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sábado, 29 de janeiro de 2011

The book is on the table

Nos 15 dias que estive de férias entre o final do ano passado e o início deste, aproveitei, como sempre o faço no meu tempo livre, para dar cabo de alguns livros que ficaram relegados à poeira.


Antes que eu desse cabo de todos, alguns deram cabo de mim pela força. Mas, eu não me canso. Insisto em navegar nas linhas, na literatura que tenta explicar tantos porquês, tantos hiatos, dúvidas, traições, comportamentos.


Dos cinco livro que li, três foram suficientes para me causar inquietação, que é o que busco nos livros. Que me façam pensar e, se possível, ir além, cada vez mais além da mediocridade. É nos livros, sempre, que encontro um sossego ante o desassossego da vida cotidiana. Embora pareça uma contradição, ainda que o livre gere novas e desavisadas reflexões, é no terreno da literatura que melhor me encontro. Aos livros.



 - 2666 (Roberto Bolaño - editora Companhia das Letras - 852 páginas): esse catatau de páginas, na verdade, não é apenas um, e sim cinco livros. Embora inacabado, é considerado a obra-prima do escritor chileno, morto precocemente aos 49 anos. Originalmente, foi concebido para ser cinco livros diferentes. Com a saída de Bolaño de campo, talvez os editores acharam melhor concentrar tudo num só lugar. Inacabado ou não, um ou cinco livros, é, realmente, um livro de fôlego, o qual se lê sem fôlego horas a fio. Nem vou dizer que se lê esse livro sem parar porque não é verdade. Comecei lá atrás, em meados de 2010, e somente o concluí ao raiar deste ano. O nome do livro, 2666, é um mistério. Não houve tempo hábil para que o escritor o explicasse e pipocam hipóteses. Mas, o que importa mesmo é que o livro é, sim, muito bom. Começa com a investigação de um escritor recluso, passa por uma série de assassinatos no México e termina com a história do misterioso escritor. Muito bom. Leia.




- Lugar (Reni Adriano - editora Tinta Negra - 111 páginas): tamanho, efetivamente, não é documento. Com 1/8 de páginas em relação ao 2666, Lugar é uma pequena obra-prima do escritor brasileiro que foi revelação em Minas Gerais em 2009. É um livro mítico, de mitos fundadores, da violência com que se engendram os mitos. É reinvenção da roda, da língua portuguesa, da literatura brasileira. Novidade sim. Novo. Desde já, clássico. Recomendo muitíssimo. As palavras não são emitidas. São escandidas. Feito barba cerrada. "Cale-se! Afasta de mim esse pai". A ressonância com Chico Buarque, o diálogo que se empreende em níveis duros, profundos. O livro, parece, foi forjado em ferro. Manualmente.




- A Guimba (Will Self - editora Alfaguara - 331 páginas): depois do maravilhoso 'O Livro de Dave', Self volta com este romance irônico sobre o mundo do politicamente correto em que somos despidos nos aeroportos para ir e vir e, sem o direito de ir e vir livremente (estamos presos à liberação ou não de vistos), faz uma metáfora angustiante dessa nova realidade mundial. Não é uma nova ordem mundial. Antes, é uma desordem mundial, que pode ser iniciada com a ponta de um cigarro, a guimba. Self, uma vez mais, é brilhante ao descrever um mundo que, se ainda não é assim, não tarda em sê-lo. A continuar nesta saga, com um olhar avassalador sobre a in/evolução da humanidade, por certo estaremos condenados a nos fecharmos cada qual em claudicantes celas. Preocupante. Livro necessário para entender as dimensões que o 11 de Setembro deu ao mundo.




- Pegando Fogo - Por que cozinhar nos tornou humanos (Richard Wrangham - editora Zahar - 22 páginas): considerado um dos 100 melhores livros de 2009 pelo The New York Times, o livro investiga o que seria da evolução humana sem o fogo para cozinhar a nossa comida. É, antes de tudo, um trabalho científico, de investigação antropológica e sociológica, e avança ao complementar teses de Charles Darwin e de outros cientistas. Wrangham defende a tese de que começamos a cozinhar antes de nos tornarmos homens e que nos tornamos homens justamente porque passamos a cozinhar. O domínio do fogo há um 1,8 milhão de anos, mostra o livro, mudou completamente a história da humanidade e de nós mesmos, humanos atuais. Que somente o somos porque aprendemos (com nossos antepassados, que ainda não eram homens) a cozinhar. Interessante.




- A Cozinha a Nu (Santi Santamaria - editora Senac - 277 páginas): Sanatamaria é um chef espanhol, defensor aguerrido da comida e dos ingredientes naturais. Refuta modernismos, entre os quais a cozinha molecular de Ferran Adrià (que, por ora, fechou o festejado El Bulli, por prazo indeterminado, e também perdeu, no mesmo El Bulli, a companhia do irmão, que prefere a cozinha tradicional). O chef defende a volta ao campo, aos ingredientes de autênticos terroir e desbanca a indústria alimentícia multinacional - Kraft Foods, Nestlé, Unilever e outros conglomerados que produzem enlatados, conservantes, acidulantes e outros artifícios para vender comida cada vez mais anti-natural. É um verdadeiro manifesto contra uma comida falsa que tem um único mérito: criar pessoas obesas ao redor do mundo numa alimentação que padroniza e iguala a comida do Brasil à China. Excelente.

sábado, 24 de abril de 2010

The book is on the table

Meu último post nesta seção foi no dia 12 de dezembro do ano passado. Lá se foram quase cinco meses e a impressão que dá é que não li nesses meses. Ledo engano. Pode faltar tudo na vida. Arroz, feijão e pão. Só não quero que me falte a danada da cachaça literária. Isso nunca.


Apenas para registrar, quando viajei no final do ano, levei comigo seis novos livros e os devorei em pouco menos de 15 dias. Depois, de janeiro para cá, devo ter comprado, por cima, uns 25 novos livros. Eu havia reservado esses livros novos, já lidos, para resenhá-los na seção.


Mas, na mudança de apartamento, misturei novos recém-lidos com outros, novos e velhos, mais remotamente lidos. E fiquei sem referência porque, confesso, me deu preguiça procurar livro por livro em ordem cronológica (tenho o estranho costume de colocar a data de aquisição na primeira página e fazer comentários codificados aos quais somente eu tenho acesso).


Mas não posso deixar de registrar ao menos dois dessas quase três dezenas de livros. Um era um clássico e eu nem sabia. E adoro o prazer que a literatura me dá de me introduzir o novo, sendo o novo um clássico que eu desconhecia. E adoro também o novo, que, por forte teor literário, nasce clássico, numa heterodoxia que apenas a literatura, no meu entendimento, consegue operar.


O clássico ao qual me refiro são os "Contos Completos" - Flannery O'Connor - editora CosacNaify - 715 páginas. Veja a data da aquisição: dia 6 de fevereiro deste ano, dia em que eu estava simultaneamente desalentado e animado. Desalento por decursos da vida que, de vez em quando, nos atira ao relento e lá nos deixa, a sofrer as intempéries de céus e infernos. Animado porque, como se eu fosse um peixe, fui içado daquele pontual poço e trazido à superfície para me equilibrar novamente. Um mês depois, eu mudaria de apartamento. E, dois meses depois, eu mudaria do trabalho em casa, na versão freelancer, para o trabalho da redação, de volta ao convívio dos demais mortais. Céus e terras mudaram, portanto.




Volto ao livro porque, por não escrever com tanta frequência por aqui ultimamente, tendo levemente às divagações. Flannery O'Connor nasceu em 1925 e morreu em 1964. Menos de 40 anos e uma bela obra que os EUA legaram à literatura. Para mim, ler cada um dos contos foi como ouvir o lamentoso jazz, o soul, e algumas influências do folk do sul dos EUA - o "cinturão bíblico".


