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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

The book is on the table


Esta é a capa do livro mais caro do mundo - "Michelangelo - La Dotta Mano" (Michelangelo - A Mão Sábia) - que custa 100 mil euros (R$ 265 mil). A primeira tiragem, de apenas 33 exemplares, se esgotou em apenas um mês. A tiragem completa será limitada a 99 exemplares.

Os 33 primeiros volumes foram vendidos a colecionadores particulares da Europa e dos EUA e a segunda edição já está no prelo. Quer dizer, prelo é força de expressão. Cada livro consome entre 3 a 6 meses porque é feito artesanalmente, com as mesmas técnicas usadas no Renascimento.

O livro é publicado pela editora italiana FMR para celebrar os 500 anos do início dos trabalhos de Michelangelo na Capela Sistina e abrange a vida e obra do artista. A obra pesa 24 quilos. Na capa do livro, há uma réplica, em mármore, da "Madonna della Scala", escultura feita por um Michelangelo ainda adolescente. O mármore, do tipo carrara, vem da mesma pedreira - Il Polvaccio -, aonde Michelangelo em si adquiria material para esculpir. O veludo de seda que cobre a capa é feito em teares antigos, que produzem apenas 8 centímetros de tecido por dia. E o papel, em algodão puro, é produzido à mão, fibra por fibra.

"Michelangelo - La Dotta Mano" tem 45 gravuras de desenhos e documentos de Michelangelo e 83 fotografias originais das esculturas do artista realizadas pelo fotógrafo Aurelio Amendola. O texto foi escrito pelo pintor e arquiteto italiano Giorgio Vasari, que era amigo de Michelangelo.

Da tiragem total, 33 exemplares serão destinados a museus de todo o mundo. Como curiosidade, se você quiser adquirir o seu exemplar, a única livraria da FMR fica situada em Paris, na Galérie Véro-Dodat. Os livros têm garantia de 500 anos. Obviamente, this book is'nt on my table. Unfortunately! Mas, alerto que eventuais doações serão totalmente bem-vindas!

sábado, 21 de novembro de 2009

The book is on the table

Tudo são números grandiosos neste livro: 759 páginas, 4 bilhões de anos retroagidos do presente até o início do que definimos como a origem da vida - que o autor atribui às bactérias de dois tipos: eubactérias e arqueias - e 39 encontros com os denominados 'concestrais', grupos de vida animal e vegetal que, de retrocesso em retrocesso, desde nós, atuais humanos, explicarão (ou tentarão) como nos tornamos o que somos, tanto a vida animal, humanos inclusos, quanto a vida vegetal que viceja no ar, na crosta terrestre e no fundo do mar.


Levei quase cinco meses para ler tudo: comprei o livro no dia 04 de julho e o terminei esta semana. Foi um processo de absorção de informação científica, de dados biológicos, de cálculos e inferências que, leitor, devo deglutir e entender sob o risco de me perder em tantas idas e vindas.


Ao final, fica a sensação de que somos apenas mais um dos grupos referidos pelo autor nesses 4 bilhões de anos - entre as primeiras bactérias e nós e os bichos e plantas que habitam a Terra, milhões de outros animais, plantas e hominídeos feneceram. A seguir tal precisão evolutiva, vamos nós também atuais dominantes do planeta, rumar inexoráveis em direção ao fim e sermos substituídos por outras espécies melhor adaptadas às futuras condições ambientais desse planeta que, ao menos até agora, é o único que viabiliza a vida humana.





O livro é "A Grande História da Evolução - Na Trilha dos Nossos Ancestrais" - Richard Dawkins - editora Companhia das Letras - 759 páginas. Dawkins é um darwinista ferrenho e, no oposto, ateísta e totalmente contra a teoria dos criacionistas - aqueles que creem na teoria da criação, pela qual uma ou mais entidades inteligentes estão por detrás do surgimento do universo. O criacionismo - e por isso o constante ataque de Dawkins ao conceito - se caracteriza pela oposição às teorias científicas que pretendem explicar a origem da vida e da evolução de todos os seres vivos.


"A Grande História da Evolução" não é um livro fácil. A despeito do autor ter feito uma associação com o clássico livro "Os Contos de Cantuária", de Geoffrey Chaucer, essa ligação não favorece o livro de Dawkins. Nos "Contos de Cantuária", Chaucer relata a peregrinação de homens e mulheres da Idade Média à Cantuária e cola as narrativas de cada personagem umas às outras. No livro de Chaucer, que adquiri justamente a partir da leitura de Dawkins, isso funciona. Mas para os peregrinos de Dawkins, cujos 'contos' pretendem fazer amarração semelhante, nem tanto. O artifício de Chaucer é maravilhosamente literário e o de Dawkins, bem, é apenas uma tentativa de dar efeito literário a uma obra que é científica.


Mas engana-se quem pensa que a história da biologia, da evolução e de milhões de seres encadeados em grupos que formam os peregrinos nos 4 bilhões de anos, é chata. Na verdade, há muitas e bastante agradáveis 'viagens' ao lado desses peregrinos relatados por Dawkins.


Autor de outros livros bastante polêmicos como "O Gene Egoísta", "O Fenótipo Estendido" e "Deus, Um Delírio", Dawkins acaba de lançar um novo livro - "O Maior Espetáculo da Terra - As Evidências em Favor da Evolução" ("The Greatest Show on Earth - The Evidence for Evolution"). Esse livro se soma ao "The Ancestor's Tale - A Pilgrimage to the Dawn of Life", título original de "A Grande História...". 


Para mim, o livro torna-se um subsídio a mais no meu próprio repertório de crenças e descrenças. Assim como Dawkins, sou, por natureza, um evolucionista e compartilho da teoria de Charles Darwin que, este ano, completa 150 anos. Ante eventuais críticas e defesas ardentes sobre as teorias religiosas e criacionistas (ambas, embora tenham pontos de contato, não são a mesma coisa, não de todo), uso uma reprodução feita por Dawkins sobre um diálogo empreendido entre o evolucionista britânico J.B.S. Haldane e uma expectadora criacionista de uma de suas palestras: a mulher diz a Haldane que simplesmente não podia acreditar que, mesmo em bilhões de anos, se pudesse "ir de uma célula única a um complicado corpo humano". Haldane retruca: "Mas, madame, a senhora mesma fez isso. E em apenas nove meses".


Portanto, a vida pode ser explicada por Darwin, pela fé religiosa, por criacionistas ou, simplesmente, ser deixada à deriva, sem que importe de onde viemos e como chegamos a nos constituir no que somos atualmente. O que interessa, a meu ver, é que a vida é infinita e que o mais brilhante de tudo isso é o fato de poder falar sobre isso e acreditar em matemática ou na astrologia. Não importa. O que importa é a certeza maravilhosa de que chegamos aqui e, pelo menos por ora, somos o que somos, independentemente de termos atrás de nós 4 bilhões de anos. Somos apenas poeira dos tempos, como gosto de falar. Com a diferença que somos poeira falante, inteligente e gostamos de nos unir entre nós. Vai ver a história de que somos feitos do barro tenha a ver com essa poeira cósmica a que eu tanto me refiro. Sei lá!



quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Original de Laura

Mais do mesmo: um neurologista brilhante, mas fisicamente pouco atraente, deprimido pela infidelidade da esposa mais jovem, pensa em cometer suicídio. Abordei essa palavra aí atrás ontem, ainda. Mas aqui é ficção: acontece agora, no dia 17 de novembro, o lançamento de um livro inédito de Vladimir Nabokov, 32 anos após a sua morte. O livro sai nos EUA (pela Knopf/Random House) e na Grã-Bretanha (Penguin), depois de 30 anos de hesitação do filho do escritor, Dmitri, que detém os direitos sobre a obra.





