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domingo, 25 de julho de 2010

Meu rugido dominical

Você conhece o livro "Middlesex" (Jeffrey Eugenides - editora Rocco - 568 páginas)? Calliope Stephanides é a personagem central. Hermafrodita, foi criado como menina mas é homem. Eugenides é autor de um outro livro que fez uma carreira bem-sucedida no cinema - "As Virgens Suicidas" - e foi o vencedor do prêmio Pulitzer de 2003 com "Middlesex".

Calliope tem 41 anos e narra a saga de três gerações a partir dos avós - os gregos Lefty e Desdemona, que eram irmãos e também primos em terceiro grau, que se casam por conta de uma atração física irreprimível. Depois de se casar, eles migram para os EUA e têm filhos, apavorados com o fato de gerar um monstro por causa do incesto. Mas os filhos são saudáveis e um deles, Milton, será o pai de Calliope.

Milton se casa com uma prima, Tessi. Eles têm o primeiro filho, saudável. Um menino. E Tessi deseja ter uma menina. E, finalmente, concebe uma menina. Mas levam 14 anos para descobrir que a garotinha era, no final das contas, um garotinho.


Calliope começa a sentir atração por mulheres e namora uma mulher em segredo. É somente nessa ocasião que um médico descobre o equívoco de toda uma vida: Calliope é homem, geneticamente, mas sua genitália é de um hermafrodita. Ele se sente homem mas foi educado, culturalmente, como mulher. E o livro relata como se dá a compreensão e a transição - física e emocional - de um hermafrodita que decide assumir que é homem ao invés de assumir a porção feminina sob a qual foi criado.

Hermafrodita vem do deus grego Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite (representantes dos gêneros masculino e feminino), que tinha os órgãos sexuais dos dois sexos. Isso ocorre, segundo a explicação científica, por um processo teratológico - má formação embrionária.

O hermafroditismo, portanto, é diferente do transexualismo. A transexualidade é uma condição de transtorno de identidade de gênero. O transexual, assim, tem um determinado gênero (masculino ou feminino) mas tem o desejo de viver e ser aceito com o gênero oposto sob o qual nasceu. Homens e mulheres transexuais se sentem inadequados com seus sexos anatômicos e, geralmente, desejam fazer a transição do sexo de nascimento para o sexo oposto, chamado de sexo-alvo. Essa transição define-se como "terapia de reatribuição de gênero" e pode incluir a cirurgia de troca de sexo.

O assunto é controverso e há muito tabu porque, sempre que se não pode classificar algo, as pessoas tendem a a apontar o "desconhecido" e temê-lo. Essa rejeição pode tanto marginalizar o transexual quanto criminalizá-lo pelo simples fato de que ele não se encaixa na "sociedade convencional". Tanto é assim que a França deixou de considerar o transexualismo um transtorno mental somente neste ano de 2010 e é apenas o primeiro país no mundo a tomar essa decisão!


Leão vem do latim leone, de panthera leo. Leo, logo leão. Antes Leandro, que atendia pelo codinome Leo. Agora, Lea. Lea T. Lea T. é um transexual brasileiro. Nascido em Belo Horizonte, filho do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo, que atuou pela Seleção Brasileira entre 1977 e 1985, Leo é um filhote rejeitado. Criado na Itália, por conta da profissão do pai, que jogou naquele país, Lea T. renasce. E a foto publicada pela revista Vogue (da França, onde mais?), que estampa excepcionalmente este post, não deixa dúvidas: Leo e Lea convivem no mesmo corpo e desse corpo nascerá Lea T.

A ascensão de Lea T. começou no meio da moda italiano, ganhou força com Lea T. a estrelar a campanha da Givenchy e com repercussões na revista Vanity Fair da Itália, para a qual Lea cedeu entrevista sobre mudança de sexo. A família - a mãe, Rosa, e os irmão Gustavo, Lorena e Luana - apoia Lea T. O pai não. Lea disse à Vanity Fair: "nunca falei uma palavra com ele disso (o transexualismo). Ele e minha mãe são separados. De vez em quando, falo com ele por telefone e nós nos vemos uma vez por ano. Papai, quando chegava em casa, me olhava e dizia notar algo que não ia bem comigo". O irmão mais velho declarou: "Não falaremos mais sobre essa história. Não queremos nos expor. Quem faz sucesso é a Lea e não a família. Só digo que estamos ao lado dela e a apoiamos. É isso".

Lea está incomodada com a repercussão de tudo e não pretende falar com a imprensa brasileira. À Vanity Fair apenas respondeu que tem mesmo a intenção de fazer a cirurgia de mudança de sexo: "Sei que tenho pela frente uma construção vaginal, o que não é realmente uma vagina. Sei que, com os documentos que me confirmarem que sou uma mulher, minha vida ficará mais fácil. A escolha agora é entre ser infeliz para sempre ou tentar ser feliz."

O caso verídico de Leandro/Leo/Lea T. e a história fictícia de Calliope me remetem a uma outra pessoa, real, coincidentemente de nome Leandro e codinome Leca, a quem não conheci intimamente mas vi criança e adulto e, por circunstâncias locais, conhecia relativamente bem, que tinha o mesmo sonho de Lea T: fazer uma cirurgia de mudança de sexo. Leca não conseguiu. Morreu antes, num acidente até hoje não explicado. Embora eu não fosse próximo de Leca, lamentei muito porque a morte foi, literalmente, o enterro de uma vida que nunca chegou a se concretizar. E tenho comigo que foi uma morte com proporções odiosas, baseadas no desejo (in)consciente de matar aquilo que atrai. Mas é uma outra história.

Li também sobre Lea T. que a modelo foi aplaudida, festejada e atacada ferozmente pela internet. E faço aqui minhas palavras sobre o que li: comemos alimentos transgênicos, vivemos com corações e rostos transplantados, colocamos seios e nádegas de silicone, cabelos e dentes postiços, reconstituímos hímens, colocamos fios de ouro no rosto, paralisamos músculos em todo o corpo para obter firmeza, introduzimos os mais diversos objetos no pênis para aumentar o tamanho do falo e, no entanto, esbravejamos, coléricos(as) quando um ser humano tenta transformar seu próprio corpo e migrar de um sexo que não lhe pertence, psicologicamente, para o outro com o qual se identifica. É muita hipocrisia!

P.S. Excepcionalmente, posto a foto de Lea T. por considerá-la uma autêntica representante da espécie leonina. Porque somente um leão pode rugir contra tudo e contra todos e fazer, se não calar, ao menos barulho para que os demais ouçam. O símbolo do transexualismo, também postado, vai como homenagem de minha parte aos transexuais pelos quais tenho o maior respeito.

2 Comentários:

pinguim disse...

A transexualidade compreendo-a e aceito-a pois há pessoas que geneticamente não estão adequadas ao corpo que têm e assim devem fazer as necessárias transformações, por complexas que sejam.
Mas não confundo transexualidade com hermofroditismo, que é ainda mais raro e que eu não entendo como pode ser tratado ou se não há mesmo nada a fazer...

Redneck disse...

João, do que eu entendo do hermafroditismo, o princípio é o mesmo: se faz necessária uma correção cirúrgica para moldar o corpo à mente da pessoa que é hermafrodita. Seja qual for o nome que se dê, no entanto, para os mais variados gêneros sexuais do humano, o importante, mesmo, é que o assunto não tenha que virar notícia da mídia pelo fato da pessoa ser isso ou aquilo. Ninguém me coloca no jornal ou na TV pelo fato de eu gostar mais do preto do que do branco. Assim deveria ser mas há muito chão até que essa poeira seja apenas poeira. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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