Os contos de O'Connor, ela mesma uma católica praticante, são estranhos. São permeados pela sombra que ainda pairava no país pós-abolicionista (a escravidão, nos EUA, acabou oficialmente em 1865). Mas os negros continuam escravos dos brancos e assim são vistos. Em alguns contos, trata-se de substituir a mão de obra escrava pelo estrangeiro com prejuízo para o europeu que é visto com desconfiança.


Ao lado do escravismo que se sente em cada conto (e a autora não toma partido, em absoluto, de qualquer lado que seja), há também um fundamentalismo religioso em que todas as ações são relacionadas ao Deus todo-poderoso que há de fazer a convergência de todas as almas, negras e brancas.


Os contos são violentos e crus. Ao contrário do que esperaria de uma autora conservadora e rigidamente católica, o que me passou é que não remissão. Não há perdão para a humanidade. Há, sim, crime e castigo. E sobre o jazz e o soul a que me referi é porque, a determinada altura, tudo parece se transformar num lamento. O lamento que se faz sobre a obra imperfeita que é a humanidade. O lamento de saber que não há como mudar isso. O lamento de chorar sobre isso e sobre si mesmo, dado que a nós nos é dada essa autoconsciência impiedosa. O'Connor é muita coisa mas não é piedosa.


E a autora me chamou tanto com seus jazz e souls que esperei por dois meses, a navegar no Atlântico, a obra "Tudo o Que Sobe Deve Convergir", nome de um dos contos mais impiedosos da obra de O'Connor. Bem, admito que certamente a autora me enfeitiçou porque foi com desprazer que constatei que o livro vindo de Portugal apenas repete alguns dos contos presentes em "Contos Completos". Apenas alguns mudam de nome na transição linguística entre Portugal e Brasil. Para, finalmente, convergirem, ambos os livros, numa coisa só. Oras! Manterei os dois para me lembrar da minha ansiedade quando se trata de livros. Mas, sobretudo, leia O'Connor, não importa se na edição brasileira, portuguesa, norte-americana ou russa!


E os russos, ainda que gélidos e chegados à vodca, sempre estarão no meu coração literário. Antes, no dia 30 de janeiro deste ano, encontramo-nos, o russo e eu, numa prateleira da Fnac. A capa mais pareceria, à primeira vista, uma história boba, quase que primária: um humano com face daquele gato, aquele cujo sorriso se desfaz no ar em "Alice no País das Maravilhas". Mas talvez por conta do sorriso do gato de Alice, fui devidamente convidado a abrir a portinha (em livro, se diz que são orelhas) e ler os indícios daquele estranho mundo gatil. E não emiti nenhum miado de insatisfação. Ao contrário, ronronei ao encontrar excelente literatura. Sim, os gelados e vodqueiros russos nunca me entediam.


O livro é "O Mestre e Margarida" - Mikhail Bulgákov - editora Alfaguara - 453 páginas. O argumento do livro parte do dia em que Satanás e seu séquito chegam a Moscou. É uma alegoria ao regime stalinista, à União Soviética. Pode parecer um realismo fantástico e até parece. Mas o livro consegue se sobrepor a essa definição e devassa um país devastado por um regime linha-dura.




O autor demorou dez anos para concluir o livro, que é a sua obra-prima. Ainda em 1920, teve problemas sérios com a censura soviética e, portanto, escreveu este livro escondido. Doente (morreu aos 59 anos), ditou as últimas revisões à esposa em 1940, poucas semanas antes de falecer. E, 20 anos depois, o livro tornou-se um sucesso na União Soviética e no mundo. Um dos personagens de "O Mestre e Margarida" diz, em algum momento: "Manuscritos não ardem". Pois os manuscritos de Bulgákov não arderam nas fogueiras das inquisições stalinistas mas ardem em chamas no coração ao serem lidos. Excelente!

sábado, 12 de dezembro de 2009

The book is on the table

Triste como a vida. Assim avalio este maravilhoso livro. "A Solidão dos Números Primos" - Paolo Giordano - editora Rocco - 284 páginas. Li em dois dias. E é a segunda vez que me surpreendo com um escritor italiano da nova geração. A primeira foi com "Caos Calmo", de Sandro Veronesi.





Mattia, um dos protagonistas, é um gênio da matemática. É irmão gêmeo de Michela que, na mesma proporção do irmão, é opostamente deficiente mental. A outra protagonista é Alice, cujo pai quer torná-la campeã de esqui. Ao sofrer um acidente, Alice fica impossibilitada de realizar o sonho do pai.


Mattia e Alice se encontrarão. Um, o primeiro, desenvolve um estranho andar para se fazer notar cada vez menos pelas outras pessoas: caminha com as laterais dos pés e evita todo e qualquer ruído que o seu caminhar possa causar. A outra, vitimada pelo acidente, tem uma perna mais curta e, por isso, caminha de forma manca. Um e outro se completarão em ambos os andares de forma simétrica. Um e outro ocupam o espaço reservado que fica vago a cada passo de ambos.


"Mattia tinha estudado que entre os números primos existem alguns ainda mais especiais. Os matemáticos os chamam de primos gêmeos: são casais de números primos que estão lado a lado, ou melhor, quase vizinhos, porque entre eles sempre há um número par, que os impede de tocar-se verdadeiramente. números como o 11 e o 13, como o 17 e 19, o 41 e o 43. Com paciência para continuar contando, descobre-se que esses casais logo rareiam. Encontram-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado, feito apenas de cifras, e se tem o pressentimento angustiante de que os casais encontrados até ali sejam um fato acidental, que o verdadeiro destino seja mesmo permanecer sozinhos. Então, justamente quando se está prestes a desistir, quando já não se tem vontade de contar, eis que se esbarra em outros gêmeos, agarrados um ao outro. É convicção comum entre os matemáticos que, até onde se possa avançar, sempre haverá outros dois, mesmo que ninguém seja capaz de dizer onde, até que sejam descobertos. Mattia achava que ele e Alice eram assim, dois primos gêmeos sós e perdidos, próximos, mas não o bastante para se tocar de verdade."


Na minha fase atual, sinto que sou como esses números primos gêmeos: sei que existe alguém, em alguma parte do mundo, mas, por um lapso - seja de tempo ou do acaso - jamais encontrarei o primo gêmeo. E, se o encontrar, sempre haverá um outro número par (quer dizer, uma outra pessoa) a me impedir de, finalmente, tocar essa outra pessoa. Portanto, isso é triste. E, portanto, o livro é triste. Como a vida.

sábado, 21 de novembro de 2009

The book is on the table

Tudo são números grandiosos neste livro: 759 páginas, 4 bilhões de anos retroagidos do presente até o início do que definimos como a origem da vida - que o autor atribui às bactérias de dois tipos: eubactérias e arqueias - e 39 encontros com os denominados 'concestrais', grupos de vida animal e vegetal que, de retrocesso em retrocesso, desde nós, atuais humanos, explicarão (ou tentarão) como nos tornamos o que somos, tanto a vida animal, humanos inclusos, quanto a vida vegetal que viceja no ar, na crosta terrestre e no fundo do mar.


Levei quase cinco meses para ler tudo: comprei o livro no dia 04 de julho e o terminei esta semana. Foi um processo de absorção de informação científica, de dados biológicos, de cálculos e inferências que, leitor, devo deglutir e entender sob o risco de me perder em tantas idas e vindas.


