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domingo, 11 de julho de 2010

Meu rugido dominical



Durante todo esse mês, que envolveu a realização da Copa do Mundo - entre o dia 11 de junho e hoje, 11 de julho -, muito se ouviu, em toda a mídia mundial, sobre a importância do evento para, finalmente, suavizar as diferenças de raças na África do Sul e, por extensão, no continente africano. Loas foram entoadas a todo o momento (na mídia brasileira, particularmente) para felicitar a África do Sul como se, neste mês, o país houvesse apagado todo o seu passado e fechado a portas grossas a feiura do apartheid.


Na minha opinião, apenas passaram um verniz e tentaram vender, para a audiência global, a sensação de que os mundos africanos, entre os brancos bôeres (colonos de origem holandesa, flamenga, francesa e alemã) e os negros zulus, xhosas, basothos, bapedis, vendas, tswanas, tsongas, ndebeles e swazis, convergiram numa igualdade ideal. Mentira!


Não estive e nem precisaria estar in loco para saber que, assim que a locomotiva da World Cup, liderada pela FIFA, deixar o continente, nesta semana, a África do Sul se voltará para seus problemas internos, inclusive o da divisão racial.


Durante estes 30 dias, me lembro de ter lido apenas uma matéria sobre a prevalência da divisão racial: a despeito de, oficialmente, o apartheid ter sido extinto em 1994, passados 16 anos, Orânia, cidade a 650 Km de Johannesburgo, ignorava, exceto por nove telespectadores, o início da Copa do Mundo no dia 12 de junho. A cidade é formada por 720 africâners (descendentes de holandeses) que vivem isolados na tentativa de manter a "pureza da raça". Negros e mestiços são proibidos de morar em Orânia, embora os âfricaners componham apenas 6% da população total da África do Sul. Há um museu na cidade, dedicado a Hendrik Verwoerd, o primeiro-ministro que prendeu Nelson Mandela nos anos 60 (foi preso em 62 e libertado apenas em 90 e, com isso, tornou-se o líder do antiapartheid).


Sobre os símbolos que definitivamente deram à África do Sul a cara de uma copa - bandeira sul-africana, camiseta do time (o Bafana Bafana) e a vuvuzela - uma moradora disse que era (a vuvuzela) a coisa mais idiota já inventada e que "tinha vontade de atirar em quem toca esse negócio". Uma outra morada conhecia apenas o zagueiro Mattew Booth, da seleção sul-africana. Detalhe: Booth era o único branco dessa seleção atual.


Acima da África, já no Hemisfério Norte, um outro país deu uma demonstração popular forte para a separação geopolítica: na Espanha, em Barcelona, mais de 1 milhão de pessoas se concentraram nesse último sábado, 10, para defender o estatuto de autonomia da Catalunha. A manifestação era contrária à decisão do Tribunal Constitucional da Espanha que rejeitou a Catalunha como nação e determinou que a língua catalã não tem preferência sobre o espanhol como língua na região.


Li também que a Copa do Mundo fez muito mais do que os políticos pela unidade da Espanha: "separatistas, independentistas e nacionalistas agora levantam, junto com todos os espanhóis, a mesma bandeira vermelha e amarela", assinalou uma das agências de notícias internacionais. Mentira de novo!


Como bem o demonstraram os mais de 1 milhão de catalães que desfilaram em Barcelona contra a determinação de Madrid. O povo catalão (do qual sou originário pela parte materna) tem língua própria e uma história que remonta ao reinado de Aragão, do qual se tornou independente em 1714. Na ditadura de Franco (entre 1939 e 1975), o catalão foi proibido de falar sua própria língua e foi declarado ilegal publicar livros nessa língua.


A sentença do tribunal espanhol, no entanto, deixou claro que sentimentos separatistas estão fora de cogitação da Espanha: "a Constituição não conhece outra, a não ser a nação espanhola". A frase faz parte do texto de 881 páginas que responde a um recurso impetrado em 2006 pelo Partido Popular para que fosse revisados pontos considerados inconstitucionais no Estatut (a lei catalã). Por conta disso, a manifestação de sábado em Barcelona ostentou o lema "Som una nació, nosaltres dedicim", em catalão, que quer dizer "Somos uma nação, nós decidimos".


Por aquelas vias que não conseguimos explicar e tanto podemos atribuir ao destino quanto à coincidência, jogaram a final desta Copa do Mundo a Espanha e a Holanda. A Espanha é a grande campeã da Copa do Mundo da África do Sul 2010. E aproveito para parabenizar a nação inteira por este título inédito do futebol espanhol. Mas o que me chama a atenção é o fato de que, de um lado do campo, estavam os holandeses, que deram origem aos bôeres e africâners que criaram as raízes para o apartheid sul-africano, tão profundas que consumirão ainda muitas décadas para serem aparadas. Do outro lado, estavam os espanhóis, cuja seleção era formada em vasta maioria por jogadores do Barça (Barcelona): eram oito, no total.


Ou seja, o futebol, ao contrário do que pregaram políticos e toda a cartolagem da FIFA, de maneira alguma é capaz de forjar unidade. E muito menos apagar do passado recente tanto os desmandos da África do Sul quanto os da Catalunha. O fato de holandeses e espanhóis jogarem a final deveria ser visto tal qual foi o jogo: uma disputa. É o que sempre é, apenas uma disputa entre um lado e outro.

2 Comentários:

pinguim disse...

No que respeita à África do Sul, estou totalmente de acordo com os teus dizeres.
Já quanto à Espanha, e pese embora as fortes raízes nacionalistas de algumas das suas regiões, penso que o triunfo no Mundial os irmanou muito, pelo menos durante um certo período o orgulho espanhol substituirá de certa forma, o desejo separatista.
Beijo.

Redneck disse...

João, tenho uma querida amiga que é espanhola de origem e, segundo ela e amigos, dificilmente a Espanha ficará unida, em que pese este momento de triunfo. Para o governo espanhol, a vitória foi boa porque tirou de foco a manifestação catalã. Mas, basta estar lá para sentir essa divisão e o quanto catalães e madrilhenos se odeiam. Eu fui testemunha disso. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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