Nabokov, conhecido mundialmente por ser autor de "Lolita", havia dado instruções para que os originais fossem queimados após a sua morte, o que nunca foi feito. Acho engraçado isso de as pessoas deixarem instruções para destruir documentos, papéis, cartas e manuscritos. Se a pessoa quer que sejam destruídos, e não 'vazem' para a posteridade, basta ter em mãos um palito de fósforo e algo próximo de uma pira e proceder ao pequeno incêndio de sua obra. Mas, quando se trata de escritores, tenho por mim que a vaidade fala mais alto e o próprio criador é incapaz de dar fim àquilo que criou.





Assim como acontece com "O Original de Laura" ("The Original of Laura"), Nabokov também quis queimar os originais de "Lolita" e foi impedido pela esposa. Em 1955, "Lolita" daria ao autor fama universal e ao mundo um novo significado da palavra 'ninfeta'. Os manuscritos de "O Original de Laura" foram trancados no cofre-forte de um banco na Suíça em 1977, quando o autor faleceu. São 138 cartões (em papel cartolina) definidos pelo próprio escritor como incompletos. Nabokov disse que depois preencheria os vazios. Obviamente, ou não deu tempo ou o escritor preferiu relegar o livro aos arquivos.


A Penguin Classics deve reproduzir os 138 cartões e transcrevê-los numa espécie de edição manual-industrial. Um dos editores da Penguin disse que o livro é engraçado e sombrio e que explora o "ódio a si mesmo e a vontade de desaparecer". Fúnebre, não?


Como o livro não sai agora no Brasil (espero que saia em breve), fiz o post fora da rubrica "The Book Is On The Table", que costuma assinalar apenas os livros que li, e não as postagens sobre livros os quais desconheço. Porque estar sobre a mesa significa, literalmente, estar sobre a minha própria mesa.

sábado, 29 de janeiro de 2011

The book is on the table

Nos 15 dias que estive de férias entre o final do ano passado e o início deste, aproveitei, como sempre o faço no meu tempo livre, para dar cabo de alguns livros que ficaram relegados à poeira.


Antes que eu desse cabo de todos, alguns deram cabo de mim pela força. Mas, eu não me canso. Insisto em navegar nas linhas, na literatura que tenta explicar tantos porquês, tantos hiatos, dúvidas, traições, comportamentos.


Dos cinco livro que li, três foram suficientes para me causar inquietação, que é o que busco nos livros. Que me façam pensar e, se possível, ir além, cada vez mais além da mediocridade. É nos livros, sempre, que encontro um sossego ante o desassossego da vida cotidiana. Embora pareça uma contradição, ainda que o livre gere novas e desavisadas reflexões, é no terreno da literatura que melhor me encontro. Aos livros.



 - 2666 (Roberto Bolaño - editora Companhia das Letras - 852 páginas): esse catatau de páginas, na verdade, não é apenas um, e sim cinco livros. Embora inacabado, é considerado a obra-prima do escritor chileno, morto precocemente aos 49 anos. Originalmente, foi concebido para ser cinco livros diferentes. Com a saída de Bolaño de campo, talvez os editores acharam melhor concentrar tudo num só lugar. Inacabado ou não, um ou cinco livros, é, realmente, um livro de fôlego, o qual se lê sem fôlego horas a fio. Nem vou dizer que se lê esse livro sem parar porque não é verdade. Comecei lá atrás, em meados de 2010, e somente o concluí ao raiar deste ano. O nome do livro, 2666, é um mistério. Não houve tempo hábil para que o escritor o explicasse e pipocam hipóteses. Mas, o que importa mesmo é que o livro é, sim, muito bom. Começa com a investigação de um escritor recluso, passa por uma série de assassinatos no México e termina com a história do misterioso escritor. Muito bom. Leia.




- Lugar (Reni Adriano - editora Tinta Negra - 111 páginas): tamanho, efetivamente, não é documento. Com 1/8 de páginas em relação ao 2666, Lugar é uma pequena obra-prima do escritor brasileiro que foi revelação em Minas Gerais em 2009. É um livro mítico, de mitos fundadores, da violência com que se engendram os mitos. É reinvenção da roda, da língua portuguesa, da literatura brasileira. Novidade sim. Novo. Desde já, clássico. Recomendo muitíssimo. As palavras não são emitidas. São escandidas. Feito barba cerrada. "Cale-se! Afasta de mim esse pai". A ressonância com Chico Buarque, o diálogo que se empreende em níveis duros, profundos. O livro, parece, foi forjado em ferro. Manualmente.




- A Guimba (Will Self - editora Alfaguara - 331 páginas): depois do maravilhoso 'O Livro de Dave', Self volta com este romance irônico sobre o mundo do politicamente correto em que somos despidos nos aeroportos para ir e vir e, sem o direito de ir e vir livremente (estamos presos à liberação ou não de vistos), faz uma metáfora angustiante dessa nova realidade mundial. Não é uma nova ordem mundial. Antes, é uma desordem mundial, que pode ser iniciada com a ponta de um cigarro, a guimba. Self, uma vez mais, é brilhante ao descrever um mundo que, se ainda não é assim, não tarda em sê-lo. A continuar nesta saga, com um olhar avassalador sobre a in/evolução da humanidade, por certo estaremos condenados a nos fecharmos cada qual em claudicantes celas. Preocupante. Livro necessário para entender as dimensões que o 11 de Setembro deu ao mundo.




- Pegando Fogo - Por que cozinhar nos tornou humanos (Richard Wrangham - editora Zahar - 22 páginas): considerado um dos 100 melhores livros de 2009 pelo The New York Times, o livro investiga o que seria da evolução humana sem o fogo para cozinhar a nossa comida. É, antes de tudo, um trabalho científico, de investigação antropológica e sociológica, e avança ao complementar teses de Charles Darwin e de outros cientistas. Wrangham defende a tese de que começamos a cozinhar antes de nos tornarmos homens e que nos tornamos homens justamente porque passamos a cozinhar. O domínio do fogo há um 1,8 milhão de anos, mostra o livro, mudou completamente a história da humanidade e de nós mesmos, humanos atuais. Que somente o somos porque aprendemos (com nossos antepassados, que ainda não eram homens) a cozinhar. Interessante.




- A Cozinha a Nu (Santi Santamaria - editora Senac - 277 páginas): Sanatamaria é um chef espanhol, defensor aguerrido da comida e dos ingredientes naturais. Refuta modernismos, entre os quais a cozinha molecular de Ferran Adrià (que, por ora, fechou o festejado El Bulli, por prazo indeterminado, e também perdeu, no mesmo El Bulli, a companhia do irmão, que prefere a cozinha tradicional). O chef defende a volta ao campo, aos ingredientes de autênticos terroir e desbanca a indústria alimentícia multinacional - Kraft Foods, Nestlé, Unilever e outros conglomerados que produzem enlatados, conservantes, acidulantes e outros artifícios para vender comida cada vez mais anti-natural. É um verdadeiro manifesto contra uma comida falsa que tem um único mérito: criar pessoas obesas ao redor do mundo numa alimentação que padroniza e iguala a comida do Brasil à China. Excelente.

sábado, 6 de setembro de 2008

The book is on the table

Um menino de 15 anos foge de casa. Um velho conversa com gatos. O primeiro carrega uma maldição: matará o pai, dormirá com a mãe e com a irmã, numa reprodução do mito de Édipo e Jocasta. O segundo sofreu um desmaio quando criança e perdeu a memória. Nunca mais foi o mesmo: não aprendeu a ler nem a escrever. Agora, recebe uma pensão do governo e complementa a renda como "achador de gatos". Enfrentará uma estranha figura de chapéu que sacrifica gatos. O que os dois personagens têm em comum?