Ao final, fica a sensação de que somos apenas mais um dos grupos referidos pelo autor nesses 4 bilhões de anos - entre as primeiras bactérias e nós e os bichos e plantas que habitam a Terra, milhões de outros animais, plantas e hominídeos feneceram. A seguir tal precisão evolutiva, vamos nós também atuais dominantes do planeta, rumar inexoráveis em direção ao fim e sermos substituídos por outras espécies melhor adaptadas às futuras condições ambientais desse planeta que, ao menos até agora, é o único que viabiliza a vida humana.





O livro é "A Grande História da Evolução - Na Trilha dos Nossos Ancestrais" - Richard Dawkins - editora Companhia das Letras - 759 páginas. Dawkins é um darwinista ferrenho e, no oposto, ateísta e totalmente contra a teoria dos criacionistas - aqueles que creem na teoria da criação, pela qual uma ou mais entidades inteligentes estão por detrás do surgimento do universo. O criacionismo - e por isso o constante ataque de Dawkins ao conceito - se caracteriza pela oposição às teorias científicas que pretendem explicar a origem da vida e da evolução de todos os seres vivos.


"A Grande História da Evolução" não é um livro fácil. A despeito do autor ter feito uma associação com o clássico livro "Os Contos de Cantuária", de Geoffrey Chaucer, essa ligação não favorece o livro de Dawkins. Nos "Contos de Cantuária", Chaucer relata a peregrinação de homens e mulheres da Idade Média à Cantuária e cola as narrativas de cada personagem umas às outras. No livro de Chaucer, que adquiri justamente a partir da leitura de Dawkins, isso funciona. Mas para os peregrinos de Dawkins, cujos 'contos' pretendem fazer amarração semelhante, nem tanto. O artifício de Chaucer é maravilhosamente literário e o de Dawkins, bem, é apenas uma tentativa de dar efeito literário a uma obra que é científica.


Mas engana-se quem pensa que a história da biologia, da evolução e de milhões de seres encadeados em grupos que formam os peregrinos nos 4 bilhões de anos, é chata. Na verdade, há muitas e bastante agradáveis 'viagens' ao lado desses peregrinos relatados por Dawkins.


Autor de outros livros bastante polêmicos como "O Gene Egoísta", "O Fenótipo Estendido" e "Deus, Um Delírio", Dawkins acaba de lançar um novo livro - "O Maior Espetáculo da Terra - As Evidências em Favor da Evolução" ("The Greatest Show on Earth - The Evidence for Evolution"). Esse livro se soma ao "The Ancestor's Tale - A Pilgrimage to the Dawn of Life", título original de "A Grande História...". 


Para mim, o livro torna-se um subsídio a mais no meu próprio repertório de crenças e descrenças. Assim como Dawkins, sou, por natureza, um evolucionista e compartilho da teoria de Charles Darwin que, este ano, completa 150 anos. Ante eventuais críticas e defesas ardentes sobre as teorias religiosas e criacionistas (ambas, embora tenham pontos de contato, não são a mesma coisa, não de todo), uso uma reprodução feita por Dawkins sobre um diálogo empreendido entre o evolucionista britânico J.B.S. Haldane e uma expectadora criacionista de uma de suas palestras: a mulher diz a Haldane que simplesmente não podia acreditar que, mesmo em bilhões de anos, se pudesse "ir de uma célula única a um complicado corpo humano". Haldane retruca: "Mas, madame, a senhora mesma fez isso. E em apenas nove meses".


Portanto, a vida pode ser explicada por Darwin, pela fé religiosa, por criacionistas ou, simplesmente, ser deixada à deriva, sem que importe de onde viemos e como chegamos a nos constituir no que somos atualmente. O que interessa, a meu ver, é que a vida é infinita e que o mais brilhante de tudo isso é o fato de poder falar sobre isso e acreditar em matemática ou na astrologia. Não importa. O que importa é a certeza maravilhosa de que chegamos aqui e, pelo menos por ora, somos o que somos, independentemente de termos atrás de nós 4 bilhões de anos. Somos apenas poeira dos tempos, como gosto de falar. Com a diferença que somos poeira falante, inteligente e gostamos de nos unir entre nós. Vai ver a história de que somos feitos do barro tenha a ver com essa poeira cósmica a que eu tanto me refiro. Sei lá!



quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O Original de Laura

Mais do mesmo: um neurologista brilhante, mas fisicamente pouco atraente, deprimido pela infidelidade da esposa mais jovem, pensa em cometer suicídio. Abordei essa palavra aí atrás ontem, ainda. Mas aqui é ficção: acontece agora, no dia 17 de novembro, o lançamento de um livro inédito de Vladimir Nabokov, 32 anos após a sua morte. O livro sai nos EUA (pela Knopf/Random House) e na Grã-Bretanha (Penguin), depois de 30 anos de hesitação do filho do escritor, Dmitri, que detém os direitos sobre a obra.





Nabokov, conhecido mundialmente por ser autor de "Lolita", havia dado instruções para que os originais fossem queimados após a sua morte, o que nunca foi feito. Acho engraçado isso de as pessoas deixarem instruções para destruir documentos, papéis, cartas e manuscritos. Se a pessoa quer que sejam destruídos, e não 'vazem' para a posteridade, basta ter em mãos um palito de fósforo e algo próximo de uma pira e proceder ao pequeno incêndio de sua obra. Mas, quando se trata de escritores, tenho por mim que a vaidade fala mais alto e o próprio criador é incapaz de dar fim àquilo que criou.





Assim como acontece com "O Original de Laura" ("The Original of Laura"), Nabokov também quis queimar os originais de "Lolita" e foi impedido pela esposa. Em 1955, "Lolita" daria ao autor fama universal e ao mundo um novo significado da palavra 'ninfeta'. Os manuscritos de "O Original de Laura" foram trancados no cofre-forte de um banco na Suíça em 1977, quando o autor faleceu. São 138 cartões (em papel cartolina) definidos pelo próprio escritor como incompletos. Nabokov disse que depois preencheria os vazios. Obviamente, ou não deu tempo ou o escritor preferiu relegar o livro aos arquivos.


A Penguin Classics deve reproduzir os 138 cartões e transcrevê-los numa espécie de edição manual-industrial. Um dos editores da Penguin disse que o livro é engraçado e sombrio e que explora o "ódio a si mesmo e a vontade de desaparecer". Fúnebre, não?


Como o livro não sai agora no Brasil (espero que saia em breve), fiz o post fora da rubrica "The Book Is On The Table", que costuma assinalar apenas os livros que li, e não as postagens sobre livros os quais desconheço. Porque estar sobre a mesa significa, literalmente, estar sobre a minha própria mesa.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

The book is on the table

Embora eu não tenha atualizado com frequência esta seção, continuo a ler sofregamente porque, não canso de me repetir, a literatura, raramente, me aborrece. E, fora do universo literário, são cada vez mais raras as coisas que não me aborrecem.

Corro o risco, com isso, de me quedar para o lado de lá, o dos livros, e deixar o lado de cá, o do mundo real, e ficar eu mesmo aborrecido e aborrecedor. Mas, não sei se é um cansaço com o mundo real e com as pessoas, falto de vontades, me atiro aos livros, um a um, como se estivéssemos, eu e os livros, em extinção.

O que não é de todo inverdade. Porque, vivemos para morrer, em paráfrase a Jorge Luis Borges. De tal forma, repito, ainda que não tenha comentado os livros, os consumo com a mesma voracidade de sempre, em visitas semanais e não de todo vazias às livrarias. Volto, sim, mais vazio de carteira. Mas isso é uma questão para a vida real, e não para os livros.

Começo com um livro que foi um tiro, uma bala rápida, um ataque. Eu o li como o publicaram: em choque, rápido para não perder tempo em pretextos - como, por quê, que mundo é esse e outras questões que, realmente, não pautam esse livro. Falo de "A Besta" - de Roslund e Hellström - editora Planeta - 332 páginas.


