Melhor entrar mudo e sair pelado
Alguns trechos do manifesto: "Quando estou nu, sou sempre eu a estar nu, e nunca o personagem. Ao despir-se do figurino, o ator despe-se também do personagem, e resta ele mesmo, apenas ele e sua nudez pessoal e intransferível. Fiz algumas poucas cenas de nudez muito parcial e eu me senti sempre muito mal, porque, despido, devia representar ainda, embora já sem personagem nenhum."
"A pornografia está tão dissimulada em nossa cultura que já não a reconhecemos como tal. ... Qualquer cineasta de primeiro filme (referência indireta a Selton Mello) se acha no direito de determinar que uma atriz (referência indireta a Graziella Moretto, namorada de Pedro Cardoso) deve ficar pelada em tal cena ... E, depois, é frequente que esses cineastas de primeiro filme exibam para seus amigos, em sessões privê, as cenas ousadas que conseguiram arrancar de determinada atriz (Selton teria feito sessões domésticas depois de cada dia de filmagem)."
A íntegra do discurso de Pedro Cardoso foi publicada no blog do ator. Cardoso não explicou a que, exatamente, se referia e ficou apenas nas entrelinhas. Mas, a classe artística se dividiu entre opiniões favoráveis e contra o ator.
Do que sei do ofício de ator, o ato de desnudar-se perante a platéia - seja no teatro, cinema, televisão ou em qualquer outro meio/performance - é apenas mais uma representação. Discordo totalmente do ator. Para mim, Cardoso foi movido por razões pessoais que nem ao menos ficaram claras, a não ser para as pessoas que o conhecem.
Desde o Egito antigo, a nudez tem sido praticada em maior ou menor escala em vários segmentos das sociedades, inclusive nas artes. Ora a nudez é liberada, ora reprimida. Depende da orientação política. Claro que em algumas sociedades a nudez sempre foi vista como tabu, ao passo que em outras, a nudez é totalmente natural.
Mas, e Pedro Cardoso deve saber disso, nascemos todos nus. Em qualquer sociedade dessa Terra que convencionamos chamar de mundo. Sinceramente, não entendo a ira do ator. Um ator, quando trabalha, tem acesso, antes de tudo, a um roteiro ou script, com as respectivas cenas, inclusive de nudez.
Por isso, achei estranho quando alguns colegas do ator reclamaram. Que eu saiba, a não ser nas peças do Zé Celso, ninguém - atores ou não - é obrigado a ficar nu. A namorada de Pedro Cardoso, por certo, não foi submetida a algum tipo de tortura para tirar a roupa. Ela sabia disso. Quanto ao Zé Celso, mesmo os incautos devem saber que o diretor e atores do Teatro Oficina não hesitam em se despir e à platéia. Ir ao teatro do Zé Celso é despir-se de preconceitos. Se tirarem sua roupa em frente à platéia você fará o quê? Já passei perto disso e escapei. Não tive a mesma sorte no Centro Cultural, quando fui coagido por atores a coabitar com uma atriz e um ator nus.
A nudez do ator, Pedro Cardoso, não é pornografia. A pornografia está inscrita em registro diferente e é identificável, mesmo por atrizes que não entenderam o roteiro antes de tirar a roupa. Veja bem: não é sexo explícito, é apenas nudez. A pornografia, na minha concepção, está mais próxima do que escrevi no post abaixo.
Tenho cá com os meus botões (se eu não estiver nu) que o melhor era Pedro Cardoso ter entrado mudo e saído pelado como sinal de protesto. Combinaria melhor como performance e seria engraçado.
2 Comentários:
a roupa de rei do Pedro
Dona Sra. Urtigão: "Fui mal compreendido. Estou querendo falar da construção do Brasil e de como a pornografia, nos meios de comunicação de massa, atrapalha o país a se identificar", afirmou Pedro Cardoso em entrevista à Folha de S.Paulo deste domingo. Oras, por certo, Pedro acha que nascemos, como nação, de anglo-saxões puritanos, e não de índios e negros nus e portugueses que gozavam nas senzalas e aldeias, donde surgiu o povo que somos. Beijo!
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