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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Meu rugido dominical



Do final do ano passado para o início deste ano, fui acometido de um incrível processo de metamorfose, à moda das borboletas. Não! Não que eu estivesse fulgurante, a bater asas sob o sol a pino, com o esfuziante colorido das borboletas. Mas, digamos, eu estava em equilíbrio. OK, em perene equilíbrio. Ainda assim, não havia ameaça de mudanças a curto-prazo, para o bem ou para o mal.


Mas, ao contrário das vaporosas borboletas, a minha metamorfose se processou de forma totalmente inversa: de uma borboleta pesada, a praticar apenas voos rasantes e curtos, passei a casulo, roliço e com dificuldade contrária à dos insetos. Não de sair da casa, e sim de entrar nela. Casa é, neste caso, as roupas. A casa encolheu e eu me expandi e ante essa contração/expansão, ficamos, casa e eu, incompatíveis.


Tenho para mim que algum duende pervertido se apoderou do meu guarda-roupa durante a minha ausência nas férias e refez todo o acabamento das minhas roupas. Claro que, nessa alfaiataria, o danadinho cortou partes importantes das minhas peças de roupa para incorporar ao seu próprio cajon de sastre.


O que importa é que, de um momento para outro, me vi casulo sufocado. As tramas das calças e camisas insistem em bloquear partes do meu corpo que, por sua vez, insistem em se tornar cada vez mais, e ofensivamente, proeminentes.


Cansado desse jogo de entrelaçamentos, apertos, incômodos físicos e dificuldades impostas pela sobrecarga, tomei uma decisão. A princípio, apenas uma mudança na dieta do almoço: incorporei de vez as saladas e legumes, completei com um grelhado e cortei todo o resto: arroz, feijão, massas, batatas e qualquer outro ingrediente que, às vezes, muita raramente, anima o insosso menu ao qual sou submetido diariamente.


Esse processo começou no final de janeiro. Depois de duas semanas, achei, ingenuamente, que haveria algum resultado. Ao enfrentar um mar verde formado por verduras e legumes que eu, desde a minha tenra idade, rejeito continuamente, pensei que o esforço seria recompensado. O engano foi dolorido. Todas as gramas consumidas em verdadeiros pastos, pastagens e gramas que compõem o tal do cardápio saudável formado pela flora alimentar não resultaram em nada, a não ser numa crescente e irritante sensação de fome.


Decidido a romper o casulo e quiçá alçar voos dignos de borboletas azuis (porque as amarelas ficam no nível do solo), radicalizei e, além da dieta contida do almoço, resolvi adotá-la também no jantar. Estou no começo e sinto calafrios. De medo da fome que se anuncia, rancorosa.


Ontem, por exemplo, almocei tomates e frango. Com sabor de nada, claro. Minha irmã me disse que nós, homens, devemos consumir frutas e alimentos vermelhos. Não a carne vermelha, e sim os alimentos vegetais vermelhos. Pode vinho, a bebida? Não, apenas vermelho, as frutas. Oras! Odeio tomates, sejam verdes, vermelhos, fritos ou secos. Odeio cáqui, odeio maçã. Talvez odeie menos morangos. E olha lá.


Saí para jantar disposto a não romper com o pacto vegano-diabólico feito comigo mesmo. Mas, eu não tinha ideia do que estava por vir. Fui a um restaurante de nome francês e porções idem. O prato, claro, de francês não tinha nada e tinha tudo, simultaneamente. Comi uma entrada de pequenas torradas, minúsculas, com patê de azeitona preta e extrato de anchovas. Sim, extrato, porque as anchovas, porventura, talvez estivessem a nadar despreocupadamente nos mares enquanto eu as tentava pescar no meio de um mar negro de azeitonas.


Se bebi? Sim. Uma caipiroska de frutas vermelhas que, esgotado o líquido, revelaram-se parcamente existentes no fundo do copo. Muito gelo, alguma vodka e pedaços isolados de framboesa e amora. Nada suficiente para atingir a porção diária dos tais alimentos vermelhos prescritos pela minha irmã.