É sobre um psicopata, assassino confesso de crianças, que escapa da prisão e prepara-se para praticar mais violência. E violência é o que não falta no livro. De ponta a ponta, sem perdão, sem tempo para respirar, sem que se explique muito. Uma morte se sobrepõe à outra sem dar tempo ao leitor de se recompor. Os autores, suecos, são Anders Roslund, conhecido jornalista da Suécia, e o ex-criminoso Börge Hellströn. Acesse aqui o site dos autores. Se o(a) leitor(a) assistiu o filme "Violência Gratuita" (Funny Games), terá a mesma sensação ao ler o livro: de impotência, dor e revolta.

"Nos Penhascos de Mármore" - Ernst Jünger - editora Cosac Naify (que faz parte da excelente coleção Prosa do Mundo) - 197 páginas, insere-se na categoria de romances sem categoria. Ou seja, não pertence a qualquer gênero literário especificamente, embora muitos tenham tentado classificar a obra como uma ode ao totalitarismo e ao nazismo, ao qual, nos primeiros tempos, o autor, Jünger, se alinhou.

Jünger sempre foi admirado por Adolph Hitler e, mesmo depois de começar a se voltar contra o nazismo e criticar abertamente o regime, pôde publicar livros na Alemanha nazista porque Hitler assim o determinou. Isso não arrefeceu alguns quadros nazistas e, por fim, Jünger nunca foi, efetivamente, molestado, nem mesmo no processo de desnazificação ao qual foi submetida a Alemanha pós-Hitler.


"Nos Penhascos" é a obra-prima de Jünger, que foi soldado alemão condecorado, e viajou, inclusive, ao Brasil. No livro, no cenário fictício que o autor desenha para simbolizar o totalitarismo, é possível constatar, segundo o prefácio de Antonio Cândido, alguns elementos tomados de empréstimos da Amazônia e do Pará, por exemplo, entre os quais as serpentes, entes centrais na trama da obra.

Até agora, depois de lido e absorvido o livro, não sei, efetivamente, se gostei ou não da obra. Trata-se de "Os 351 Livros de Irma Arcuri" - David Bajo - editora Nova Fronteira - 350 páginas. São dois personagens: uma, ausente, Irma, e o outro, presente o tempo todo, Philip, que 'brincam' num jogo de esconde-esconde pelo qual passam outros personagens, todos influenciados de alguma forma por Irma.

A protagonista é restauradora de livros e Philip é matemático, para quem a comunicação entre as pessoas somente é possível por meio de equações e gráficos. Nesse paradoxo entre literatura e matemática, Philip empreenderá uma busca por Irma por meio de pistas aleatórias deixadas nos 351 livros que Irma lhe deu como herança e, de forma simbólica, como pavimento a ser percorrido.


Eu afirmei que não sei avaliar se gosto ou não desse livro porque me pareceu que o autor emprega grande parte do tempo a colidir seus próprios conhecimentos literários com as equações matemáticas. E por um pontinho quase particular a me chicotear, de leve: Philip corre o tempo todo e eu sinto que perco o fôlego e, por vezes, deixei de ler o livro de tanto que alguns personagens correm, sem razão aparente a não ser o fato de se quedar exaustos. Ai que canseira! E a editora fez até um site para o livro!

Para concluir este post que a mim não me aborrece mas pode muito bem fazê-lo ao(à) leitor(a), termino com, na verdade, dois livros, contidos num só - "Contos Fatais" e "As Forças Estranhas" - Leopoldo Lugones - editora Globo - 305 páginas. São 13 contos em "As Forças Estranhas" (publicados em 1906) e mais 5 contos em "Contos Fatais" (de 1924).


São, todos os contos, puro realismo fantástico de um escritor argentino pleno de erudição. Esse sim, com o maior domínio do processo de escrever. Não sei se é por hábito da leitura, mas eu consigo mesmo saber quando o livro flui pela mão do autor e quando não flui. É o caso desses contos, e não é o caso do livro acima - "Os 351...", para exemplificar.

Lugones faz com que as modernas formas de conhecimento que começavam a vicejar (sim, feito moscas, porque nunca mais pararam de dar crias, essas formas de conhecimento) no início do século XX dialoguem com as antigas formas de magia, alquimia, do mito e do esoterismo e isso faz de ambas as narrações - "Forças" e "Contos" - verdadeiras histórias do realismo fantástico, plenas de ficção científica e, ao mesmo tempo, carregadas de sensações imemoriais de um medo primitivo. Prosa de um autêntico alquimista de palavras.

sábado, 6 de junho de 2009

Debúki íson detãilbol (the book is on the table)

- "Ki C axa.... divedadi o dibinkedu?"

- "Tah venu aki... eh uma kabeça, oliaorelia, ieças linhas devi se... Selah... kustura o kualkeh koizassim... pohdicê."
- "Dibikendu, certeza."
"Deslizapau iisfregabunda, xamegunatank lambuzada. Sal Brudi, C vai imprenah logulogu pertudum dakeles vélius dabliucês nogentus."
- "C vai amah kuandu tiveh alidentru... C sab, C sab, içu, sab ki vai."
- "Caul! Caul! mugiu o moto, Caul, xafudakueu, xafudakueu!"
- "Numpoçu, Boysi, tenu kincontrak u Runti, eh a veiz deli, ugrandidia."
- "Uabatch, uabatch! xofeh vinu, xofeh vinu!"
- "Keh keu vah pegah u Ruti ku você?"
- "Nah, nah, içeh kumigu i kuele i ku Deive. C iuzotrus, eh melioh decê nuxafurderu i juntah uzotrus praforadalih. Runti eh meu véliu. 6 ahi, jah disseru tchau pu Runti?"


A época é 523 AD (After Dave, depois de Dave) e indica um tempo futuro, de milhares de anos após os dias de hoje. A língua é mokni (em oposição a cockney, que marca uma espécie de linguagem particular dos nascidos no East End de Londres), um dialeto de Ing (Inglaterra) em contraponto à lingua erudita bibici (de BBC), que é usada pela corte e pelas pessoas cultas de Novalondris.

Nesse novo mundo, que começa após o momento na história chamado MadeinChina, motos são criatura derivadas de porcos cuja inteligência equivale a uma criança de dois anos. Os homens também involuíram e o Deus é Dave, um motorista de táxi que, no ano 2000, gravou um livro em metal sobre o que podia e o que não podia num imaginário novo mundo para regulamentar as relações entre os homens e as mulheres.

O taxista Dave escreveu e enterrou o livro que será encontrado milhares de anos depois e servirá de guia espiritual para os novos homens da Idade MadeinChina. Dave é divindade para esses homens. O livro foi encontrado em Ham (Hammersmith atual, localizada no oeste de Londres) que, em 523 AD, é apenas uma ilha. De Novalondris emana o poder para o resto da Ing. Assim como Ham, outras regiões da Londres atuais foram convertidas em ilhas e Notting Hill agora é Nott e Bloomsbury é apenas Brum.

A partir dos surtos do motorista Dave, nos anos 2000, os habitantes de Ing, nos longínquos 523 AD se guiarão por preceitos de um taxista vulgar e infeliz. No pós-MadeinChina, os dias são divididos em tarifas (primeira tarifa, das 6 da manhã às 14 horas; segunda tarifa, das 14 horas às 22 horas; e terceira tarifa, das 22 horas às 6 da manhã), chico (ou xicu) é semana e unidades são minutos, assim como as marcações de um taxímetro atual.

