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domingo, 21 de março de 2010

Meu rugido dominical



Durante a semana que passou, em algum momento, inadvertidamente, joguei fora o meu diploma de jornalista. Tenho o costume de guardar papéis que não devem amassar, anotações, trechos de alguma crítica e até mesmo gravuras dentro daqueles livros imensos que nunca são abertos, a não ser para acolher em seu seio documentos dessa espécie.


O diploma há muito perdeu o lastro. Lembra quando as pessoas emolduravam o papel e o colocavam em destaque na parede? Isso nunca me passou pela cabeça. Mas eu costumava guardar aquele pedaço de papel porque simbolizava, de fato, o início, meio e fim de um período da minha vida que foi sonhado e concretizado.


Recentemente, jornalistas brasileiros perdemos ainda mais: para exercer a profissão de jornalistas, não é mais necessário ter um diploma e muito menos o antes almejado MT (sigla para Ministério do Trabalho, que nada mais é do que um número atribuído ao até então diplomado jornalista). Agora, qualquer pessoa pode ser jornalista. Basta querer.


Bem, não sei explicar os motivos mas sei que o livro, como uma outra grande quantidade de papel, foi ao lixo. Em tempo de mudança, a melhor mudança, de fato, é aquela que fazemos dos nossos interiores, sejam eles domésticos ou d'alma. E eu me desfiz de um monte de coisas. E ainda estou nesse processo, com a paciente precaução (agora que Inês é morta) de olhar papel por papel antes de condená-lo à rota do lixo.


Sei que não fiz isso com o tal do livro e, ao necessitar justamente do diploma, na semana passada, dei falta. E, de escaninho em escaninho (na minha mente, claro), constatei o óbvio: havia jogado o diploma fora. Engraçado que basta nos desfazermos de algo para logo em seguida, feito um castigo, termos extrema necessidade daquilo que ficou anos intocado.


Depois de constatar que, definitivamente, o diploma havia virado pastiche no caminhão dos lixeiros, me dei por vencido e fui à faculdade solicitar um certificado de conclusão. Resolvida essa questão, ficou outra, menos óbvia: joguei fora por desacreditar a profissão, ainda que inconscientemente ou por que diplomas, realmente, conforme já ouvi muito, não valem mais nada?


A resposta veio de forma assustadora e tão rápida que mal deu tempo de tomar um fôlego: uma amiga, em conversa com o mestre de obras de um canteiro de construção de um edifício me disse que o homem reclamou com ela que não há mão de obra suficiente para construir prédios em São Paulo. Veja bem: é uma fonte direta. Segundo o mestre de obras, há, naquele canteiro, 60 homens entre pedreiros e serventes de pedreiros ao passo que deveria haver 120 homens. Mas há escassez de mão de obra de pedreiros. E o mestre do canteiro ainda se riu da situação: disse que no último mês, havia faturado R$ 6 mil para que a obra não fosse abandonada, caso algum concorrente quisesse lhe tirar do atual emprego.


Em outra frente, com a minha própria mudança, fui obrigado a fazer contato com a classe operária em várias instâncias: pedreiro, pintor, encanador, eletricista, chaveiro, técnico de telefonia, de gás e até de refrigeração. Em todos os casos, medido grosseiramente o tempo, as horas trabalhadas não chegaram a 2. Mas o pagamento nunca foi abaixo dos R$ 50. Paguei R$ 50 para um, R$ 70 para outro, R$ 80, R$ 120 e até R$ 150. Motivo: ou contratava aquele que estava à mão ou não haveria outro profissional (!!!) disponível. Eu confirmei isso ao buscar mais de um eletricista, mais de um encanador, mais de um chaveiro!


O problema é que esses (glup!) profissionais não têm um item muito importante: qualidade. Exceto por um ou dois que demonstraram alguma correção, os demais fizeram mal e porcamente serviços que, por conta das minhas limitações em relação a eletricidade, encanamentos e, por que não dizer, total falta de jeito com algumas ferramentas e com leis da física, eu mesmo não pude concluir.


Assim, ao comparar o meu finado diploma e, consequentemente, minha profissão com esse outro universo, em que as mãos são mais importantes do que cérebros, concluí, rapidamente, duas coisas:


- Esses 'profissionais' não formados e, portanto, sem diploma, ganham mais do que eu.


- Trabalham (pedreiros de grandes construtoras) das 9 às 17 horas, tomam banho e saem, felizes, sob a luz do sol (eu constato isso diariamente em frente à minha janela porque há um imenso prédio em construção). Os demais 'profissionais', autônomos, trabalham quando querem (os houve, aqui em casa, os que marcaram e não apareceram ou apareceram dia ou dias depois, sem remarcar hora).


Portanto, o fato do meu diploma ter ido ao lixo não é nada. Concluo que devo eu mesmo ir ao lixo. Não, não para me jogar. Mas talvez para ir buscar lá minha dignidade que essa, tenho convicção, foi ao lixo muito antes do pedaço de papel que me consagrou jornalista seguir caminho semelhante.

4 Comentários:

andarilha disse...

o que não faz uma mudança de casa, heim, Red?
Jornalista em crise é moda, não sabia?
quanto à mão de obr aque pega no pesado, é preciso lembrar que a construção civil está super, super aquecida com todos as obras dos diversos governos, do mercado imobiliário em alta etc. É por isso que falta mão de obra agora, neste momento.

esse povo - e você já viveu situações assim - são frilas permamentes. Quando aparece trabalho, vem tudo ao mesmo tempo e depois vem aquela fase de ficar a ver navios e as contas chegando.

É isso aí. eles tem que aproveitar essa maré boa.

bjs.

pinguim disse...

Aqui chamamos o diploma de formatura, o "canudo", e sinceramente não serve de nada; mas psicologicamente é-nos muito útil, pois significa para nós, anos de estudo e luta...
Para efeitos legais e burocráticos, facilmente se obtém uma certidão comprovativa e como dizes tudo fica resolvido.
Já o outro assunto, há muito pensei nele:cada vez é mais proveitoso um qualquer curso especializado que não requer grandes investimentos e estudos, mas que é francamente recompensador em termos profissionais e remuneratórios; se estivesse em idade de optar, penso que tirava um curso de canalizador (e estou a falar a sério...)

Redneck disse...

Andarilha, se é moda a crise de jornalistas, não sei. Sei que, no meu caso, não é passageira como a moda porque a arrasto comigo já há uns três ou quatro anos. Também não sei se concordo com você sobre a mão de obra de prestadores de serviços: em todas as ocasiões, com crise ou sem crise, em que deles precisei, nunca os encontrei disponíveis. E eles aproveitam sim a maré boa. E como! Inclusive cobram três vezes mais conforme a região da cidade. Beijo!

Redneck disse...

Jonao, também aqui é a formatura, a colação de grau. O canudo, como aqui também o chamamos, efetivamente, para nada serve, a não ser, como você o disse, para simbolizar os anos de bancos de faculdade. Eu mesmo acabo de obter a certidão a que você se refere. Quanto à profissão, eu, que vim do meio rural e era, praticamente, um lavrador, me pego a avaliar qual é a validade dessas mais de duas décadas que passei nos bancos escolares para, a chegar aqui, e ter o mesmo valor de um trabalhador braçal. Vou voltar a plantar arroz, milho e feijão e parar de me preocupar com outros "detalhes". Abraço!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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