- Igualdade: ausência de diferenças de direitos e deveres entre as pessoas.
- Fraternidade: não há nada, a princípio, que distingua um homem de outro e, portanto, são fraternos, iguais e livres.


O que me chamou a atenção neste 14 de julho francês foram os focos incendiários provocados por toda a França por jovens, notadamente suburbanos, que aproveitam o dia nacional do país para chamar a atenção quanto à ausência de igualdade e de fraternidade (quiçá de liberdade) das minorias: foram mais de 500 veículos incendiados, superior aos incidentes registrados no ano passado, que passaram dos 350 carros queimados. Pelo menos 250 pessoas foram presas e armou-se uma segurança gigantesca para garantir as paradas militares e a passagem do alto escalão francês pelos Champs-Élysées.


Esses manifestantes são, na maioria, jovens desempregados e de minorias étnicas, ou seja, das mesmas etnias subjugadas pela França quando da colonização dos países citados acima. Depois de toda a festa, procurei nos principais veículos da grande imprensa francesa informações sobre os 'distúrbios' que tentaram chamar a atenção para si. Pesquisei Le Monde, Liberation, Le Figaro, alguns sites franceses e outros meios de informação como as agências noticiosas.

Em vão. Exceto por uma ou outra citação, minúscula, e escassas fotos, a impressão que tive foi que a França - incluída a imprensa, o governo e outros setores - prefere ignorar essas tentativas de tomadas de Bastilhas que se alastram feito rastilhos de pólvora por todo o país. Não há grandes referências sobre o assunto e a polícia, inclusive, prefere não divulgar dados concretos. Quem sabe, ao fazer isso, é como se os apagasse, a esses incêndios.


A França é uma nação contraditória: ao mesmo tempo que prega ideais iluministas, não se acanhou, na companhia de países vizinhos, em colonizar partes da África. Os intelectuais franceses são celebrados em qualquer roda cultural na literatura, no cinema, nas artes plásticas e nos debates acadêmicos. A capital francesa é conhecida como a 'cidade-luz'. Mas, nos subúrbios parisienses e no interior do país, há uma escuridão somente interrompida pelos clarões de carros incendiados.

De quando em quando, a França é abalada por eventos históricos que têm o poder de reverberar em todo o mundo - a própria Revolução Francesa, o Maio de 68 e, mais recentemente, os protestos estudantis de março de 2006. Foram todos eventos de repercussão internacional que tiveram por mérito promover mudanças, na França e no mundo.


Portanto, me questiono que França é essa que celebra suas Bastilhas e encerra, em bastilhas outras, escuras e escondidas, às soturnas, seus próprios medos. Essa França inscreve outras palavras na história contemporânea: prison, inégalité e infraternité.

2 Comentários:

pinguim disse...

Excelente texto, bem documentado por fotos, de um país que sempre admirei; aliás, sempre fui beber mais à cultura francesa do que à cultura anglo saxónica.
Abraço.

Redneck disse...

Pinguim, obrigado! Eu, sinceramente, já não sei se gosto tanto assim da cultura francesa. Quanto aos britânicos, particularmente, tenho reservas também. Creio que estou para me tornar um tanto quanto semelhante a franceses e ingleses: um xenófobo em relação aos dois países. Mas, de qualquer forma, não dá para desprezar a contribuição francesa ao mundo, nas mais diversas áreas. Abraço!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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