Não sei. Sei que o livro é danado de bom e estou na metade, a ponto de começar a desvendar os mistérios. O livro chama-se "Kafka à beira-mar", do japonês Haruki Murakami (Alfaguara, 517 páginas).


Na contra-capa, está escrito: "O mundo criado por Haruki Murakami não é um lugar qualquer. É povoado por gatos falantes, fantasmas, peixes que caem do céu e pessoas com dons paranormais. É um universo vibrante, de um dos mais importantes escritores da atualidade. É um livro imaginativo, com referências que vão do mundo pop às tragédias gregas. A odisséia desses personagens, tão misteriosas para eles quanto para nós, será pontilhada por provações e descobertas, numa das mais surpreendentes obras da literatura dos últimos anos."

Desde já, eu recomendo. Estou na página 305 e os caminhos de ambos os protagonistas começam a convergir. A literatura japonesa - atual e antiga - sempre tem o dom de me carregar em suas viagens.

domingo, 18 de maio de 2008

The book is on the table

São estes os novos livros que estão sobre a minha mesa neste momento:

- Porca Miséria, de Hasier Exteberria e David de Jorge, editora Senac: os autores são bascos espanhóis e são escritor e cozinheiro, respectivamente. O livro devassa as cozinhas européias e faz referência aos grandes chefs da atualidade, tanto dos imensos egos quanto das pretensões. O subtítulo do livro, no entanto, já revela, logo de início, que a pretensão dos autores é apenas serem divertidos: "Recordações Gastronômicas de Um Par de Suínos". Comprei pela capa, pelo nome e pelo assunto, claro.

- Cozinha Confidencial, Anthony Bourdain, Cia. das Letras: Bourdain é mais badalado como polemista do que como chef. É o chef do "Les Halles", de Nova York. No ano passado, esteve em São Paulo e disse, sobre a cidade: "São Paulo é feia. Ou melhor, é feia à beça". Bem, antes tarde do que nunca, Bourdain, feia é a sua avó! "Alguém já disse que (São Paulo) é como se Los Angeles vomitasse em Nova York", adicionou. E ainda tem brasileiro que baba diante dele. Tenho vontade de ir ao "Les Halles" e vomitar no chão. E dizer, candidamente: "Sou de São Paulo".

Enfim, mas, creio que esse tipo de provocação barata não tem nada a ver. O livro, segundo a orelha, escrita por Nina Horta, conta as aventuras de Bourdain: "Com muita sinceridade, alguma crueldade e bastante graça, Bourdain narra sua vertiginosa vida entre panelas. Didático, envolvente, é um Jack Kerouac com o Larrouse Gastronomique na mão. Em meio a nuvens de fumaça de maconha, quantidades importantes de cocaína, outras várias drogas e uma animada atividade sexual, mistura lembranças e comentários, com direito a mafiosos e Frank Sinatra, muito derramamento de sangue, bebedeiras gigantescas, pitadas de suspense e uma alegria atordoante no ar."


- As Revelações Picantes dos Grandes Chefs, Irvine Welsh, editora Rocco: esse é um romance. O autor é conhecido. Escreveu "Trainspotting" e "Pornô". Assisti ao filme do primeiro e li ambos os livros. E gostei de ambos. Em "Revelações", Welsh faz uma parábola gótica das grandes obsessões da contemporaneidade: o sexo, a comida e as semi-celebridades. O autor explora o lado sórdido da cultura dos restaurantes e faz um exame da busca de uma identidade, da rivalidade masculina e da necessidade de pertencer ao mundo.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

The book is on the table

Acabei de ler "O Mago", biografia de Paulo Coelho feita por Fernando Morais. Como eu imaginava, e não me desapontei, a vida de Paulo Coelho é muito interessante. E nem vou me somar mais (a partir de agora) à interminável lista dos que se declaram desfavoráveis ao autor de "O Alquimista".


Depois de encerrada a leitura, não tenho mais do que duvidar. Afinal, um escritor que vende mais de 100 milhões de cópias de livros, em mais de 160 países, não se encontra em qualquer esquina. E não é possível que tantos estejam enganados em lugares tão distintos por tanto tempo (mais de 20 anos). Dou a mão à palmatória e encerro minha própria celeuma com o autor.

Paulo Coelho faz parte do time dos autores que são "best sellers planetários" como Stephen King (O Iluminado e mais uma centena), Michael Crichton (O Parque dos Dinossauros), John Grisham (A Firma) e Tom Clancy (Jogos Patrióticos).

Paulo Coelho mantém alguns sites na internet, sendo que um deles - o Pirate Coelho trata de dar ao leitor o livro por meio virtual. Paulo Coelho não acredita que a internet seja uma ameaça ao livro de papel (eu tampouco). Os outros sites são o oficial, o blog e o MySpace.

Mas, o assunto que me traz a este post é outro. Ou melhor, são outros. Há dois novos livros sobre a minha mesa (e cama, sofá, pia, banheiro etc.): "O Livro das Citações", de Eduardo Giannetti (Cia. das Letras, São Paulo, 2008, R$ 39,20, 457 páginas) e "Eu Sou Um Gato", de Natsume Soseki (Estação Liberdade, São Paulo, 2008, R$ 62, 486 páginas).

Quanto ao "Livro das Citações", o autor fez um apanhado literalmente de citações de pessoas de todos os tempos, culturas e do mundo para elaborar o livro. Na minha contagem (eu contei apenas uma vez), são 818 citações, de 390 autores diferentes. De longe, Nietzche é o autor mais citado. Mas, as citações abrangem um campo bastante vasto e podem ir de Leonardo da Vinci ao Dalai Lama, de Alexandre, o Grande a Hitler.

Eu sei que o autor, Giannetti, teve um extenso trabalho para fazer das citações um livro, formado por quatro partes e 36 capítulos. Mas, vou me apropriar dele para criar um espaço aqui no blog (logo ali, à sua direita) para, de semana em semana, publicar uma dessas citacões. Vou escolher aleatoriamente, como se faz com aqueles "momentos de sabedoria". Eu, particularmente, adoro citações. Se a escolha randômica cair numa citação repetida (eu anotarei no livro as já publicadas), pulo para a seguinte.

O outro livro que adquiri, "Eu Sou Um Gato", me atraiu exatamente por conta do título. Porque, eu, eu mesmo, Redneck, sou um gato. OK, OK, me considero um, OK?  Essa é a primeira razão que me levou a pegar o livro da estante. A segunda é que, de novo, sou um gato, agora no sentido do zodíaco, felino, da família leonina. Isso, por si só, deve bastar para que eu me identifique com o livro.