As mulheres são desprezadas em Ham. São opares (do francês au pair, babás), mamães (em idade madura) e mocreias (velhas). Os homens são pai ou papais. Vestem-se, homens e mulheres, de troçopanos (xale tartan para áreas afastadas e burca em regiões urbanas) e bubbery (trocadilho com a grife Burberry, que significam, em Ham, quaisquer peças de tweed ou de lã rústica). Fonics são os novos fonemas e a letric substituiu a eletricidade e agora as lâmpadas são a óleo. Nesse sombrio mundo novo, há os que discordam da teoria davina ou da davinidade. Esses são condenados em Novalondris a sessões de tortura na roda (atual London Eyes's).

Essa magnífica obra literária é "O Livro de Dave" - Will Self - editora Alfaguara - 451 páginas. É um dos livros sobre os quais eu afirmo, sem a menor dúvida, que eu gostaria de tê-lo escrito. A forma como o autor coloca o mundo, tanto o atual, do taxista, quanto o futuro, dos habitantes de Ing, é espetacular. Self transparece cada segundo de descrédito pela humanidade, atual ou futura. Nos mundos de Self - Londres e Novalondris - não há redenção. Os homens de hoje e os de amanhã são os mesmos, com crenças anacrônicas. Se o mundo católico ocidental crê na Bíblia, o mundo de Ing crê no livro de Dave.

Certamente, foi um dos melhores livros que li até hoje. É uma história totalmente original que satiriza a vida nas grandes cidades contemporâneas como Londres e vai a fundo na investigação dos pilares das religiões. Para um leitor como eu, Self, o autor, consegue deixar claro que tudo o que regula o espírito humano em termos do divino vem de uma base frágil, de um quase nada, apenas um amontoado de escritos que procuram estabelecer as conexões entre os homens e o divino. Por fim, dá cabo dessa crença ao enterrar um livro de um motorista de táxi totalmente alucinado que servirá de guia espiritual e de conduta de uma nova humanidade parida a partir do MadeinChina

Aliás, MadeinChina designa, muito apropriadamente, a era pela qual o mundo como o concebemos atualmente acaba e restam apenas fragmentos - os deviuorks -, que são restos dos mais diversos tipos de peças de plástico e são tidos pelos habitantes de Ing como amuletos e talismãs. Assim, é comum um habitante de Ing encontrar um deviuork com a inscrição "Mc" que nada mais é do que um copo de plástico do McDonald's e tratar esse fragmento como algo sagrado.

Esse mundo de Dave futuro é regulamentado pela poderosa PCO (pesseoh) que, atualmente, como Public Carriage Office (PCO - London), administra os táxis da Londres de hoje. Eu recomendo muito a leitura desse livro. Para mim, é ficção do tipo que traduz efetivamente a nossa era, cheia de dúvidas e incertezas. Nota dez para essa obra altamente imaginativa e, ao mesmo tempo, bastante realista.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

The book is on the table

Com fome de canibal privado de repasto gordo, devorei em menos de 36 horas, entre a compra e a leitura final, as 607 páginas do segundo volume da trilogia "Millenium 2 - A Menina que Brincava com Fogo" - Stieg Larsson - Companhia das Letras - 607 páginas. O primeiro volume - "Millenium 1 - Os Homens que Não Amavam as Mulheres" - era igualmente extenso - 522 páginas, o qual eu li em novembro do ano passado.



Antes de falar do conteúdo da obra, como expressão literária, quero falar da forma e de falhas técnicas que, por partir de uma editora como a Companhia das Letras, muito me surpreende. Eu não me recordo de ter notado essas falhas no primeiro volume.

O segundo volume deveria se chamar "Millenium 2 - Meneio" tal a profusão da palavra "meneio" no livro todo. A uma dada altura, cheguei a contar cinco vezes a palavra numa só página. Era tanto menear de cabeça que achei que os personagens ficariam, no mínimo, com torcicolo. Bastava um deles falar alguma coisa e o outro meneava a cabeça. Isso me incomodou tanto que passei a contar a palavra, num evidente exercício matemático, e não mais literário.

Meneavam, todos, obsessivamente suas cabeças que cheguei a acreditar que as constantes dificuldades de se elucidar os pontos obscuros deviam-se, sobretudo, ao balançar intenso dos cérebros. Como se os neurônios estivessem em sinapses bipolares, com cada um a tentar fazer conexão com o outro sem ter sucesso.

Eu sugiro que a editora conte, no arquivo digital, quantas vezes a palavra "meneou" aparece. Até pensei em fazer a conta. Mas meneei minha própria cabeça somente de pensar em quantas vezes teria que menear contra tanta repetição. Pelos meus cálculos, a palavra "meneou" deve surgir pelo menos umas 1,2 mil vezes (havia páginas com até cinco "meneou" e outras com um "meneou").

A tradução foi feita a partir da edição francesa, e não da edição original sueca. Creio que isso colaborou para uma série de balanços de cabeças. Não sei bem porque, mas acho que foi isso. Também não entendi porque não chamaram um tradutor de sueco. Eu, por exemplo, sou completamente versado em sueco e acho um desperdício não me aproveitarem. Um detalhe: o tradutor do primeiro volume é um e o do segundo, outra. Acho que isso conta.

Outro problema: "o gigante louro se afastou, desorientado .... Nisso, Mikael aproveitou ..." (não está ipsis literis, mas é isso mesmo). A qualquer ação, a reação vinha com "nisso, tal pessoa fez aquilo", "nisso, a garota ...". Horrível. Pobre. Bengala.

Para completar, descobri uma nova palavra: "tronar". Não imaginei que tronar fosse verbo. Mas é. "A cafeteira tronava sozinha ...". Oras, melhor seria se tivessem dito: "A cafeteira estava lá, majestosa ...". Tronar significa algo como apresentar-se majestosamente, do alto. Mas, ou muito me engano, ou cafeteiras não tronam, e sim pessoas.

Por fim, eu nunca reclamo da forma dos livros. Mas desta vez não passarás. O livro inteiro cheirava a madeira recém-cortada, daquela que você sente até o cerne. Dava para ler no papel o último gemido da árvore ante a corrente da serra elétrica. Sem brincadeira! Cheiro forte mesmo. Creio que o livro foi impresso na serraria. E, se uma lupa eu tivesse, acharia, por certo, minúsculas partículas de pó de serragem. Elementares, as partículas, de tão verdes que se conservavam nas folhas.

Bem, depois de tudo isso, não me sobra muita disposição para falar do conteúdo em si. O livro não é um primor na história da arte literária. Mas tem o dom, bem-vindo a todos os livros, de prender a atenção. Funciona como um thriller: a cada página, vencidos os chacoalhares de cabeça, aparecem novos suspenses. A história até que tem alguns elementos interessantes: uma hacker poderosa, um jornalista investigativo que gosta de investigar e os vilões, que sempre são atraentes sob o meu ponto de vista.

A trilogia vendeu mais de 10 milhões de exemplares no mundo todo. O autor foi considerado uma revelação na Suécia. Mas, em 2004, assim que entregou os originais para a editora, morreu de ataque fulminante. Uma pena.

A despeito de todos os problemas, espero ansiosamente pelo terceiro e último volume. O lançamento deve ocorrer daqui a uns seis meses e, até lá, dá tempo suficiente para a editora resolver esses percalços e, pelo menos, usar papel que já esteja mais seco, com madeira sem clorofila. Se reeditarem o livro (o segundo) e corrigirem as falhas e os meneares de cabeça, eu aceito uma nova edição de presente. Menearei a cabeça positivamente.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A morte não lhe cai bem


Tem gente que estreia em grande estilo. E quando eu digo 'estreia', falo sobre grandes obras, feitos, realizações. Que entram no palco para arrasar. De uma só vez, sem dar tempo ao fôlego. Com 29 anos, Roberto Saviano, o napolitano que escreveu o livro "Gomorra" - Bertrand Brasil - 349 páginas, é uma dessas pessoas que entram triunfalmente na história. Isso não quer dizer, contudo, que está assegurado a essas pessoas o acesso irrestrito. Antes e ao contrário, há os que, como Saviano, mais perdem do que ganham. Volto atrás e reconsidero: não há triunfo algum nisso. Avalie por si mesmo(a).


