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domingo, 30 de maio de 2010

Meu rugido dominical



Abu-Nuwas, poeta persa/árabe (756-814) chegou a figurar em contos do livro "As Mil e Uma Noites", tão famoso era na Pérsia (atual Iraque). Ainda jovem, mudou de Ahvaz para Bagdá e escrevia sobre a passividade sexual dos homens e a inconstância sexual das mulheres. Celebrava a liberdade sexual masculina, principalmente no que se referia ao amor entre homens. Escrevia abertamente sobre coisas proibidas pelo Islã. Foi o primeiro poeta árabe a escrever sobre a masturbação.


Al-Jahiz, escritor árabe que viveu entre 781 a 868, nascido em Basra, também migrou para a então opulenta - financeira e intelectualmente - Bagdá, escreveu, entre outros, o livro "A Arte de Manter-se Uma Boca Fechada". Claro que para consumo de terceiros porque ele mesmo não se furtou a fazer a elegia a "efebos e cortesãs" e promover um "diálogo entre homens que amam mulheres e homens que amam homens". Você conhece alguém que morreu por causa de livros, digo, literalmente atingido por livros? Pois Al-Jahiz foi vítima de uma pilha de livros que desmoronou sobre si, dentro da sua própria biblioteca. Que era, ironicamente, confidencial.


Por fim, Sheherazade, autora (ou ator, nunca se saberá) do milenar "As Mil e Uma Noites" (cujos manuscritos datam de períodos incertos entre 800 e 1700), aborda, de forma metafórica, relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. O livro chega, inclusive, a citar Abu-Nuwas em alguns contos.


Esse prelúdio é para citar uma matéria bastante interessante publicada na Folha de S.Paulo neste domingo - A Jihad do Arco-Íris - sobre a primeira revista gay em árabe. A revista, Mithly (acesse aqui o site, em árabe) foi lançada clandestinamente em abril deste ano no Marrocos (país em que o homossexualismo é punido com prisão). Os singelos 200 exemplares da revista são distribuídos de mão em mão na capital marroquina, Rabat. O site, desde a criação, registra mais de 1 milhão de habitantes.


O que me leva a questionar, de forma geral, os perfis que vejo cada vez com mais frequência no Facebook. Há uma infinidade de homens gays árabes - de vários países, inclusive os que proíbem e classificam homossexualidade como crime. Não entendo nada do mundo árabe. Mas há, nesses perfis, talvez uma vontade de dar forma (e rosto, face) para o gay árabe. O assunto é tão tabu nessa região do mundo (a primeira civilização mundial a se fiar na história antiga da Mesopotâmia) que não existe uma palavra na língua árabe para definir "homossexualidade". Os assim considerados (gays) são chamados de "zamel" (efeminado) ou "chaddh" (perverso). Como se perversas fossem as pessoas dessa natureza mas não as que matam em nome de um deus supremo.


A revista Mithly (acesse aqui a versão em PDF) é publicada pela associação Kif Kif, sediada na Espanha. A Kif Kif é uma rede, uma comunidade de compatriotas marroquinos de Madrid, Paris, Roma e Montreal que, com pequenas doações, conseguem viabilizar tanto o site quanto a publicação.


Creio que o mundo é, muitas vezes, um lugar abafado demais para se respirar. Pequenas lacunas ou frestas como essa revista e a iniciativa, de forma mais abrangente, jogam um pouco de ar sobre o preconceito e o sofrimento que isso representa para os que o vivem no cotidiano. O redator-chefe da Mithly disse ao jornal que quando os tradicionalistas mais conservadores querem mostrar os riscos da descriminalização do homossexualismo no Marrocos, exibem imagens do Carnaval do Rio de Janeiro, símbolo do mais alto estereótipo de uma sensualidade exacerbada que, supostamente, temos, os brasileiros, durante a festa da carne.


A revista está apenas na primeira edição. O número dois da publicação está previsto para sair agora, no dia 1º. de junho. A matéria principal deve abordar o alto índice de suicídio de gays no Marrocos. Para o terceiro mês, em julho, está previsto um tema que ainda é mais polêmico: o lesbianismo no mundo árabe.


Nesse mundo em que, a cada passo rumo a uma pretensa evolução, retroagimos outros dois passos, a revista clandestina marroquina significa uma tentativa de libertação, de dar voz a que não a tem e que, por vezes, se cala ao preço de pagar com a própria vida. Porque quando me falam que as coisas e o mundo mudam, melhoram, tornam-se mais compreensivos, eu devolvo com o meu ceticismo. Não acredito. Mas quando tenho conhecimento desse tipo de atitude, minha descrença até arrefece. Daqui, do meu canto de mundo que não considero melhor ou pior do que o Marrocos ou do que o mundo árabe, torço para que os colegas jornalistas da Mithly levem o projeto adiante. E me solidarizo. Mabrook! (parabéns, em árabe).


P.S. A abordagem desse tema é minha contribuição inicial, um pré-post ao mês de julho, que é o mês do orgulho gay (Gay Pride) e também é o mês em que nasci. Que julho seja, de alguma forma, mais cheio de orgulho para o gay marroquino. Ainda, no próximo dia 6 (no outro domingo), acontece a XIV Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Beijo, me liga!

2 Comentários:

pinguim disse...

E isto aqui para nós que ninguém nos ouve: "que belos são os árabes"!!!!!!!!
Beijo.

Redneck disse...

João, mais uma coisa que você ainda não sabia sobre mim: sou descendente de árabes, os de lá da Síria. E, claro, gosto muito dos conterrâneos. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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