Se ainda não for o suficiente, o que li na última capa me convenceu de vez: "Os humanos têm quatro patas, mas se dão ao luxo de utilizar apenas duas. Poderiam andar mais depressa se usassem todas, mas se contentam apenas com um par, deixando as restantes estupidamente penduradas como bacalhaus postos a secar." Está bem ou você quer mais? Para mim, é óbvio. No livro, um gato, literalmente, faz observações ferinas (e felinas) acerca dos humanos que o rodeiam.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

The book is on the table

Estou em plena leitura do livro "Maus Bocados" (Cia. das Letras, 353 páginas) do poderoso e irritante chef norte-americano Anthony Bourdain (do restaurante Les Halles, de NY) , que também publicou "Cozinha Confidencial", com o qual arrumou toda confusão que pôde com famosos chefs de todo o mundo. Em "Maus Bocados", por exemplo, Bourdain desanca o britânico Jaime Oliver, por quem, admito, nutro a maior simpatia. Sei que ele também gosta de mim, pergunta por mim, liga e deixa recado e tudo o mais. Eu é que ando sem tempo.



Bourdain esteve no Brasil e falou mal de uma penca de restaurantes considerados finos. E elogiou o "churrasquinho grego" das ruas de São Paulo. Goste-se ou não de Bourdain (às vezes, eu gosto; outras, nem um pouco), o fato é que esse mix de chef/escritor traz à tona, em seus livros, um monte de histórias que os grandes restaurantes e a nata dos cozinheiros preferem ocultar nos sombrios refrigeradores de suas cozinhas. São histórias mais apimentadas do que os temperos usados nos pratos desses lugares. Eu diria que alguns casos relatados por Bourdain são até escabrosos.

Em São Paulo, por exemplo, é fato conhecido (entre o pequeno mundo da gastronomia, que é equivalente a pequenos mundos similares como o do jornalismo, da moda, das artes) que rola nas cozinhas mais famosas de tudo um pouco: consumo elevado de drogas, brigas entre cozinheiros, com direito a facadas, e outros cortezinhos de amor e ódio. A gastronomia é fomentada, tanto quanto o jornalismo, por uma extensa e eterna briga de egos.

Mas, o livro sobre o qual quero comentar é outro: "Na Pior em Paris e Londres", de George Orwell (Cia. das Letras, 255 páginas). Sim, o mesmo Orwell que escreveu "1984" e "A Revolução dos Bichos". Orwell comeu, literalmente, o pão que o diabo amassou em Londres e Paris no final dos anos 20. O mérito de Bourdain, neste caso, é ter falado sobre esse livro em "Maus Bocados" e de como trabalhar sob pressão. Orwell trabalhou em um restaurante em Paris e, no livro, descreve o ritmo insano da vida de lavador de pratos na França. Das idas ao antigo e famoso mercado central Les Halles, que foi construído em 1183 e demolido em 1971 para dar lugar a um moderno shopping, o Forum des Halles. De toda a aflição que um faminto e desesperado aspirante a escritor passa naquela Paris de 1928, no meio de cozinhas imundas e de hotéis com percevejos.


Ainda não comecei a ler o livro, mas, somente pela pequena amostra que me deu Bourdain, tenho certeza de que Orwell sofreu, naqueles tempos, tudo o que sofre um atual cozinheiro em qualquer grande metrópole do mundo. Bourdain, quando confrontado com pressões intermináveis, fala do continuum que envolve os cozinheiros desde os tempos imemoriais. E Orwell, ao relatar isso em "Na Pior ...", apenas ratifica que, seja nos séculos XVIII, XIX (Carême, Escoffier) ou agora, a cozinha é o inferno na terra. Nós, que temos uma leve queda pela cozinha, devemos, portanto, ser os diabos.

sábado, 14 de junho de 2008

The book is on the table

A primeira vez que li Paulo Coelho foi em 1987, em "O Diário de um Mago". Depois, li "O Alquimista" e "Brida" e parei por aí. No total, Paulo Coelho lançou 19 livros nestes 21 anos. É o escritor mais traduzido e, certamente, o mais lido de todo o Brasil.

Na minha opinião, a literatura de Paulo Coelho é fraca, de pouca profundidade. Um amontoado de clichês. É o que penso. E há um detalhe que me incomoda muito no autor: a falta de cuidado com a língua portuguesa. Creio que é mais marketing do que qualquer outra coisa.

Para um autor que escreve para as massas e é aceito por elas como nenhum outro, há que se ter um cuidado com o português. Seria de bom tom.

Agora, volto a Paulo Coelho. Acabei de comprar "O Mago", a biografia do autor feita por Fernando Morais. Como eu já li por aí, também concordo que o criador é mais interessante do que as criaturas (livros).

Paulo Coelho quis ser quem é e lutou para isso. Isso, por si só, o faz uma pessoa interessante, a despeito de eu gostar ou não da sua literatura. Uso uma de suas expressões para definir isso: "o universo pode conspirar a seu favor" para você atingir seus objetivos, desde que você também conspire em seu próprio favor.

Para fazer de toda essa conspiração algo a favor de mim mesmo, comprei o livro ontem, sexta-feira, 13. Olha quantos elementos de bruxaria (no las creo pero que las hay, las hay) para que tudo funcione para mim, desalojado das minhas relações com o Olimpo depois do assassinato de Cupido: sexta-feira, 13, "Mago", novo iMac (???), eu mesmo (negríssimo de veleidades). Juntarei tudo num caldeirão para ver o que sai dessa cozinha mítica.

sábado, 4 de outubro de 2008

The book is on the table

Não sei porque, mas, de repente, me vi com dois dos títulos mais representativos do que a ars poetica tem de clássico: "Orlando Furioso", de Ludovico Ariosto; e "Paraíso Perdido", de John Milton. Eu, leitor contumaz, admito que a prosa me atrai muito mais do que a poesia. Mas, outro dia, li em algum lugar sobre essas duas obras e me deu vontade de conhecê-las.


A versão definitiva (se é que existe tal conceito) de "Orlando Furioso" ficou pronta em 1532. "Em tempos loucos de guerra, o amor transforma um homem sensato em louco furioso ... Canto da loucura que levanta polêmicas no Renascimento, quando as regras racionais pretendem impor-se até à poesia ... É o caso do guerreiro Orlando que, por amor de Angélica, bela princesa oriental, deixa o exército cristão de Carlos Magno e começa a busca que o enlouquecerá ...", explica a editora na contra-capa do livro.

A edição de "Orlando Furioso" é primorosa, com introdução, tradução e notas de Pedro Gacez Ghurardi e ilustrações de Gustave Doré. A editora, Ateliê Editorial, não economizou no lançamento dessa preciosidade: assim como na publicação de Finnicius Revém (Finnegans Wake), de Joyce (5 volumes, os quais adquiri e li há uns três anos), a edição de "Orlando Furioso" é bilíngue, em português e italiano. Estou no início da leitura e já estou apaixonado pela fúria de Orlando.


O outro livro, "Paraíso Perdido", de Milton, é o grande poema épico da língua inglesa, assim como Dante fez com a "Divina Comédia" e Camões com "Os Lusíadas". O "Paraíso Perdido" foi publicado em 1667 e compõe-se de 12 cantos (ou livros), inspirados no Gênesis, da Bíblia. Adão e Eva perdem o paraíso (a queda) e, segundo Milton, é Eva que induz Adão à queda. No entanto, Adão sabia que perderia o paraíso ao se aliar a Eva no "pecado" e, mesmo assim, não hesita em segui-la. Para contar a queda de Adão e Eva, o papel de Satã e dos anjos e até a morte de Cristo, Milton entoa nos 12 cantos os versos dessa epopéia antes de tudo puritana e moralista (da Era Elizabetana). O poema trata, sobretudo, da tentação e da queda do primeiro homem.


