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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Adeus, Saramago!

Goste-se ou não da literatura e até mesmo da pessoa de José Saramago, morto nesta sexta-feira, 18, aos 87 anos, o fato é que o escritor português - feito escritor à idade maior dos 50 anos - renovou a literatura da língua portuguesa - e incluo aqui todos os países de língua portuguesa, os oito que falam e adotam essa língua.




(foto feita pelo fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que era amigo de Saramago, no exílio cinzento de pedra do escritor em Lanzarote, Ilhas Canárias, Espanha)


Eu tomei conhecimento de José Saramago pelo livro "Ensaio Sobre a Cegueira", em 1995. Estava ainda a cursar a faculdade de jornalismo e existia ainda a livraria Belas Artes, no finalzinho da Avenida Paulista, quase confluência com a Rua da Consolação, aqui em São Paulo.


Costumava peregrinar pela Paulista avenida e quedar-me nas estantes da livraria a descobrir, a cada semana, um semblante novo nas capas dos livros. Foi quando fitei Saramago pela primeira vez. Digo fitei como se o tivesse visto porque, a mim é que não me enganam, os livros mostram mais do autor do que seus próprios retratos e até mesmo faces.


E cativou-me Saramago com aquela literatura sem fôlego (os livros do autor conservam a grafia de Portugal). Aos borbotões, Saramago despejava de um tudo: angústia, medo, vida, morte, ódio, amor. E da mesma forma, quase sem respirar, o bebi. Traguei grandes goles. Seguiram-se "A Jangada de Pedra", "Memorial do Convento" (admirável), "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", "Todos os Nomes" (de onde adotei o fio de Ariadne), "A Caverna" (prefiro o original de Kafka); e "As Intermitências da Morte". Li exatamente nessa sequência: de 1995 a 2005, foram dez anos da literatura portuguesa que se me entrou pelo cérebro e poros.


De Saramago tenho, desde então, sabido muito. Que é isso e aquilo. Que acredita nisso mas não naquilo. Que pensa tal coisa mas não a outra coisa. Primeiro Nobel da literatura portuguesa, em 1998, talvez o vulto de Saramago 'nobelizado' tenha encoberto o primeiro Saramago que eu li, lá atrás. Ao ler "A Caverna" e depois "Intermitências", descobri que já os borbotões tinham transformado-se em burburinhos de riacho doce, daqueles que passam de mansinho por debaixo de cálidas sombras verdes.


Perdi o tesão como sói acontecer quando as paixões se aquietam. A excitação não é mais a mesma e as demandas diminuem até virar um fiapo fininho daquilo que um dia foi uma erupção de um vulcão milenar.


Mas olha lá que não estou a desprezar o morador daquela pedra Lanzarote. Cinzento o local que escolheu para se exilar, tornou-se, com o tempo, pedra e cinza ele mesmo, tenho a impressão. Antes disso, porém, para mim foi o magma. Por muito tempo, forjou o meu cimento. Adeus, companheiro lusitano.


Reproduzo abaixo um texto de "A Jangada de Pedra", no qual Portugal se desprega das franjas da Europa e vai singrar Atlântico afora. Tem sido assim, com os portugueses, desde sempre, a singrar mares afora. De vez em quando, uns vem dar nos costados do Novo Mundo. Foi assim com os antigos e foi assim com Saramago também, que tantas vezes esteve entre nós:


"(...) Entretanto, desesperados, no limiar da surdez, os habitantes tinham espalhado pelas ruas e praças da aprazível estância balnear, agora estação infernal, dúzias de bolos de carne envenenados, método de simplicidade suprema, cuja eficácia tem sido confirmada pela experiência em todos os tempos e latitudes. Por junto, não morreu mais que um cão, mas a lição foi logo aprendida pelos sobreviventes, que, em um instante, latindo ladrando e uivando, se sumiram nos campos arredor, onde, sem motivo que se percebesse, em poucos minutos se calaram. Quando os veterinários enfim chegaram foi-lhes apresentado o triste Médor, frio, inchado, tão diferente do feliz animal que acompanhava a dona às compras, e que, por ser já velho, gostava de dormir ao sol, sem cuidados. Porém, como a justiça ainda não abandonou por completo este mundo, decidiu Deus, poeticamente, que Médor morresse do bolo preparado pela dona bem-amada, a qual, bom é que se saiba, tinha no pensamento uma certa cadela da vizinhança que não lhe saía do jardim. O mais velho dos veterinários, diante do fúnebre despojo, disse, Vamos autopsiar, e realmente não valia a pena, porquanto qualquer habitante de Cerbère poderia, se o quisesse, testemunhar a causa mortis, mas o fito oculto da Faculdade, como na gíria do serviço secreto lhe chamavam, era proceder, disfarçadamente, ao exame das cordas vocais de um bicho que, entre a mudez por morte agora definitiva e o silêncio que parecera ser para toda a vida, tivera afinal umas horas de fala e pudera ser igual ao comum dos cães. (...)".

