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domingo, 10 de outubro de 2010

Meu rugido dominical



Muita coisa se diz da morte e são tudo conjecturas. Ninguém foi e voltou para descrever para os demais o que há por detrás do silêncio eterno que se encerra com as traves dos caixões e, preferencialmente, a sete palmos de profundidade. Mas, tenho comigo que, no instante final, há uma gélida e autêntica sensação de solidão, de inexorável solidão ao se compreender, enfim, que a vida seguida da morte é tudo uma solidão.


Pois que ao partir, você, eu e qualquer outro ser humano estaremos sozinhos como sempre estivemos. Por mais que convivamos a dois e partilhemos com a família e amigos ideias, conceitos, desejos, raivas, ressentimentos e alegrias, sempre se está só. A morte apenas agrava mais ainda a convicção de que é tudo um túnel pelo qual engatinhamos sem saber o que há por detrás e o que está por vir à frente.


Acho divertida a imagem da luz no fim do túnel. Os túneis humanos, construídos, sempre emergem para a luz. Até mesmo os mineiros do deserto do Atacama conseguirão emergir para a luz, ainda que soterrados a centenas de metros. Almejamos a luz como se busca o ar. Sem luz, estamos ainda mais sós e, portanto, conscientes dessa escuridão.


No decorrer da vida, não existe luz no final do túnel. Ao contrário, seremos encerrados em tubos, de certa forma. Em minas. Soterrados. Enterrados, cimentados, concretados. E aí, c'est fini. Acabou-se a luz e qualquer perspectiva de luz, seja aquela aguardada luz "de passagem" divina, pela qual seremos conduzidos a um outro mundo mais ameno, seja a própria luz natural.


A sensação de extrema solidão a que me referi se deve unicamente a outro sentimento que tive ontem. Estamos no meio de um feriado. Na terça-feira, 12, comemora-se o feriado da Padroeira do Brasil. Portanto, alguns afortunados, como eu, temos quatro dias de folga. Não é a primeira vez que me vejo com tantos dias pela frente e sem nenhum plano ou vontade de fazer desses dias algo produtivo.


Fico à mercê do peso das horas, imobilizado como se um Atlas fosse. Não me movo. Anestesiado, não tenho vontade, careço de ânimo.


Claro que isso não acontece porque quero. Ocorre por uma série de razões: queria viajar e não posso, por outros motivos que não veem ao caso. Queria me jogar na balada e não vou porque estou em fase de baixíssima auto-estima. Queria encontrar as pessoas e não me animo a pegar o telefone e falar com elas. Daí que os quereres se transformam em pasta e, quando vejo, uma imensa bola me soterra e me deixa sem luz.


Ontem, postei um vídeo para gritar a minha solidão. Tive que fazê-lo porque, de repente, tive um surto. Um medo, um pavor gigantesco da solidão. Estou rodeado de pessoas, de edifícios, de movimento. E me senti absolutamente sozinho. Não consegui enxergar luz alguma e muito menos túneis. É a segunda vez na minha vida que sinto tamanho terror. O que se passou é que ficou muito claro para mim a solidão da vida e a iminente morte que tudo encerra.


Tive pensamentos muito objetivos a respeito da extensão da minha própria vida e surtei. Surtei por uma série de motivos e sem motivo pontual algum. Tive medo de morrer sozinho. De cair e ficar imóvel, feito um pesadelo do qual não conseguimos mover um músculo e tampouco esboçar um gemido. Esse ataque de pânico foi de solidão. Foi isso.


Tenho uma amiga que costuma dizer que as mulheres gritam e choram por tudo e por nada: porque apareceu uma ruga nova, porque o seio esquerdo caiu e o direito segue impávido a apontar o futuro, porque uma nova cordilheira de estrias resolveu traçar outra geologia na coxa esquerda, porque as nádegas parecem massa de fofos bolos fermentados, porque estão felizes, tristes, raivosas, alegres, solidárias ou ferinas. Tanto faz o motivo. O ponto é que choram e gritam.


Questionei a amiga sobre gritos femininos que ouço de vez em quando e confrontei com a opinião de outra amiga: sim, esses gritos podem, muitas vezes, estar relacionados a descobertas não exatamente satisfatórias. Elas gritam porque apareceu uma pinta (e nunca porque apareceu um pinto, por exemplo). Porque dos 100 mil fios de cabelo, um houve por bem embranquecer. E assim por diante.


Ambas as amigas, tomadas de raiva coletiva contra os homens, voltaram, sem se combinar, posto que não se conhecem, suas baterias contra mim, representante que sou do sexo masculino. Nos acusaram, aos homens, de não padecermos desses males: engordamos, mas engordamos diferente, me disseram. Não temos estrias. Se algo cai no nosso corpo, é o próprio pênis, que pendurado está desde o nascimento. Portanto, a nós, homens, a natureza não trata como a elas, mulheres. Somos privilegiados, me afirmaram. Poderia ter sido uma teleconferência na qual eu era o réu e ambas eram as testemunhas de acusação.


Achei engraçado e me ri delas e com elas.


Ontem, não ri de mim mesmo.


Ao contrário, tive ganas de chorar e gritar, feito as mulheres. E me desesperar, com ou sem espelho. Por ver em mim mesmo não as deformidades que o tempo impõe ao corpo, e sim pela alma que, destroçada, enxerga o longo túnel a afunilar-se sem a salvadora luz.


Ontem vi o fim, de repente. E senti a solidão de morte. Mortal ela toda, a solidão se enroscou no meu pescoço feito uma cobra e, por instantes, me envenenou o suficiente para me sufocar e entrar em pânico. Céus! Tive medo, reafirmo. Medo de morrer só. Pior: de viver só, uma vida sem sentido, a qual eu não sei se não sei lhe dar o devido sentido ou é porque a consciência de que nada tem sentido me chegou assim, tão assustadora.


Advirto que se vocês ouvirem berros masculinos, não é de um bêbado que tenta se equilibrar nas beiradas de calçadas. É de um homem que confronta a própria solidão e não gosta do que vê.

2 Comentários:

pinguim disse...

Texto muito denso este, Sérgio!
A morte é um mistério e a solidão que sentiremos(?) nesse momento, não será obrigatoriamente má; já considero negativa essa ideia de que ao sentires-te só, te lembres da morte - afasta lá essa coisa...
Lembra-te antes da Vida!!!!!

Redneck disse...

João, pois é exatamente por estar pela vida que faço esta comparação. Concordo que o pensamento todo está por demais pesado, mas é o que eu sinto. E o pior: já em vida mesmo. Desculpe, estou mesmo pessimista. Beijo!

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Redneck, em inglês, define um homem rude (e nude), grosseiro. Às vezes, posso ser bem bronco. Mas, na maior parte do tempo, sou doce, sensível e rio de tudo, inclusive de mim mesmo. (Redneck is an English expression meaning rude, brute - and nude - man. Those who knows me know that sometimes can be very stupid. But most times, I'm sweet, sensitive and always laugh at everything, including myself.)

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