Não sei porque se me acometeu a poesia, assim, em dose dupla. Se estou em busca das Fúrias ou da redenção, não sei dizer. Devo confessar, porém, que a mim me encanta mais o louco furioso do que o homem redimido pelo sacrifício do deus. Lá (paraíso) ou cá (Orlando em fúria), estou contaminado por Ariosto e por Milton. É meu resgate da poesia, já que há muito li Dante (Divina Comédia), Goethe (Fausto) e os nacionais Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado e João Cabral de Melo Neto (A Educação pela Pedra).

sábado, 27 de setembro de 2008

The book is on the table

Estou no finalzinho da leitura da biografia "Escoffier, o Rei dos Chefs", de Kenneth James (editora Senac, 471 páginas). Auguste Escoffier viveu entre 1846 e 1935 e tanto foi o "rei dos chefs" quanto o "chef dos reis".



O francês é considerado o pai da gastronomia moderna: foi ele que estabeleceu o serviço à russa nos restaurantes ocidentais. No serviço à russa, a comida é servida ao comensal diante do cliente e as travessas podem ser colocadas em réchauds em mesinhas (guéridon). O garçom prepara e faz o prato de cada pessoa e o serviço tem a seguinte sequência: entrada (pratos frios), prato principal (pratos quentes), sobremesa e digestivos (café e licores, com ou sem acompanhamento de alimentos).

Quebrava-se, assim, a antiga tradição do serviço à francesa, em que os pratos eram colocados simultaneamente à mesa e no qual os convidados mais importantes ficavam em frente aos melhores pratos. No serviço à francesa, os pratos vinham na seguinte sequência: caldos e sopas, acepipes, pescados e entradas, em primeiro lugar; depois, os assados e verduras; e, por fim, as sobremesas. Cuidava-se mais da etiqueta, elaborada, do que da praticidade. Os convidados tinham, inclusive, de deixar a mesa porque não havia o serviço de garçom tal como o conhecemos atualmente.

Escoffier também implantou o conceito de brigada na cozinha, com as diversas estruturas hierárquicas entre o pessoal que faz a comida: chef, sous chef, chefs de partida e commis. O uniforme usado por nós, na cozinha, é inspirado em vestimentas militares, como a dólmã. O cozinheiro baseou-se no período em que trabalhou com Napoleão III, durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) para implantar essas revoluções nas cozinhas.

O livro também aborda a relação profissional entre Escoffier e César Ritz (que durou de 1884 a 1908), fundador das cadeiras de hotéis Carlton-Ritz (o Ritz Hotel de Paris, atualmente, é de propriedade de Mohamed Al Fayed, pai de Dodi, namorado de Lady Di).

Mas, o livro não consegue desvendar a vida pessoal de Escoffier. São muito poucas as indicações que o chef, que anotava muita coisa e publicou vários livros, faz sobre sua própria família, da qual se ausentou boa parte da vida. Também não consegue estabelecer a verdadeira relação que Escoffier mantinha com a atriz Sarah Bernhardt. Os dois mantiveram, a vida toda, uma amizade, cuja discrição de Escoffier colocou um manto de silêncio sobre qual era, efetivamente, o verdadeiro relacionamento entre a atriz e o chef.

Escoffier trabalhou durante 75 anos e é, ainda hoje, referência máxima da gastronomia francesa que se espalhou pelo mundo. Uma das suas receitas mais conhecidas é o "Pêssegos Melba", mas, há uma infinidade de interferências de Escoffier que foram assimiladas pelas cozinhas ocidentais da França, Europa, EUA e que chegaram até nós. Inclusive, por meio da rede de hotéis Carlton-Ritz, na qual Escoffier implantou dezenas de cozinhas.

O livro é bom e fornece vários elementos para entender como a gastronomia e a cozinha ocidental atingiram o atual patamar. Sem Escoffier, que cuidou de codificar muita coisa da gastronomia moderna, talvez a comida não fosse tratada da forma como o é hoje.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

The book is on the table (この本は、テーブルの上にいる)

Há muito que eu não alimentava esta seção. Isso não significa que deixei de ler. Ao contrário. Li ainda mais. É que, no final do ano passado, muitas atividades se acumularam - trabalho, faculdade, compromissos - e não pude fazer muito do que gostaria.


Mas, não houve semana que deixei de passar na tríade - fnac, Cultura e Martins Fontes - e tampouco sair de uma das três sem ao menos um livro.

Foram os mais diversos, os livros. De gastronomia, mais um pouco. Recentes, lançamentos fresquinhos, com cheiro de novo e de novidade.

E, para atualizar a minha estante, vou de post temático. O título deste post em parênteses está escrito em japonês porque, de uma cartada (ou carteirada) só, comprei quatro livros japoneses, entre clássicos e contemporâneos. Gostei de todos. Cada um com um estilo. Poesias, os livros dos escritores japoneses. Atuais. Gostei de todos, mas, claro, os houve os que se destacaram.

Portanto, por ordem de preferência, listo os livros nipônicos lidos um após o outro:

- Jovens de Um Novo Tempo, Despertai! - Kenzaburo Oe - Companhia das Letras - 302 páginas: o autor foi Nobel da Literatura em 1994 e este livro é espetacular. São sete episódios - Canções da inocência, canções da experiência; Um frio menino de pé no ar em tumulto; Desce, desce, cortando a imensidão com gritos de aflição; O espectro de uma pulga; A alma desce como estrela cadente até o osso do meu calcanhar; Que a alma acorrentada se erga e olhe em volta; e Jovens de um novo tempo, despertai! -, todos baseados em poemas do poeta inglês William Blake. O personagem principal tem um filho excepcional para o qual quer deixar um livro com as definições de todas as coisas do mundo. No entanto, o pai compreende que é o filho deficiente que tem coisas para lhe ensinar. Sublime!


- Cobras e Piercings - Hitomi Kanochara - Geração Editorial/Ediouro - 124 páginas: a autora tinha apenas 19 anos quando esse livro foi lançado e recebeu o prêmio Akutagawa, o mais importante do Japão. Os três personagens principais formam um triângulo amoroso e testam todos os limites do corpo e da identidade. O destino dos três será marcado pela mudança radical ao viver dessa forma. Estranho e assustador.


- O País das Neves - Yasunari Kawabata - Estação Liberdade - 156 páginas: mais um Nobel de Literatura, de 1968. Aos 73 anos, o autor, doente e deprimido, cometeu suicídio. O livro é considerado a obra-prima do autor. O protagonista deixa para trás casa e família para tentar se reencontrar com sua juventude. O País das Neves é uma região mágica do Japão em que os embates têm contornos irreais, ocultados pela neve. O livro é tão delicado quanto podem ser as bonecas de louça japonesas.


- Há Quem Prefira Urtigas - Junchiro Tanizaki - Companhia das Letras - 191 páginas: o casal que protagoniza o livro vive na década de 20 no Japão, período em que as gerações e costumes chocam-se culturalmente. O casal move-se como no teatro de bonecos bunraku: parecem ser guiados por uma vontade alheia aos seus sentimentos. O casal quer se separar mas nem o marido e tampouco a esposa têm coragem de dar o primeiro passo. Mais uma vez, trata-se da dicotomia entre a tradição e o novo. Para mim, corresponde ao romance "Na Praia", do inglês Ian McEwan. A diferença é o estilo e a elegância japonesa, até mesmo em contar uma história de desamor.