(A capa do livro, edição Brasil)

Mas, se o triunfo significa alguma coisa além de glória e fama, para Saviano - jornalista que se infiltrou na Camorra, a organização criminosa que opera na região de Nápoles e é tão ou mais influente do que as congêneres Cosa Nostra (da Sicília) e a Ndrangheta (da Calábria) -, talvez, o que houve foi a constatação da perda da vida, em vários e amplos sentidos.


Para um jornalista, transformar-se da noite para o dia em referência mundial, com tanta precisão de dados, fatos, nomes e referências, todos contidos em "Gomorra", seria o ápice. Não é assim para Saviano. "Minha vida está suspensa, cancelada, detida. Lamento ter destruído meu mundo por um livro e ter feito mal a todos que me queriam bem", diz, sobre o peso de ter lançado luzes - e denúncias e documentação - sobre a máfia napolitana.


Gomorra virou filme. A arte que copia a vida. A vida sempre a surpreender e ultrapassar os limites ficcionais da arte. A vida de Saviano daria um filme. Um moderno chefão que voa baixo em carros italianos de luxo pelas ruas de Nápolis. Mas a vida real não tem películas. É crua, sem filtros, sem tratamento de pós-produção. É feita ao vivo. Aqui e agora.


Saviano perdeu tudo: a liberdade, os amigos, a família e a namorada. Quando se locomove, somente o faz escoltado por cinco policiais. São seus únicos amigos. Uma simples ida ao supermercado implica em mobilizar a equipe. Saviano transformou-se em símbolo mundial da liberdade de expressão mas perdeu a própria expressão. Sente-se um morto em vida. E espera. Espera que a morte chegue. Sabe que a morte o encontrará. A Camorra tem 80 clãs e mais de 8 mil filiados. Um dia, o adeus. E tudo acabará para Saviano, que ousou desnudar a Camorra.


(Saviano ao centro, cercado pelos carabinieri)

De resto, não preciso nem recomendar mais o livro. A história do autor pós-publicação já fala por si mesma. Reproduzo abaixo entrevista concedida por Roberto Saviano ao jornal espanhol "El País", reproduzida no Brasil pela Folha de São Paulo:

"PERGUNTA - Quer dizer que é assim sua vida atual?
ROBERTO SAVIANO - É assim. Eles vão aos lugares antes de mim. Chegam primeiro, controlam tudo, e depois eu vou. Para qualquer coisa. Se é preciso comprar uma geladeira, por exemplo, eles vão na frente, depois eu vou, a olho, escolho o modelo, e então vamos a outra loja diferente para comprá-la. Nunca voltamos ao mesmo lugar.

PERGUNTA - O sr. sempre teve cinco guardas?

SAVIAN- Comecei com dois, depois passaram a ser cinco.

PERGUNTA - O sr. muda muito de casa? 
SAVIANO 
- Sempre que observamos algum detalhe diferente. Por exemplo, se há uma obra em andamento num edifício próximo e sabemos que há pessoas de Nápoles trabalhando ali que já foram julgadas, eles me mudam de casa. Basta algo assim.

PERGUNTA - Eles o escoltam também dentro de casa? 
SAVIANO 
- Não, normalmente não entram em casa. Esperam atrás da porta. Vinte e quatro horas por dia.

PERGUNTA - Parecem tranquilos. 
SAVIANO 
- Têm muitos anos de experiência no combate à máfia. Já protegeram personalidades, juízes e "supertestemunhas". Maruccia os escolheu.

PERGUNTA - Com tanto contato, vocês já devem ter virado amigos. 
SAVIANO 
- Claro, são magníficos. E isso me obriga a seguir adiante, a não desistir. Devo isso a eles, que me defendem.

PERGUNTA - O sr. encontra amigos em casa? 
SAVIANO 
- Poucas vezes. Muitos de meus amigos se afastaram desde que o livro saiu. Foi muito doloroso entender isso. É natural, porque você desaparece, vira invisível e se torna outra pessoa. Você fica desconfiado, vive nervoso, com a cabeça em outro lugar, e nada nem ninguém parece estar à altura trágica de sua situação...

PERGUNTA - A normalidade se torna absurda. 
SAVIANO 
- Sim, as propostas das pessoas normais, falar de coisas bobas, sair para tomar uma cerveja, bater papos superficiais, no início eu não suportava. Eu estava mergulhado num turbilhão no qual existia apenas meu trabalho, minha situação, e procurava respostas nos livros. Fiz uma espécie de descida aos infernos literários para entender quem, antes de mim, em situações mais graves, conseguiu sobreviver.

PERGUNTA - E quais autores o ajudaram? 
SAVIANO 
- Os perseguidos pelos soviéticos: Boris Pasternak [1890-1960], Varlam Shalamov [1907-82]... e, mais recentemente, Anna Politkovskaia [1958-2006], que acabou de forma trágica, mas sempre enfrentou as difamações. Não vou esquecê-la. Tampouco me esqueço das cartas e dos diários do juiz Giovanni Falcone [1939-92], o que ele escreveu e publicou, porque resistiu a ataques cotidianos, parecidos com os que eu sofro.

PERGUNTA - E, tantas vezes, com a cumplicidade do governo. 
SAVIANO 
- Sim. Estou convencido de que, na Itália, quando se luta contra determinados poderes, o destino das pessoas está selado. Não necessariamente de forma trágica, embora muitas vezes seja assim.

PERGUNTA - Deixando o sr. fora do circuito? 
SAVIANO 
- Eles o caluniam, dizem que você está se exibindo, que está procurando publicidade. É isso que é incrível, porque se cria um círculo vicioso que impede que você tenha a palavra. E o que as máfias temem é justamente isso: a atenção.

PERGUNTA - Quando o sr. escreveu o livro, imaginou que aconteceria algo assim? 
SAVIANO 
- Eu era um sujeito jovem que lia, discutia e escrevia. De repente me vi no meio desta guerra. Pensava que teria problemas, mas não tão graves. Agora não posso pôr os pés em Nápoles. Esta viagem é a primeira que faço em um mês. Todas as cidades me convidam, menos a minha. Apesar de "Gomorra" ser o livro mais vendido da história da cidade.

PERGUNTA - Soa irônico, é verdade. 
SAVIANO 
- Restam poucos focos de resistência ali, poucas forças sadias. Uma delas é Marotta, o filósofo; outra, o cardeal Sepe. E o bispo Raffaele Nogaro, em Caserta, que leva adiante o trabalho do dom Peppino Diana, o padre de Casal di Principe que foi assassinado. É curioso que as instituições religiosas façam o trabalho do Estado. Esse é o drama do sul da Itália.