Finalmente, exaurido e faminto, fui ao prato principal. Havia carne. Mais frango e de vaca. Rejeite-as, orgulhosamente. Fui direto nas quiches. Minha amiga escolheu uma de queijo de cabra. Eu, do alto da minha prepotência recém-adquirida de consumir o mínimo, optei pela quiche de shitake, delicados cogumelos japoneses que têm gosto de nada.


Chegaram os pratos e, com eles, um enorme rendado verde. Eram alfaces a ocupar quase todo o território do prato. Precisamente, dois terços do prato. A quiche vinha junto, tímida, quase a se desculpar por invadir aquela mata selvagem de alfaces. Mas eu fui forte: devorei quiche e alfaces como se fossem finas lascas de foie gras com um maravilhoso pão de ervas finas levemente adocicado. Não satisfeito com essa demonstração de bravura indômita, devorei as alfaces da amiga, que as rejeitou como se elas fossem ervas daninhas e venenosas.


Cheguei em casa com ganas de comer portas, janelas e paredes, e deixar intocadas apenas as plantas que decoram o apartamento porque já estou farto da cor verde. Me acalmei, tomei um litro de água, joguei FarmVille (que me atiçou a fome ainda mais, por incrível que pareça) e me quedei imóvel diante da TV. Vi alguns filmes que, ironicamente, traziam cenas de comida.


Antes de dormir, com um monstro no estômago a me rugir impropérios, assaltei o parco conteúdo da geladeira, esvaziado já na intenção de não prover de tentações este ser que vos escreve. Havia água de coco e, possuído, esvaziei meio litro. Não me satisfez. Tive impulsos de correr ao supermercado e comprar leite condensado, barras de chocolate, derivados de amendoim, refrigerantes, pudins, sorvetes de quilo! Não fiz nada. Deitei, maldisse a minha má sorte e dormi o sono dos famintos. Devo ter sonhado com carneiros e os abatido num glorioso churrasco, provavelmente.


Hoje, refeito do surto, tomei apenas café puro com torradas. Pequenas, tão escassas que tive até pena de devorá-las. Mas, diante do mandamento da cadeia alimentar, fui mais forte e as venci. No almoço, cozinhei sem vontade brócolis e comi, comiseradamente, com peito de frango. Ambos, brócolis e frango, com gosto de papel. Os peitos de frango são um caso à parte: parecem fiapos de panos de prato de tão insossos.


Não gosto nem um pouco de alimentos integrais: arroz, pão, pastas. Aliás, exceto quando me dizem que vou receber dinheiro integralmente, costumo odiar a palavra integral. Se sou íntegro? E isso lá importa a essa altura? O que importa é que, vencido os primeiros obstáculos, pretendo fazer acontecer a metamorfose. Até quando? Até eu conseguir sobreviver com as indefectíveis alfaces e água, feito aquelas experiências de feijão no algodão. OK, corro o risco de ficar verde-musgo. Corro o risco de ter alucinações e enxergar picanhas e galinhas fumegantes a cada vez que ver o sinal piscar ou ler as mensagens no celular. Corro o risco de desmaiar, até. Mas vou seguir bravamente e tentar desbravar o sertão selvagem e verde desse reino vegetal que eu tanto odeio. Se eu for vencido, o serei pela fraqueza e, talvez, bem lá no fundo, animado pela sobrevivência. Porque, se nem de pão vive o homem, eu acrescento que não apenas do pão, mas também da carne, dos cremes, das frituras, do Mercado de La Boqueria inteiro. Ao menos este homem que vos escreve é assim, nascido para devorar.

2 Comentários:

pinguim disse...

Eu sei que não iria conseguir nunca;
por isso limito-me a intermediar o normal com uma ou outra refeição como deve ser.
Consequência: continuo gordo, mas feliz e sem fome.
Isto não é para te desanimar, antes pelo contrário, provocas-me inveja!
Beijo.

Redneck disse...

João, sigo na peregrinação verde. Não t ão forte e destemido quanto eu queria. Mas tenho me esforçado. O objetivo, antes de ser estético, é um requisito de saúde mesmo. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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