A literatura japonesa, na minha opinião, é tão oculta e delicada quanto o são os japoneses, com suas belas residências, maneirismos e delicadeza gestual. E sempre me dá um enorme prazer descerrar as paredes de papel de arroz para ver o interior de tão diferente - e, ao mesmo tempo, semelhante - universo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

The book is on the table

Triste como a vida. Assim avalio este maravilhoso livro. "A Solidão dos Números Primos" - Paolo Giordano - editora Rocco - 284 páginas. Li em dois dias. E é a segunda vez que me surpreendo com um escritor italiano da nova geração. A primeira foi com "Caos Calmo", de Sandro Veronesi.





Mattia, um dos protagonistas, é um gênio da matemática. É irmão gêmeo de Michela que, na mesma proporção do irmão, é opostamente deficiente mental. A outra protagonista é Alice, cujo pai quer torná-la campeã de esqui. Ao sofrer um acidente, Alice fica impossibilitada de realizar o sonho do pai.


Mattia e Alice se encontrarão. Um, o primeiro, desenvolve um estranho andar para se fazer notar cada vez menos pelas outras pessoas: caminha com as laterais dos pés e evita todo e qualquer ruído que o seu caminhar possa causar. A outra, vitimada pelo acidente, tem uma perna mais curta e, por isso, caminha de forma manca. Um e outro se completarão em ambos os andares de forma simétrica. Um e outro ocupam o espaço reservado que fica vago a cada passo de ambos.


"Mattia tinha estudado que entre os números primos existem alguns ainda mais especiais. Os matemáticos os chamam de primos gêmeos: são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase vizinhos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente. números como o 11 e o 13, como o 17 e 19, o 41 e o 43. Com paciência para continuar contando, descobre-se que esses casais logo rareiam. Encontram-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado, feito apenas de cifras, e se tem o pressentimento angustiante de que os casais encontrados até ali sejam um fato acidental, que o verdadeiro destino seja mesmo permanecer sozinhos. Então, justamente quando se está prestes a desistir, quando já não se tem vontade de contar, eis que se esbarra em outros gêmeos, agarrados um ao outro. É convicção comum entre os matemáticos que, até onde se possa avançar, sempre haverá outros dois, mesmo que ninguém seja capaz de dizer onde, até que sejam descobertos. Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade."


Na minha fase atual, sinto que sou como esses números primos gêmeos: sei que existe alguém, em alguma parte do mundo, mas, por um lapso - seja de tempo ou do acaso - jamais encontrarei o primo gêmeo. E, se o encontrar, sempre haverá um outro número par (quer dizer, uma outra pessoa) a me impedir de, finalmente, tocar essa outra pessoa. Portanto, isso é triste. E, portanto, o livro é triste. Como a vida.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

The book is on the table

Mais um post temático. Desta vez, de gastronomia. Sim, o livro está e é sobre a mesa. Não é porque acabei a faculdade que meu interesse arrefeceu. Não! Longe disso! Não estive tão perto da cozinha quanto me apeteceria, mas, tampouco passei ao largo, como poderia ocorrer.


Cozinhei, sim. Mas, sobretudo, cozinhei nas letras, devo dizer. De certa forma, me dei férias de cozinha, depois de dois anos na prática laboratorial. E, por outro lado, a cozinha doméstica está bem distante do que se aprende na faculdade.

Claro, haverá os que acham que sou pedante ao afirmar isso. Mas, o feijão com arroz que eu pratico não chega nem perto do feijão com arroz de casa. Então, claro que me furtei à faina da cozinha caseira para melhor desfrutar da comida de mãe, que nada a substitui, não é?

Também devo dizer que a destreza do meu irmão com a carne e derivados me deixa inquieto, cônscio do meu pouco saber quando se trata de manejar e preparar as carnes.

De forma que entrei na cozinha tardiamente, somente na praia. Fiz coisas simples, sem sofisticação. Porque eu também estava de férias.

Para mim, as melhores férias se fazem acompanhar, sempre, de bons livros. E foi o que aconteceu. Nos quase 25 dias de férias, li sete livros. Entre os quais, os três abaixo, de gastronomia. Bem, um deles não é exatamente de gastronomia, mas faz uma adorável intersecção entre gastronomia e filosofia.


- Escoffianas Brasileiras - Alex Atala, com Carolina Chagas - Larousse - 526 páginas: é uma verdadeira bíblia que percorre toda a extensão da cozinha. Uma obra primorosa em edição que conjuga a história do próprio Atala com a cozinha regional brasileira. Claro que é bastante egocêntrico, ao sabor de livros correspondentes de chefs como Adrià, Jamie Oliver, Gordon Ramsay e companhia. Mas, e sobretudo, é um livro que ensina técnicas e dá receitas de maravilhosos pratos cujos ingredientes primam pela preferência nacional. Os capítulos são divididos segundo a evolução de um chef na cozinha: aprendizado, sonho e realidade. Recomendo como referência, com certeza. Para os que tratam os livros como obras de arte, como eu, um cuidado adicional da edição: na contracapa, há um livro-apêndice para ser usado no dia-a-dia na cozinha e preservar o livro principal.


- Em Defesa da Comida - Um Manifesto - Michael Pollan - Editora Intrínseca - 271 páginas: um verdadeiro tratado sobre a evolução da cadeia alimentar moderna e as inefáveis consequências sobre o corpo humano. A título de exemplo, veja só os nomes dos capítulos: A Era do Nutricionismo; A Dieta Ocidental e as Doenças da Civilização; e Para Superar o Nutricionismo. Pollan ataca a indústria alimentícia mundial e os lobbies que, de tempos em tempos, elegem o que é bom e o que não é bom: ora prevalecem as proteínas, ora os lipídios, ora os carboidratos. Ora a manteiga é boa, ora é fatal. A receita de Pollan para combater o poder da indústria da alimentação está na comida da avó (dele e nossas): Coma comida. Não muita. Principalmente vegetais. Livro bom para entender de que forma as prateleiras dos supermercados transformaram-se nos últimos 40 anos em verdadeiras exposições de armas letais.


- A Cozinha do Pensamento - Josep Muñoz Redón - Editora Senac - 223 páginas: de fato, este livro está mais para filosofia do que para gastronomia, mas, assim como o autor diz: "a gastronomia é a arte de condimentar os alimentos para produzir felicidade", eu digo que a filosofia permite, inclusive, tergiversar sobre aquilo de ser o que comemos ou de comermos aquilo que somos. Bacon, Sartre, Kant, Voltaire, Sócrates e outros passeiam por este delicioso livro que classifica os filósofos em doce, salgado, ácido e amargo. Um dos pontos interessantes são as receitas de acordo com a filosofia que se discute. Aproveite e interprete os enigmas sugeridos pelo autor. Alimento para o corpo e para o espírito.

sábado, 24 de maio de 2008

The book is on the table

Às vésperas da 12ª. Parada Gay de São Paulo, a cidade está cheia. De fora, são estimados 300 mil turistas que aqui estão desde quarta-feira. Os hotéis estão lotados. A 25 de Março esteve lotada, pelos compradores convencionais e pelos gays. As casas noturnas estão lotadas. O tempo ajuda. A Avenida Paulista não. A avenida, principal passarela do evento, ainda está com os tapumes, a despeito da prefeitura ter prometido que tudo estaria pronto para amanhã.

Com toda essa agitação e um sol de outono maravilhoso, tudo o que fiz, nestes dias, foi escrever matérias cujas entregas estão atrasadas. Odeio ficar em casa quando sou obrigado.

Não pude viajar, não tenho saído, não tenho feito nada, a não ser escrever matérias especializadas sobre tecnologia, internet e telefonia móvel. Não estou contente comigo mesmo, com o meu marasmo, com o meu trabalho. Com nada, enfim! Se vou à Parada? Não sei!!!