4 Comentários:

pinguim disse...

É curioso que na multiplicidade de textos que na blogosfera lusitana hoje se encontram, sobre Saramago, não tenha encontrado um que me agradasse tanto como este aqui, teu,Sérgio, amigo do outro lado do Atlântico.
Eu não publico nenhum texto sobre o autor agora falecido, porque, de uma forma lata, não gosto de Saramago.
Da sua literatura, não sou incondicional e os únicos dois livros que admiro são "A Jangada de Pedra" e "O Memorial do Convento"; o resto é já o pronúncio desse arido exílio, como tu lhe chamas, que ele impôs a si mesmo, em nome de uma aridez que foi toda a sua vida como homem.
Nunca foi simpático, nunca admirou Portugal, sempre se considerou a si próprio como superior e para ele o iberismo era mais do que uma quimera, talvez por via da sua companheira.
Nos primeiros tempos depois da revolução dos cravos, como director de um dos mais importantes diários portugueses estabeleceu uma censura interna maior do que a censura então finda, em nome do comunismo, que serviu como um dogma.
Nos últimos anos da sua vida a sua secura e o seu negativismo acentuaram-se gerando conflitos, religiosos e não só, de uma forma demasiado agressiva e provocatória.
Talvez penses que estou a ser demasiado ríspido para com um homem que deu a Portugal um Nobel da Literatura e projectou o país como talvez poucos o tenham feito nos últimos tempos; mas a sua falta de humildade não me permite olhar essas honras senão como algo que pessoalmente não me trouxe qualquer orgulho.
A nossa (portuguesa) "iteligentsia", em que incluo intelectuais, pseudo intelectuais e políticos, agora, bajulam-no na sua morte, como sempre o fizeram em vida, com uma reunião extraordinária do Conselho de Ministros a declarar 3 dias de luto nacional; e até a Igreja que ele combateu com...ódio (não sou suspeito, porque eu também a combato), agora relativiza esse seu total e cru antagonismo, que começou com o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e acabou com o recente "Caim".
Enfim, paz à sua alma, e o seu corpo, esse que nunca se sentiu bem no seu país, já foi "resgatado" para as honrarias nacionais.

Beijo.

António Rosa disse...

Sérgio,

Este seu post é o melhor que li sobre a identificação com Saramago. Simplesmente, o melhor.

Gostaria de ter encontrado referência a «Levantados do Chão», em meu fraco entender, como do melhor que ele escreveu e ainda era esse magma que fala.

A melhor homenagem que se lhe pode fazer é aceitá-lo (ou não) enquanto criador de textos fabulosos e deixar de lado a persona. Não têm que condizer. Não têm que ser almas gémeas. :) Os grandes criadores não têm que ser nem sensatos, nem consensuais. Raramente o são. Por isso, gostei tanto do seu post. Por ter deixado de lado a persona.

Abraço.

Redneck disse...

João, fiquei feliz por te agradar num texto sobre Saramago. Já falamos sobre o escritor no passado, você e eu, e creio que li algum post seu sobre o assunto e, portanto, já conhecia o seu posicionamento em relação a Saramago. Sobre tudo o que falastes, muitas vezes li aqui mesmo, na imprensa brasileira. Não posso relatar com a riqueza com que você o fez, mas a mim me parece que o autor assumiu uma persona a partir do Nobel e começou a agir como um esnobe. Mas eu seria hipócrita se me metesse nesses assuntos. Não os domino com propriedade para comentá-los. O que sei, de fato, é que a literatura de Saramago perdeu, pouco a pouco, o efeito que fazia sobre mim. Isso sim me entristeceu e fez com que eu visse alguns dos pontos a que você se referiu e de como um escrito nunca, jamais, está separado do homem político que sempre será. Beijo!

Redneck disse...

António, obrigado pelo comentário. Me alegro com você e com o João por, sendo portugueses ambos, falaram isso sobre o meu texto, longe estou do universo intelectual e político de Portugal. Sobre "Levantados do Chão", nada conheço. E, como eu disse ao João, seria hipocrisia da minha parte partir para uma análise da qual eu desconheço os meandros e fundamentos. Deixo lá Saramago agora com seus fantasmas eternos e fico com aquele que me induziu a atitudes e pensamentos que, a seu tempo, a mim me fizeram muito bem. E quanto a ser consensuais, criadores ou parcos mortais, nenhum de nós o é, creio. Abraço!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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