The book is on the table
Nessa prospecção de pré-sais literários, que me enriqueçam no estoque de dúvidas me deparei com, pelo menos, uma pequena obra-prima, com uma história de desolação e redenção, com um looser (perdedor) do governo Tatcher e com um erudito autor que está mais perdido do que cego em tiroteio. Também adicionei à estante gastronômica dois livros temáticos porque a fome de absorver é semelhante à fome de comer. Compartilho com você esses títulos maravilhosos. Claro que não encontrei resposta alguma e, pior, acrescentei outras interrogações às existentes. Isso não reduz em nada, porém, o prazer que encontro nas páginas sem fim.
Como esses volumes todos já se transformaram em registros na minha memória, a tendência é que eu revisite as livrarias ainda hoje, na busca incessante de autores. Sou um leitor em busca de um autor, sempre. Talvez em algum momento eu revide e crie no leitor semelhante expectativa. Um dia ...

"Uma Vida Menos Ordinária" (Baby Halder, Arquipélago Editorial, 219 páginas) me atraiu pelo título, é óbvio. Se o Por uma Second Life menos ordinária rastreia o fundamento do que é infundado e me faz escrever, escrever e escrever, o que será que deu o impulso a uma autora indiana para fazer o mesmo? Baby Halder foi abandonada pela mãe aos quatro anos e se casou aos 12 com um marido violento e ignorante, do qual nunca houve nada, a não ser despropósitos.
A história é real e retrata a vida da mulher na Índia contemporânea: o livro foi publicado pela primeira vez em 2004. Ao fugir de casa, com dois filhos - e deixar para trás um terceiro - Baby consegue reconquistar o controle de sua vida. Empregada doméstica de um professor universitário, a autora é motivada pelo patrão a começar a escrever sua história como forma de promover a catarse de sua vida. E, aos poucos, o diário se transforma no livro "Uma Vida Menos Ordinária". Para ler e horrorizar-se com o sistema patriarcal indiano que enxerga a mulher como uma extensão dos objetos da casa e como posse do marido. Cotação: médio, apenas como referência da mulher na Índia.

"Garota Encontra Garoto" (Ali Smith, Companhia das Letras, 130 páginas) é, na minha opinião, uma pequena obra-prima que brinca com o mito de Tirésias - único ser que teve a experiência de ser, sucessivamente, homem e mulher. Mas, a autora, Ali Smith, não faz essa relação com Tirésias, que é uma injunção minha mesmo. Para mim, o livro é mais sobre esse mito do que sobre o mito de Ifis, de Ovídio, ao qual a história é referenciada. Ou, ainda, o mito do andrógino, que pode ser outra leitura.
Em "Garota Encontra Garoto", Ifis é criada como menino pela mãe na ilha de Creta e, um dia, descobre ser mulher. Ifis se casará com Iante, uma outra mulher a quem ama desesperadamente e teme não satisfazer a esposa na noite de núpcias. Esse é o mito que serve como base para o livro. As personagens do livro são duas irmãs - Anthea e Imogem - que vivem em Inverness atual (Escócia). A obra é uma poesia, uma flor em meio a pedras. Cotação: ótimo.

"Menino de Lugar Nenhum" (David Mitchell, Companhia das Letras, 464 páginas) é uma obra universal sobre garotos adolescentes. "Garotos que são azucrinados agem como se fossem invisíveis para reduzir as probabilidades de serem notados e azucrinados", descreve a editora na contracapa do livro. O cenário é a Inglaterra de 1982 - Margareth Thatcher, Guerra das Malvinas, recessão britânica e o casamento de Lady Di. O menino - Jason Taylor - é sensível, gago e escreve poemas e descobrirá o mundo em meio à crise do casamento dos pais em alternância com momentos de leveza, crueldade, lirismo e humor. Me identifiquei completamente com esse menino de lugar nenhum que, afinal, está em todos os lugares, no coração de cada menino que se sentiu sozinho na pré-adolescência. Cotação: ótimo.

"Um Romance Russo" (Emmanuel Carrère, Alfaguara, 247 páginas) foi sucesso de público e de crítica no ano passado na França. São três histórias paralelas - um caso de amor doentio, uma viagem ao mais recôndito interior da Rússia e uma pequisa sobre o avô, colaboracionista dos alemães na Segunda Guerra Mundial. O autor é escritor, roteirista e diretor de cinema e domina uma linguagem permeada de erudição. Se eu escrever um livro algum dia, quero ser tão erudito como Carrère. "Um Romance Russo" é uma narrativa autobiográfica que revela ao leitor tudo: os enganos, as crises de ciúmes e os fantasmas familiares do autor, sem cortes ou censura. Cotação: bom, muito bom.

Para finalizar, dois novos volumes fazem parte da seção de gastronomia da minha estante: "O Livro Essencial da Cozinha Asiática" (Paisagem Distribuidora de Livros, 304 páginas), que traz fotos, receitas, ervas, especiarias e verduras asiáticas e abrange o universo gastronômico de 16 países da Ásia: China, Indonésia, Singapura, Malásia, Filipinas, Tailândia, Laos, Camboja, Vietnã, Coréia, Japão, Índia, Paquistão, Birmânia e Sri Lanka. Para apreciadores, amadores, profissionais ou qualquer pessoa que gosta de comida: em resumo, todos. Cotação: bom.

O outro livro temático é "O Mundo da Culinária - Cozinha Espanhola" (Lisma, 127 páginas). São receitas e dicas de todas as regiões da Espanha: Andaluzia, Estremadura, Castela Nova, La Mancha, Castela Velha, Galiza, Astúrias, Cantábria, País Basco, Navarra, Aragão, Catalunha, Levante e Ilhas Baleares. Para ler e praticas. Para iniciados. Cotação: médio.
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