Meu único ato edificante (para mim mesmo) até agora foi comprar mais um livro, de novo na fnac. É o "Léxico Científico-Gastronômico", elaborado a partir das pesquisas feitas pela Alícia, fundação de pesquisa científica na área de gastronomia da Catalunha, na Espanha, e pelo elBullitaller, que é o laboratório culinário ligado ao restaurante elBulli, do chef catalão Ferran Adrià.

O livro (ou dicionário) foi publicado na Espanha em 2006 e a editora Senac SP acaba de lançá-lo no País. O léxico foi feito para passar ao grande público (eu diria que foi escrito para os iniciados, na verdade) a compreensão sobre os processos científicos e tecnológicos usados pela gastronomia de vanguarda atualmente, notadamente aqueles inventados por Adrià e sua equipe.

Há mais de 400 verbetes no "Léxico", com definições e, em alguns casos, indicações sobre a aplicação prática de aditivos e outros produtos na indústria alimentícia e em restaurantes.

Para saber mais: Léxico Científico-Gastronômico: as chaves para entender a cozinha de hoje - Alícia & elBullitaller - Editora Senac São Paulo - Tradução: Sandra Trabucco Valenzuela - R$ 65 (245 págs.).

sexta-feira, 15 de maio de 2009

The book is on the table

Com fome de canibal privado de repasto gordo, devorei em menos de 36 horas, entre a compra e a leitura final, as 607 páginas do segundo volume da trilogia "Millenium 2 - A Menina que Brincava com Fogo" - Stieg Larsson - Companhia das Letras - 607 páginas. O primeiro volume - "Millenium 1 - Os Homens que Não Amavam as Mulheres" - era igualmente extenso - 522 páginas, o qual eu li em novembro do ano passado.



Antes de falar do conteúdo da obra, como expressão literária, quero falar da forma e de falhas técnicas que, por partir de uma editora como a Companhia das Letras, muito me surpreende. Eu não me recordo de ter notado essas falhas no primeiro volume.

O segundo volume deveria se chamar "Millenium 2 - Meneio" tal a profusão da palavra "meneio" no livro todo. A uma dada altura, cheguei a contar cinco vezes a palavra numa só página. Era tanto menear de cabeça que achei que os personagens ficariam, no mínimo, com torcicolo. Bastava um deles falar alguma coisa e o outro meneava a cabeça. Isso me incomodou tanto que passei a contar a palavra, num evidente exercício matemático, e não mais literário.

Meneavam, todos, obsessivamente suas cabeças que cheguei a acreditar que as constantes dificuldades de se elucidar os pontos obscuros deviam-se, sobretudo, ao balançar intenso dos cérebros. Como se os neurônios estivessem em sinapses bipolares, com cada um a tentar fazer conexão com o outro sem ter sucesso.

Eu sugiro que a editora conte, no arquivo digital, quantas vezes a palavra "meneou" aparece. Até pensei em fazer a conta. Mas meneei minha própria cabeça somente de pensar em quantas vezes teria que menear contra tanta repetição. Pelos meus cálculos, a palavra "meneou" deve surgir pelo menos umas 1,2 mil vezes (havia páginas com até cinco "meneou" e outras com um "meneou").

A tradução foi feita a partir da edição francesa, e não da edição original sueca. Creio que isso colaborou para uma série de balanços de cabeças. Não sei bem porque, mas acho que foi isso. Também não entendi porque não chamaram um tradutor de sueco. Eu, por exemplo, sou completamente versado em sueco e acho um desperdício não me aproveitarem. Um detalhe: o tradutor do primeiro volume é um e o do segundo, outra. Acho que isso conta.

Outro problema: "o gigante louro se afastou, desorientado .... Nisso, Mikael aproveitou ..." (não está ipsis literis, mas é isso mesmo). A qualquer ação, a reação vinha com "nisso, tal pessoa fez aquilo", "nisso, a garota ...". Horrível. Pobre. Bengala.

Para completar, descobri uma nova palavra: "tronar". Não imaginei que tronar fosse verbo. Mas é. "A cafeteira tronava sozinha ...". Oras, melhor seria se tivessem dito: "A cafeteira estava lá, majestosa ...". Tronar significa algo como apresentar-se majestosamente, do alto. Mas, ou muito me engano, ou cafeteiras não tronam, e sim pessoas.

Por fim, eu nunca reclamo da forma dos livros. Mas desta vez não passarás. O livro inteiro cheirava a madeira recém-cortada, daquela que você sente até o cerne. Dava para ler no papel o último gemido da árvore ante a corrente da serra elétrica. Sem brincadeira! Cheiro forte mesmo. Creio que o livro foi impresso na serraria. E, se uma lupa eu tivesse, acharia, por certo, minúsculas partículas de pó de serragem. Elementares, as partículas, de tão verdes que se conservavam nas folhas.

Bem, depois de tudo isso, não me sobra muita disposição para falar do conteúdo em si. O livro não é um primor na história da arte literária. Mas tem o dom, bem-vindo a todos os livros, de prender a atenção. Funciona como um thriller: a cada página, vencidos os chacoalhares de cabeça, aparecem novos suspenses. A história até que tem alguns elementos interessantes: uma hacker poderosa, um jornalista investigativo que gosta de investigar e os vilões, que sempre são atraentes sob o meu ponto de vista.

A trilogia vendeu mais de 10 milhões de exemplares no mundo todo. O autor foi considerado uma revelação na Suécia. Mas, em 2004, assim que entregou os originais para a editora, morreu de ataque fulminante. Uma pena.

A despeito de todos os problemas, espero ansiosamente pelo terceiro e último volume. O lançamento deve ocorrer daqui a uns seis meses e, até lá, dá tempo suficiente para a editora resolver esses percalços e, pelo menos, usar papel que já esteja mais seco, com madeira sem clorofila. Se reeditarem o livro (o segundo) e corrigirem as falhas e os meneares de cabeça, eu aceito uma nova edição de presente. Menearei a cabeça positivamente.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

The book is (and was) on the table


Quando estou sombrio feito o crepúsculo e não sei se é quase dia ou quase noite, atiro-me aos livros para perfurar a fera interior. Foi o que fiz ontem, exatamente no horário a que me referi. No lusco-fusco do fim do dia e início da noite, refiz o caminho que me leva às viagens da literatura. Como sou portador de TOC (OK, podem dizer que é exagero, mas, eu sou mesmo exagerado!), tenho que me lembrar, qualquer hora dessas, de contar os passos que ligam minha casa à FNAC. Não sou supersticioso, mas, quero saber se os passos de um dia par são os mesmos de um dia ímpar.

Chame do que quiser. Eu chamo de pequenos surtos que se me atacam, do nada. Alguma ferinha interior, dia sim, dia não, clama para espichar os olhos e algo mais para o mundo exterior. Calma, calma, não se assuste. Ainda estou sob a influência do último livro que li (em dois dias). Foi "Love", de Stephen King (editora Objetiva, 542 páginas).


Sou fã de King desde as primeiras horas, lá atrás. Li "O Iluminado" antes mesmo de saber que havia um filme. "Christine", o carro assassino, "Carrie, A Estranha". Creio que li todos os Kings disponíveis. Adoro o processo sôfrego de criação do autor. Parece que ele tem que colocar para fora um monte de feras para que elas não o corrompam em definitivo.

Assisti "Kingdon Hospital", "A Tempestade do Século" (Storm of the Century) e "Nightmares and Dreamscapes", séries do autor, sem contar um monte de filmes baseados em suas obras.