PERGUNTA - A crise econômica vai agravar a situação? 
SAVIANO 
- Com certeza. E isso vai permitir ao dinheiro do crime entrar em todo lugar. [Devemos estar por volta do quilômetro 80. Faltam 150 para Nápoles. Não há muito tráfego na estrada e o automóvel voa, como os dos videogames. Os que andam pela esquerda nos acompanham em alta velocidade. "Vamos levar pouco mais de uma hora", informa Saviano. "Se os "carabinieri" nos pararem, vamos sorrir." É a primeira piada da viagem.] [Parece estar de humor melhor do que estava alguns meses atrás, quando disse que deixaria o país. Mas, à medida que nos aproximamos de Nápoles, vai ficando mais tenso]

PERGUNTA - Na realidade, o sr. vive uma espécie de vida virtual. Como um super-herói ao avesso. 
SAVIANO 
- Uma vida virtual e blindada. As pessoas me visitam como se eu fosse um doente, me trazem água e açúcar, como dizemos na Itália. O que me dá satisfação são coisas virtuais, como o Facebook -recebo milhares de mensagens de jovens. Isso é precioso. Neste país ainda há pessoas que têm vontade de se expressar.

PERGUNTA - O sr. sente mais esse apoio que o da classe intelectual? 
SAVIANO 
- O papel do escritor mudou de repente, e alguns se sentiram assediados. Muitas pessoas exigem que os escritores se pronunciem. Antes achavam que os livros não podiam mudar as coisas; hoje já não se pode afirmar isso. Talvez se possa dizer que alguns escrevem palavras que não mudam as coisas e que outros escrevem palavras que permitem que as pessoas tenham instrumentos para mudar as coisas. O poder enorme que tem o leitor que escolhe ler um livro... Talvez ele não se dê conta disso. Eu, sim. Os leitores, e não o livro, são a chave de minha história. Se ninguém tivesse lido meu livro, a Camorra teria se importado muito menos com ele.

PERGUNTA - A jornalista do "Il Mattino" Rosaria Capacchione, autora de "L'Oro della Camorra" [O Ouro da Camorra], também vive sob escolta. 
SAVIANO 
- Sim, é um caso parecido com o meu. A diferença é que ela ainda vive e trabalha em Nápoles. Consideram-me um palhaço porque escrevo fora da cidade. Já ela é respeitada.

PERGUNTA - [O jogador de futebol] Cannavaro já disse que essas coisas da máfia é melhor não espalhar... 
SAVIANO 
- A máfia faz todo mundo sentir-se culpado. Alguns se sentem culpados porque sabem pouco, outros, porque pensam muito. Cannavaro se equivoca em uma coisa. Não é um problema local, é global: eles investem em todo lugar.

PERGUNTA - Muitos napolitanos pensam como ele. 
SAVIANO 
- Sim, um dia um advogado gritou para mim: "Sou eu quem paga sua escolta!". E os vizinhos de um apartamento que tive se organizaram e pagaram vários meses de meu aluguel adiantados, para não me terem ali.
[Nápoles aparece no horizonte, grande e belíssima. "Você vê Nápoles e depois morre", reza o ditado. Uma frase que não parece oportuno citar quando o carro estaciona no quartel da polícia. Por sorte a pizzaria fica perto dali, na rua de Toledo.]
[Os livros são a grande paixão de Saviano, desde pequeno. Seu rosto só se ilumina quando fala de literatura e quando chega a pizza fumegante, verdadeiramente napolitana: mussarela de búfala, tomates cereja, crocante e macia.]
[Saviano a corta em triângulos e sopra por cima, fazendo círculos, como um menino. Então conta que tirou de "Soldados de Salamina", de Javier Cercas, a inspiração para escrever seu "relato real". E que gostaria de encontrar Mario Vargas Llosa.] É um escritor fabuloso, e, como Cervantes, conhece a alma napolitana. Eu o escolheria como padrinho de meu retorno público.
Seria maravilhoso se Marotta organizasse sua vinda aqui no Instituto, porque foi essa grande tradição laica e civil de Nápoles que me ajudou a escrever o livro. Os mestres dos revolucionários franceses eram napolitanos. Aqui nasceram as ideias de liberdade na Europa.
E não foi por acaso que Giordano Bruno morreu na fogueira, e sim porque tentou retornar a Nápoles. Tinha a hospitalidade do mundo inteiro, mas preferiu voltar. Foi detido em Veneza e o queimaram.
Alguns me dizem: "Fale da grande cultura, e não da vida ruim". Caravaggio é a beleza, e essa beleza me dá forças para relatar o mal. Se não existisse essa beleza, não haveria esperança de sair. Mas, se usamos a beleza para encobrir o mal, ela se converte em disfarce.
Estive com Salman Rushdie em Nova York. Cheguei com a escolta, ele se aproximou com Ian McEwan, cada um me pegou por um braço e eles me levaram ao carro. Eu mal conseguia acreditar.
Salman me disse o que eu sinto. Que muitas pessoas pensam que, para um escritor, viver ameaçado é algo glamouroso. Que ninguém vai me entender, exceto algum político (ele diz que apenas Margaret Thatcher o entendia). Que ninguém vai acreditar que o que você mais deseja é tomar um café num bar. Que a única forma de reconquistar sua liberdade é decidir fazê-lo. Que o importante é manter sua cabeça livre e saber quando você quer voltar a ser livre. Que eu devo procurar um bom exílio...
Mas isso é algo que preciso pensar bem, porque começar do zero é difícil.
[Estamos de volta a Roma. Saviano escapuliu na metade da tarde de sexta-feira para passar o fim de semana com sua "mamma" (versão oficial) e hoje ficamos na sede de sua editora, a Mondadori. Finalmente, a boa notícia: Saviano está escrevendo outra vez. Tem dois projetos em andamento. Um é um relato verídico sobre o crime organizado internacional. O outro falará dele próprio, do homem solitário. Será quase uma vendeta.]
["Tenho que canalizar de alguma maneira o rancor que sinto pelos amigos que me abandonaram quando escrevi "Gomorra". Sinto ódio por eles. Entendo que a vendeta não é uma arte nobre, mas me deixaram no chão quando eu mais precisava deles. E a amizade é o contrário disso, não?"

PERGUNTA - Com sua família as coisas vão melhor? 
SAVIANO 
- Quando meus pais se separaram, meu irmão e eu ficamos com nossa mãe, que é química e vivia viajando a congressos. Estudamos num colégio de Caserta. Víamos meu pai, que é o médico da cidade, nos finais de semana.
Arruinei a vida de todos que me eram próximos. Meu irmão foi trabalhar no norte. E não tenho relações com meu pai.

PERGUNTA - Dizem que tudo vem da infância. O que o sr. se recorda da Camorra daquela época? 
SAVIANO 
- Meu pai me levava para visitar doentes nos povoados rurais de Caserta. Muitas vezes víamos cenas apocalípticas. Eu me lembro das búfalas mortas boiando no rio Volturno. Quando ficavam velhas, jogavam-nas na água, para economizar balas.
Lembro que pescávamos percas marinhas no rio, porque, de tanto a Camorra roubar a areia do rio para fazer cimento, em vez de o rio desembocar no mar, a água salgada penetrava em seu leito.
Meu pai sempre teve medo da Camorra, mas nunca se rebelou. Via os carros luxuosos deles e sentia raiva. Mas não dizia nada, nunca.
Sempre senti essa asfixia. Tudo ia mal, mas ninguém podia fazer nada. Sempre foi assim. "Se você é "furbo" (malandro), pode aproveitar", diziam. Se você pensa que pode mudar alguma coisa, é um louco.
A Camorra sabe que só tem problemas quando mata demais. Ela ajuda as famílias com filhos deficientes.

PERGUNTA - Quer dizer que não é apenas um Estado, mas um Estado de Bem-Estar Social. 
SAVIANO 
- Mas o bem-estar social da Camorra não é um direito, é um privilégio. Eles podem tirá-lo de você.