Creio que tenho mais de 30 livros de King. Os últimos foram da série "Torre Negra", sete volumes no total. Ainda não li "Celular". "Love", este último que li, trata da própria morte de um autor de grande sucesso (os livros de King sempre têm forte apelo autobiográfico) e o processo de absorção da perda pela sua viúva, com todos os elementos de terror (e, por que não, de comédia?) presentes nas obras do autor, em geral. Sou suspeito quando se trata de King. Eu gostei. Gostei também de uma frase: "Te gritarei para casa", um chamado, um apelo. King é sempre estranho e há uma legião de seguidores no mundo todo (alguns, meio loucos, inclusive).


Para se somar a King, ontem comprei um outro livro sombrio, "Quase Noite", de Alice Sebold (editora Agir, 291 páginas). A autora é a mesma do livro "Uma Vida Interrompida", que eu ainda não li, e que vendeu milhões de exemplares.

Em "Quase Noite", a autora que, assim como King, tem uma forte base autobiográfica, discute a tensa relação entre mãe e filha. Para choque do leitor, no segundo capítulo a filha mata friamente a mãe senil. Ao longo do livro, será desvendado o motivo desse assassinato.

Estou ou não sombrio, com tanto terror e horror na literatura? Claro que não pretendo matar ninguém nos próximos dias (e tampouco a minha mãe). Pelo menos por enquanto, não. A morte virtual, aquela na qual você mata alguém dentro de você, faz mais o meu gênero do que a morte física. Enquanto não mato ninguém, nem mesmo virtualmente, quando for lá no final da tarde, retomarei a leitura de "Quase Noite".

sábado, 6 de junho de 2009

Debúki íson detãilbol (the book is on the table)

- "Ki C axa.... divedadi o dibinkedu?"

- "Tah venu aki... eh uma kabeça, oliaorelia, ieças linhas devi se... Selah... kustura o kualkeh koizassim... pohdicê."
- "Dibikendu, certeza."
"Deslizapau iisfregabunda, xamegunatank lambuzada. Sal Brudi, C vai imprenah logulogu pertudum dakeles vélius dabliucês nogentus."
- "C vai amah kuandu tiveh alidentru... C sab, C sab, içu, sab ki vai."
- "Caul! Caul! mugiu o moto, Caul, xafudakueu, xafudakueu!"
- "Numpoçu, Boysi, tenu kincontrak u Runti, eh a veiz deli, ugrandidia."
- "Uabatch, uabatch! xofeh vinu, xofeh vinu!"
- "Keh keu vah pegah u Ruti ku você?"
- "Nah, nah, içeh kumigu i kuele i ku Deive. C iuzotrus, eh melioh decê nuxafurderu i juntah uzotrus praforadalih. Runti eh meu véliu. 6 ahi, jah disseru tchau pu Runti?"


A época é 523 AD (After Dave, depois de Dave) e indica um tempo futuro, de milhares de anos após os dias de hoje. A língua é mokni (em oposição a cockney, que marca uma espécie de linguagem particular dos nascidos no East End de Londres), um dialeto de Ing (Inglaterra) em contraponto à lingua erudita bibici (de BBC), que é usada pela corte e pelas pessoas cultas de Novalondris.

Nesse novo mundo, que começa após o momento na história chamado MadeinChina, motos são criatura derivadas de porcos cuja inteligência equivale a uma criança de dois anos. Os homens também involuíram e o Deus é Dave, um motorista de táxi que, no ano 2000, gravou um livro em metal sobre o que podia e o que não podia num imaginário novo mundo para regulamentar as relações entre os homens e as mulheres.

O taxista Dave escreveu e enterrou o livro que será encontrado milhares de anos depois e servirá de guia espiritual para os novos homens da Idade MadeinChina. Dave é divindade para esses homens. O livro foi encontrado em Ham (Hammersmith atual, localizada no oeste de Londres) que, em 523 AD, é apenas uma ilha. De Novalondris emana o poder para o resto da Ing. Assim como Ham, outras regiões da Londres atuais foram convertidas em ilhas e Notting Hill agora é Nott e Bloomsbury é apenas Brum.

A partir dos surtos do motorista Dave, nos anos 2000, os habitantes de Ing, nos longínquos 523 AD se guiarão por preceitos de um taxista vulgar e infeliz. No pós-MadeinChina, os dias são divididos em tarifas (primeira tarifa, das 6 da manhã às 14 horas; segunda tarifa, das 14 horas às 22 horas; e terceira tarifa, das 22 horas às 6 da manhã), chico (ou xicu) é semana e unidades são minutos, assim como as marcações de um taxímetro atual.

As mulheres são desprezadas em Ham. São opares (do francês au pair, babás), mamães (em idade madura) e mocreias (velhas). Os homens são pai ou papais. Vestem-se, homens e mulheres, de troçopanos (xale tartan para áreas afastadas e burca em regiões urbanas) e bubbery (trocadilho com a grife Burberry, que significam, em Ham, quaisquer peças de tweed ou de lã rústica). Fonics são os novos fonemas e a letric substituiu a eletricidade e agora as lâmpadas são a óleo. Nesse sombrio mundo novo, há os que discordam da teoria davina ou da davinidade. Esses são condenados em Novalondris a sessões de tortura na roda (atual London Eyes's).

Essa magnífica obra literária é "O Livro de Dave" - Will Self - editora Alfaguara - 451 páginas. É um dos livros sobre os quais eu afirmo, sem a menor dúvida, que eu gostaria de tê-lo escrito. A forma como o autor coloca o mundo, tanto o atual, do taxista, quanto o futuro, dos habitantes de Ing, é espetacular. Self transparece cada segundo de descrédito pela humanidade, atual ou futura. Nos mundos de Self - Londres e Novalondris - não há redenção. Os homens de hoje e os de amanhã são os mesmos, com crenças anacrônicas. Se o mundo católico ocidental crê na Bíblia, o mundo de Ing crê no livro de Dave.

Certamente, foi um dos melhores livros que li até hoje. É uma história totalmente original que satiriza a vida nas grandes cidades contemporâneas como Londres e vai a fundo na investigação dos pilares das religiões. Para um leitor como eu, Self, o autor, consegue deixar claro que tudo o que regula o espírito humano em termos do divino vem de uma base frágil, de um quase nada, apenas um amontoado de escritos que procuram estabelecer as conexões entre os homens e o divino. Por fim, dá cabo dessa crença ao enterrar um livro de um motorista de táxi totalmente alucinado que servirá de guia espiritual e de conduta de uma nova humanidade parida a partir do MadeinChina

Aliás, MadeinChina designa, muito apropriadamente, a era pela qual o mundo como o concebemos atualmente acaba e restam apenas fragmentos - os deviuorks -, que são restos dos mais diversos tipos de peças de plástico e são tidos pelos habitantes de Ing como amuletos e talismãs. Assim, é comum um habitante de Ing encontrar um deviuork com a inscrição "Mc" que nada mais é do que um copo de plástico do McDonald's e tratar esse fragmento como algo sagrado.

Esse mundo de Dave futuro é regulamentado pela poderosa PCO (pesseoh) que, atualmente, como Public Carriage Office (PCO - London), administra os táxis da Londres de hoje. Eu recomendo muito a leitura desse livro. Para mim, é ficção do tipo que traduz efetivamente a nossa era, cheia de dúvidas e incertezas. Nota dez para essa obra altamente imaginativa e, ao mesmo tempo, bastante realista.

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