PERGUNTA - Quando decidiu ser escritor? 
SAVIANO 
- Aos 14 ou 15 anos. Eu sempre lia; adorava os clássicos. Nascer na terra da Camorra não supõe apenas viver entre morte e sangue -você também vive rodeado das melhores ruínas da Antiguidade. Aníbal e Espártaco eram os personagens de minha infância. Meu avô e meu tio sempre me contavam histórias de Espártaco.
A cultura é o que realmente salva nossa vida; minha terra me deu isso de presente. A "Anábasis" de Xenofonte se parece comigo.
Para escrevê-la, ele se tornou mercenário. Xenofonte era tatuado, e eu também. Ele se fez tatuar com a figura de um javali. Consideravam-no um reacionário. Mas no livro, dizia: "Não confia em quem escreve sobre coisas não vividas".

PERGUNTA - Mas, para o sr., esse livro apenas estragou sua vida. 
SAVIANO 
- Agora vivo encerrado em ambientes fechados; ando de um cômodo a outro, às vezes dou socos nas paredes. É uma meia morte, ou uma meia vida.

PERGUNTA - Ela acabará um dia... 
SAVIANO 
- Quem sabe minha libertação chegue e eu possa passear novamente na praça do Plebiscito quando eu for velho, ou usando uma peruca loira.
Mas não acredito. Nápoles não só não esquece como sente rancor. "Gomorra" arrancou a tampa que fechava tantos silêncios. Não me perdoarão nunca. Dizem: "Você está ganhando dinheiro com a "monnezza" (o lixo), hein?", ou "pare de escrever porcaria, 'buffone'".
Os guarda-costas se indignam mais do que eu, e tenho que dizer a eles que têm que me defender dos ataques físicos, não dos espirituais.

PERGUNTA - Orhan Pamuk deixou a Turquia. 
SAVIANO 
- A Europa e o México são hoje os lugares onde os escritores correm mais risco. Mataram com um tiro na cabeça o autor [Georgi Stoev] de "BG Godfather" [Chefão Búlgaro]. Também mataram Politkovskaia e a jornalista que retomou seu trabalho... Dá medo neles o autor que consegue fazer sua mensagem extrapolar seu território.

PERGUNTA - O sr. pensa muito em sua própria morte? 
SAVIANO 
- Bastante. Me dizem que o TNT é o pior, mas eu sinto mais medo de balas. Sei que me farão pagar -está escrito.
Convivo tanto com isso que já não me assusta mais. Quando chegarem, porque chegarão, será dentro de algum tempo. A tensão me defenderá por alguns anos. Enquanto isso, eles, seus 200 mil seguidores e tantos políticos que tentam minimizar o que acontece, dizendo que é exagero, continuarão com a difamação. Dirão que copiei, que sou um palhaço.
Diziam isso a Falcone. E ele disse uma coisa muito importante a sua irmã. Disse que não se defendia das calúnias porque elas se defendem sozinhas, e que a máfia lhe faria um favor matando-o, porque assim ficaria claro que não era arrivista e que dizia a verdade.

PERGUNTA - Não podemos terminar assim. Suas armas são a palavra e a verdade, e são mais poderosas que as balas. 
SAVIANO 
- Contar a verdade me ajudou a afastar as sombras que eu carregava por dentro e que se projetavam sobre mim. Eles venceram em parte, por me fazerem viver assim.
Mas, por outro lado, perderam. Hoje no Facebook há milhares de jovens discutindo a Camorra. Destruíram minha vida, mas, quanto a mim, o que fiz já não é meu. É das crianças.
"

Roberto Saviano, como citado na entrevista acima, está conectado à internet:

- Twitter

- Facebook

- Blog

(Excepcionalmente, publico este post fora da seção The Book Is On The Table, voltada para os livros que leio e comento. O assunto, o autor e as consequências de um escritor por publicar uma obra merecem este destaque.)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

The book is on the table

Mais um post temático. Desta vez, de gastronomia. Sim, o livro está e é sobre a mesa. Não é porque acabei a faculdade que meu interesse arrefeceu. Não! Longe disso! Não estive tão perto da cozinha quanto me apeteceria, mas, tampouco passei ao largo, como poderia ocorrer.


Cozinhei, sim. Mas, sobretudo, cozinhei nas letras, devo dizer. De certa forma, me dei férias de cozinha, depois de dois anos na prática laboratorial. E, por outro lado, a cozinha doméstica está bem distante do que se aprende na faculdade.

Claro, haverá os que acham que sou pedante ao afirmar isso. Mas, o feijão com arroz que eu pratico não chega nem perto do feijão com arroz de casa. Então, claro que me furtei à faina da cozinha caseira para melhor desfrutar da comida de mãe, que nada a substitui, não é?

Também devo dizer que a destreza do meu irmão com a carne e derivados me deixa inquieto, cônscio do meu pouco saber quando se trata de manejar e preparar as carnes.

De forma que entrei na cozinha tardiamente, somente na praia. Fiz coisas simples, sem sofisticação. Porque eu também estava de férias.

Para mim, as melhores férias se fazem acompanhar, sempre, de bons livros. E foi o que aconteceu. Nos quase 25 dias de férias, li sete livros. Entre os quais, os três abaixo, de gastronomia. Bem, um deles não é exatamente de gastronomia, mas faz uma adorável intersecção entre gastronomia e filosofia.


- Escoffianas Brasileiras - Alex Atala, com Carolina Chagas - Larousse - 526 páginas: é uma verdadeira bíblia que percorre toda a extensão da cozinha. Uma obra primorosa em edição que conjuga a história do próprio Atala com a cozinha regional brasileira. Claro que é bastante egocêntrico, ao sabor de livros correspondentes de chefs como Adrià, Jamie Oliver, Gordon Ramsay e companhia. Mas, e sobretudo, é um livro que ensina técnicas e dá receitas de maravilhosos pratos cujos ingredientes primam pela preferência nacional. Os capítulos são divididos segundo a evolução de um chef na cozinha: aprendizado, sonho e realidade. Recomendo como referência, com certeza. Para os que tratam os livros como obras de arte, como eu, um cuidado adicional da edição: na contracapa, há um livro-apêndice para ser usado no dia-a-dia na cozinha e preservar o livro principal.


- Em Defesa da Comida - Um Manifesto - Michael Pollan - Editora Intrínseca - 271 páginas: um verdadeiro tratado sobre a evolução da cadeia alimentar moderna e as inefáveis consequências sobre o corpo humano. A título de exemplo, veja só os nomes dos capítulos: A Era do Nutricionismo; A Dieta Ocidental e as Doenças da Civilização; e Para Superar o Nutricionismo. Pollan ataca a indústria alimentícia mundial e os lobbies que, de tempos em tempos, elegem o que é bom e o que não é bom: ora prevalecem as proteínas, ora os lipídios, ora os carboidratos. Ora a manteiga é boa, ora é fatal. A receita de Pollan para combater o poder da indústria da alimentação está na comida da avó (dele e nossas): Coma comida. Não muita. Principalmente vegetais. Livro bom para entender de que forma as prateleiras dos supermercados transformaram-se nos últimos 40 anos em verdadeiras exposições de armas letais.


- A Cozinha do Pensamento - Josep Muñoz Redón - Editora Senac - 223 páginas: de fato, este livro está mais para filosofia do que para gastronomia, mas, assim como o autor diz: "a gastronomia é a arte de condimentar os alimentos para produzir felicidade", eu digo que a filosofia permite, inclusive, tergiversar sobre aquilo de ser o que comemos ou de comermos aquilo que somos. Bacon, Sartre, Kant, Voltaire, Sócrates e outros passeiam por este delicioso livro que classifica os filósofos em doce, salgado, ácido e amargo. Um dos pontos interessantes são as receitas de acordo com a filosofia que se discute. Aproveite e interprete os enigmas sugeridos pelo autor. Alimento para o corpo e para o espírito.

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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